politica 07/03/2018 às 14:05

Uma análise da pesquisa CNT-MDA: Temer é competitivo

* Opinião. Eduardo Bisotto. Diretor do Sul Connection.

Pesquisas são como bíquinis: mostram quase tudo, mas costumam esconder o essencial. Uma olhada superficial nos números da última CNT-MDA publicada ontem parece enterrar de vez a candidatura de Michel Temer à reeleição e aconselhar o governo a nem mesmo ter um candidato. Uma análise que não poderia estar mais longe do que os próprios números da pesquisa dizem.

Se não, vejamos: nos cenários com seu nome colocado, Temer tem entre 0,9% e 1,3%. É número de Levy Fidélix, de Rui Costa Pimenta, de José Maria Eymael. Entretanto, a coisa muda (e bastante), quando se avalia o Governo Federal (do qual Temer é o rosto conhecido). 4,3% dos entrevistados dizem que o Governo faz um trabalho ótimo ou bom. Como sabe todo mundo que já analisou uma pesquisa, eleitores que avaliam o governo assim costumam votar em seu candidato. Mas não para aí: para 20,3%, o trabalho do governo é regular. Regular não é ruim e nem bom, mas costuma captar eleitores que buscam ser moderados, mesmo aprovando o atual trabalho da gestão.

Sigamos: na aprovação do desempenho pessoal de Temer, 10,3% consideram sua atuação positiva. Já é mais do que o dobro dos que avaliam o governo positivamente. E mostra que pelo menos para 6% dos que marcaram Regular na avaliação do governo, Temer é um bom Presidente.

Finalizemos com as perguntas de expectativa. As opções de respostas eram três: vai melhorar, vai piorar ou vai ficar como está. Isso diz muito mais sobre o presente do que o futuro. Diz como o eleitor está se sentindo neste momento. Aqui sabemos se ele é otimista, pessimista ou realista. E podemos chegar a uma conclusão, ainda que apressada, sobre sua tendência de voto. O otimista tenderá a manter o governo que aí está, o pessimista tenderá a buscar uma opção na oposição e o realista flutuará, buscando o menos pior.

Emprego: para 28,9% vai melhorar. 31% dizem que vai piorar. E 37,9% dizem que ficará igual. Quase 30% de otimistas, praticamente um empate com os pessimistas.
Renda mensal: para 23,3%, vai aumentar. 19,5% acreditam que vai diminuir. 54,1% dizem que ficará igual. 23% de otimistas. Nem 20% de pessimistas.
Saúde: 23,5% acreditam que vai melhorar. 32,6% dizem que vai piorar. 42,3% dizem que ficará igual. Praticamente o mesmo número de otimistas em relação a renda.
Educação: para 26,5%, vai melhorar. 27% afirmam que irá piorar. 44,6% que ficará igual. Uma leve alta de otimismo em relação à renda e saúde.
Segurança pública: para 25,3%, vai melhorar. 37,4% dizem que vai piorar. 35,7% dizem que ficará igual. 

Exceto pelo emprego e pela educação, com otimismo um pouco além da margem, na média a expectativa de pelo menos 20% do eleitorado (considerando a margem de erro pra baixo) é de que haverá melhora na sua vida, em todos os setores, nos próximos meses. São otimistas. Otimistas tendem a votar com o governo. E aqui está o potencial de voto ATUAL de Temer.

Note-se: Temer ainda está debaixo de porradas. Nem mesmo aliados como o DEM defendem seu governo publicamente. A grande imprensa é praticamente unânime na oposição, para não falar da militância oposicionista diuturna da Rede Globo, principal formadora de opinião no país. Num cenário assim, é feio e socialmente negativo admitir que se está considerando votar nele. Que considera seu governo bom. Que acha sua atuação positiva. 

Entretanto, bem analisados os números, o bíquini começa a mostrar o essencial. 

Nos cenários analisados pela pesquisa CNT-MDA, o principal candidato segue sendo Lula. No cenário em que seu nome é colocado, ele tem 33,8%. O número é coerente: 30% é o piso histórico do lulismo no Brasil. Em seguida vem Jair Bolsonaro, com 16,8%. Após Bolsonaro, temos um abismo, com Marina Silva aparecendo com 7,8%.

Consideramos a realidade: Lula, hoje, está impedido juridicamente de ser candidato. Pode transferir seu piso histórico para um novo poste, como fez com Dilma? É claro que sim. Mas vale lembrar que nunca o PT esteve tão desprovido de máquina para a eleição. Em 1989 e 2002 tinha a Prefeitura de São Paulo. Em 2006, 2010 e 2014, estava à frente do Governo Federal. Agora tem apenas a própria garganta de Lula. Costuma ser pouco em eleições tão difíceis quanto uma Presidencial. 

Bolsonaro ainda não filiou ao PSL, ainda não sabemos quantos deputados levará consigo, caso filie e se será capaz de atrair aliados para que não passe completamente desapercebido durante o horário eleitoral. Apesar do que a galera da internet pensa, a eleição não será decidida só aqui e no Whattsapp. A propósito, a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar) do IBGE mostra que cerca de 40% dos brasileiros não tem acesso a nenhuma ferramenta que tenha a ver com redes sociais ou programas de mensagem instantânea (como o Whatts). Esta camada da população, segue se informando pela Globo e pelo Horário Eleitoral. É muita gente.

Sendo assim, Temer está no bolo. Tem os 10% que avaliam sua atuação pessoal como positiva. Tem algo em torno de 20% de brasileiros que estão otimistas com o futuro. Tem o maior partido do país, certamente terá uma aliança grande, dada a influência do Governo, juntando partidos pequenos e médios e tem a própria máquina do Governo Federal à disposição. Uma máquina que costuma fazer um estrago significativo em eleições no Nordeste, por exemplo.

Ainda tem muita água pra passar por debaixo da ponte. 

Mas tendo por base os números da CNT-MDA, Temer segue vivíssimo. Numa eleição fragmentada, com múltiplas candidaturas no primeiro turno e pouquíssimo tempo de campanha (45 dias) e menos ainda de TV (30 dias), com doações empresariais proibidas e o financiamento absurdamente dificultado, sua ida para o Segundo Turno e sua entrada lá como favorito pode ser a maior surpresa facilmente previsível que já ocorreu na política brasileira. 

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