politica 03/03/2018 às 12:15

De onde menos se espera, nada vem: por que a oposição venezuelana não derrubará o chavismo

* Opinião. Eduardo Bisotto. Diretor do Sul Connection.

Antes de mais nada, é preciso entender como o coronel Hugo Chávez Frías, após duas tentativas de golpe militar mal sucedidas chegou ao poder. Chávez, um membro da classe média baixa venezuelana, como tantos jovens de sua geração, viu no Exército a única chance de melhorar de vida numa sociedade absurdamente desigual e com mobilidade social praticamente inexistente. Algo como Luís Carlos Prestes, Ernesto e Orlando Geisel, Juarez Távora dentre tantos outros militares brasileiros que lideraram movimentos golpistas dos mais variados matizes ideológicos de 1920 até 1964 no Brasil. Se a sociedade em que se nasce fecha as portas para o acesso às condições de vida melhores, é natural que se procurem atalhos.

No Exército, Chávez uniu-se a outros jovens como ele e começaram a buscar os atalhos que fariam com que eles furassem a barreira da mobilidade social. Sim: Copei (Democracia-Cristã) e AD (Social-Democrata), os dois partidos tradicionais que dominaram a política venezuelana por QUARENTA ANOS (entre 1958 e 1998), fecharam completamente o acesso ao poder e ao dinheiro para qualquer um que não fosse parte da minúscula elite branca. Se o chavismo não entregou industrialização e desenvolvimento com o petróleo, o mesmo vale para a antiga elite. Durante as quatro décadas em que mandou e desmandou na PDVSA, o petróleo venezuelano serviu tão somente para manter um estilo de vida nababesco para meia-dúzia de famílias de oligarcas.

A chegada de Chávez ao poder em 1998 contou com praticamente um consenso social. Não a toa, menos de um ano depois, Chávez convocava uma Constituinte com amplo apoio social e elegia ampla maioria. Nesta primeira fase da assim chamada “Revolução Bolivariana”, começa-se a gestar a radicalização de uma oposição sem agenda, sem projeto, sem alternativa de futuro, movida única e exclusivamente à uma retórica belicista, negacionista, de confronto. E que, com esta postura, vai conseguindo única e exclusivamente ampliar o divórcio que já possuía com a ampla maioria do povo venezuelano, vendo-se confinada em um gueto minúsculo.

O ápice da patetice oposicionista chega em 2002: numa desastrada tentativa de golpe, apoiados por meia-dúzia de oficiais das Forças Armadas e contando com incentivo da embaixada americana, empossam o empresário Pedro Carmona no poder, prendem Chávez e decretam o fim da Revolução Bolivariana. Por poucas horas. Assim que a população de Caracas é informada dos acontecimentos, os morros descem, a ampla maioria das Forças Armadas reage, Carmona tem que fugir às pressas para a Colômbia e Chávez é reempossado.

Até o golpe de 2002, a oposição ainda contava com ampla influência na gestão da PDVSA, chegando a ocupar cargos de direção, além de ser dona dos principais meios de comunicação venezuelanos e contar com capacidade de influenciar a vida econômica através dos sindicatos patronais. Inclusive todo este aparato de poder foi utilizado na preparação do golpe de Carmona, com um lockout que durou alguns meses, visando paralisar a economia do país e angariar algum apoio popular. Tudo isso veio abaixo no pós-golpe, que deu para Chávez a desculpa perfeita para proceder uma limpa na PDVSA e iniciar uma perseguição sistemática dos meios de comunicação.

Não contente com o desastre político de 2002, esta mesma oposição ao chavismo liderou o boicote às eleições de 2005. Resultado? Chávez elegendo a totalidade dos congressistas e alterando a Constituição mais uma vez, agora para garantir sua reeleição indefinida.

Vale ressaltar que neste intervalo, o governo bolivariano aplicou uma série de medidas sociais que o legitimaram e foram ampliando seu apoio. No topo da pirâmide social, surgiram os boli-burgueses. Algo como nossos “Campeões Nacionais” criados pelo BNDES. Com uma diferença fundamental: anteriormente, apenas meia dúzia de venezuelanos compunham o topo da pirâmide social. O chavismo alargou-a, permitindo o acesso de gente de baixo à parte de cima da cadeia produtiva.

Já para os setores médios e para os mais pobres, programas educacionais, de saúde e sociais se disseminavam por toda a Venezuela. Uma população acostumada a não ter absolutamente nada, agora desfrutava, ainda que apenas com migalhas, dos frutos do boom no preço do petróleo. O leitor pode considerar que isso não é nada, mas para quem nunca teve nada, simples migalhas já representam um avanço infinito.

Enquanto isso, a oposição segue na retórica belicista. Segue sem apresentar propostas, alternativas, um novo modelo. Absolutamente nada. Seu único momento de alguma lucidez política vai se dar na criação da Mesa de Unidade Democrática, liderada pelo jovem governador Henrique Capriles Radonski. Capriles, que participou do golpe de 2002, fez a autocrítica, tornou-se governador do importante estado de Miranda e passou a tentar conduzir a oposição a um caminho menos suicida. Ainda não foi o suficiente.

Mesmo com Capriles fazendo 45% dos votos na disputa direta contra um moribundo Chávez e depois empatando a eleição contra Maduro (51 a 49), a dispersão oposicionista continuou. Vários de seus setores seguiam pregando a ruptura absoluta da ordem constitucional, a não participação nas eleições, o confronto em praça pública. Maduro aproveita-se justamente desta confusão dos diabos nas hostes oposicionistas para mudar mais uma vez a Constituição. A oposição rachada discute até hoje se deve ou não participar da política venezuelana. Enquanto de um lado prefeitos oposicionistas defendem a participação, de outro radicais vão pra ação direita, como o ex-ator Óscar Pérez, que roubou um helicóptero e disparou contra o Congresso e o Supremo Tribunal de Justiça venezuelanos.

Neste cenário maluco, não tem crise econômica que consiga derrubar o regime. Se em 2011, logo após a eleição de Dilma Rousseff, o ex-Presidente José Sarney (MDB) previa que só um racha nas forças governistas poderia tirar o PT da Presidência, isso vale muito mais para a Venezuela. A oposição não tem legitimidade, não tem base social e não tem ao menos um programa alternativo ao chavismo que conte com um mínimo de apoio.

Maduro só cairá (se cair), a partir de um racha interno do chavismo. Tal possibilidade, ao menos aparentemente, não parece colocada no horizonte imediato.

É claro que sempre existe a possibilidade de uma intervenção externa para “reestabelecer a democracia”. No Iraque, Bush Jr. tentou algo assim para criar a democracia por lá. O resultado foi a criação do Estado Islâmico.

A Venezuela é rica em lições políticas para quem quer olhar sem preconceito. Mobilidade social é um preceito básico para a manutenção de um regime capitalista e democrático minimamente estável. Ter um programa claro, com ideias factíveis e que consiga dialogar com a maioria da população, é o pressuposto fundamental para a construção de maiorias e, portanto, para conseguir ascender ao governo.

Quando o lado que se quer representante do campo democrático não possui nem um e nem o outro, o caminho fica aberto ao populismo autoritário.

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