geral 02/03/2018 às 01:09 - Atualizado em 02/03/2018 às 01:17

A entrevista de Lula. Ou: por que tanto talento jogado fora?

* Opinião. Letícia Dornelles (43) é autora de televisão, apresentadora, jornalista e escritora gaúcha.

Confissões... Sim. Eu vi a foto gigante do Lula na primeira página da Folha. Pensei que tivesse sido preso na madrugada. Mas, não. Era entrevista à Monica Bergamo.

Na abertura, a colunista achou por bem dar o tom de "ufa, que sufoco, consegui falar com o presidente".

Sim, ela o chama de "presidente". E ele a chama de "querida" e "minha filha".

Não vi ninguém reclamar "não sou sua querida, seu machista humilhador e desqualificador de mulher".

A introdução do texto é "um assessor avisou que a repórter iria interromper , fazer perguntas fortes". Porque o Lula obviamente não conhecia a repórter. A coluna quase nunca cita o PT, os passos, o que comeram no almoço. Lula provavelmente tremeu com a advertência. Ri muito.

A partir daí senti depressão. Porque o Lula é ótimo. Sabe tudo de política. É craque. Tem as manhas. Manda os recados precisos. Sabe quem é quem e como o jogo funciona _ mesmo quando se faz de sonso. Aliás, o Lula se fazendo de sonso merece uma tese de doutorado. Os olhinhos tímidos e embaixo da mesa murmurando "não sei, seu moço". Mas quando sai o personagem tolinho, Lula vê com clareza a calhordice que vivemos. Talvez por ter criado muitos desses caminhos tortos. Ter andado sem limites e sem freios por eles. Dono do pedaço. Quer dizer. O pedaço do amigo. Não dele.

Admito. Gosto de ler o Lula. Pouca coisa me diverte tanto na internet quanto os tweets do Lula. Tem a malandragem que faz rir. Não irrita. Parece aquele sujeito que bebe além da conta na festinha da família e fala do put*iro na frente da vó do crochê.

Tem também trechos em que se coloca num altar para adoração. E vê conspiração até no ar que Sérgio Moro respira. Aí joga para a galera. Lança o arsenal de clichês que os adoradores espalham.

Depressão. Um amigo fazendeiro me disse outro dia: "se eu tivesse de escolher entre Lula e FH para tomar cerveja e pescar, seria o Lula. E olha que eu detesto o Lula".

Depressão. Porque eu também escolheria o Lula para beber cerveja e pescar. Provavelmente seria divertidíssimo. Imagina o Lula na beira de um rio contando causos reais. Abrindo o verbo. Ô.

Não vejo político algum com esse carisma. Com esse domínio de plateia. Com essa trajetória tão dramaturgicamente rica. Cheia de subtramas.

Acredito que tenha muitos seguidores, parceiros, fanáticos, mas poucos amigos. De verdade. Íntimos. De confiança. De desabafar.

Depressão. Por que um sujeito que saiu lá de Garanhuns, que chegou ao maior cargo da República, jogou tanto talento fora? Por que enveredou pelo Lado Negro da Força? Por que, Lula?

Que m*rda, Lula. Queria muito acreditar nessas conspirações. Para não ver uma história que poderia ser heróica e real virar notinha policial. Virar amontoado de clichês e mentiras. Mas não consigo.

Não. Melhor evitar a pescaria. Concentrar nos processos e condenações. A peça de defesa impressa foi muito boa. O cara é "perigoso" e talvez faça alguém mais frágil virar eleitor dele. Mesmo com aquele casaco cafona do Morales. Mesmo ameaçando prender Sérgio Moro, procuradores, e meio mundo.

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