politica 01/03/2018 às 17:01 - Atualizado em 01/03/2018 às 17:05

Bolsonaro Senador

* Opinião. Michel Matias Vieira. Médico. Especialista em Psiquiatria.

Numa eleição, o candidato “novo” nunca vence só porque é novo. Ou ele tem uma brutal estrutura atrás de si, como a que vemos se formar para alicerçar Luciano Huck. Aliás, foi o que também ocorreu com Emmanuel Macron na França (só faltou Angela Merkel subir no palanque). Pode ser que para além disso o candidato “novo” tenha também contra si adversários fraquíssimos, caso de João Dória, ou ainda se imponha com um discurso de verdades inconvenientes relacionadas a um mainstream encastelado em nichos formadores de opinião, trazendo para si uma imensa fatia do eleitorado alijada do debate porém sequiosa, não de debater, mas de seguir em paz com sua vida tendo alguém que as represente no governo – eu me refiro a Donald Trump.

Certamente você pode achar que estas análises acima estão um tanto açodadas, que estes citados não venceram só por estas razões. Ok, então retomemos: o “novo” não vence só por ser novo. Para além deste apelo, vai ser necessário estratégia e estrutura – e aí falamos também de dinheiro. Dos postulantes ao Planalto, somente o eterno Lula dispõe das duas.

Pode-se discordar da estratégia, mas ela já deu certo outras vezes. Se por um lado não teremos o “Lulinha paz-e-amor” criado por Duda Mendonça, teremos uma “Fera ferida” a se debater nas cinzas rumo a um redentor ressurgimento. Ainda que o resultado do julgamento em Porto Alegre não tenha a menor importância, bem trabalhada esta narrativa dá um segundo turno.

Luciano Huck tem a Globo (que junto com a Veja elegeu Collor em 89), além dos financiadores do globalismo (nada a ver com a emissora, vocês sabem que não) travestidos nestes coletivos como o Movimento Agora – e que gente mais chatinha, meu Deus! Além desta estrutura, tem a estratégia, por enquanto subliminar como toda boa propaganda (e é só isso que ele sabe ser, uma propaganda) mas plenamente em marcha e com potencial imenso. Resta ver se o povo engole um produto quando talvez devêssemos ter a maturidade de exigir apenas candidatos de verdade.

Henrique Meirelles não é novo nem de cargo nem de urna, mas tem o frescor de nunca ter disputado o desgaste de uma eleição nacional – no que talvez esteja passos a frente de Alckimin. Ambos tem uma parruda estrutura partidária por detrás e suas pregressas vidas públicas são a base de seus discursos – isso faz muito bem a uma eleição. Dificilmente Alckmin vai deixar de personificar o “velho”, talvez até sozinho, o que pode se converter num trunfo.

Como “velho” é Álvaro Dias, vindo como aquele camisa 10 que encerra a carreira em time médio. Vai com sua equipe disputar o meio da tabela e fazer um campeonato digno. Nada mais que isso.

Tem o sempre presente bloco dos palhaços (desculpa, mas quem nos faz rir é palhaço), com os incansáveis Eeeeeeymaeeel, o Dr Rey (incansável na autopromoção), o cara do Aerotrem, além do Collor, que sem os esquentadores-de-costas de 89 será só o Collor.

Deixei Bolsonaro para o fim. Sua estrutura existe, mas é mambembe e sem padrão, personificada nas ações de seus Tifosi. Barulho de militância é cortina de fumaça. Precisa mais consistência para dar impressão de uma energia dispendida com conteúdo, não só com raiva “de tudo isso que está aí”. Sem contar que o Capitão ainda não mostrou aptidão para o básico no presidencialismo Brazuca, que é o varejo com os partidos. Nem partido, aliás, ele tem.

Sobre esse último, o PSL, com quem negociava, ele disse que o quer para eleição, e uma vez eleito o devolverá para o dono. Eu o ouvi dizer isso. A gente sabe que coisas assim se fazem. Mas não se falam. O único sentido para frases assim, além do “comer gente” e de outras que virão, parece ser inviabilizar sua candidatura presidencial e o jogar logo na corrida para o senado (que parece ser o que ele sempre quis). Mesmo que saia para presidente, vai ser apenas o responsável pelas “mitadas” nos debates, papel de Eduardo Jorge na eleição passada.

Uma eleição tem a cara do seu tempo, além de ser reflexo de nosso sistema político e legislação. Não repetiremos 89, nem 2018 será repetido. A análise de que será uma disputa entre “os crus e os podres” não se sustenta – além de ser de um maniqueísmo infantil. Se há algo a lamentar vai ser a lenga-lenga de que o “povo quer o novo”. Ninguém aí na disputa é novo. Ninguém é cru. Votaremos, talvez, no menos podre.

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