economia 28/02/2018 às 13:52

Não é a economia, estúpido

* Opinião. Excertos de artigo de Cesar Maia para Insight Inteligência.

James Carville, publicitário responsável pela primeira campanha presidencial de Bill Clinton, ganhou notoriedade com a vitória do democrata sobre George Bush pai, candidato à reeleição. Bush abriu a campanha disparado na frente, após a primeira guerra no Iraque, transmitida em tempo real pela CNN, e com vitória rápida e decisiva dos EUA. Na Guerra do Golfo (08/1990-02/1991), Bush teve a seu lado os destacados generais Colin Powell, secretário de estado, e Norman Schwarzkopf, comandante das operações –, ambos estrelas da mídia naquela conjuntura. Surpreendentemente, na parte final da campanha, a diferença pró-Bush foi diminuindo, até que Clinton se aproximou.

Numa das reuniões de Carville com sua equipe, ainda com Bush favorito e na dianteira, gravada em vídeo e depois amplamente divulgada após a vitória de Clinton, as dúvidas ainda persistiam. Carville, de pé e aos berros, determinou a estratégia da vitória: “É a economia, estúpido!!!”. Carville realizou uma ampla pesquisa com cerca de 40 perguntas. Em todas – menos numa – os temas levavam Bush à vitória. A exceção foi a economia e o emprego, que depois do auge, durante a Guerra do Golfo, começavam a declinar. Carville focalizou a campanha no emprego/economia, apenas um dos 40 temas pesquisados, e sua frase ficou famosa. Ou seja, a situação da economia conduziria o resultado eleitoral. Essa frase passou a ser um carma para os marqueteiros. A situação de hoje, nos EUA de Bush, contraria essa tese da economia como fator determinante da política e da popularidade presidencial.

O desgaste de Donald Trump nos Estados Unidos e no mundo todo vem destacado pelas pesquisas de opinião que o colocam com a pior aprovação presidencial por décadas. Mas a reversão econômica e o crescimento de 3% ou pouco mais, nos últimos trimestres, com queda do desemprego e da inflação, não afetaram sua avaliação. Sua impopularidade não apenas se mantém como se agrava.

No Brasil ocorre fato semelhante. Michel Temer convive com uma impopularidade recorde. Desde que assumiu a presidência após o impeachment de Dilma, a curva de sua avaliação é declinante, chegando no final de 2017 a 5% de avaliação positiva. Mas, ao lado dessa curva – declinante e sustentada – os gráficos com os indicadores econômicos mostraram trajetória completamente invertida no segundo semestre de 2017. A economia voltou a crescer e os analistas chegaram a falar que a recessão acabou. O desemprego começou a diminuir e vem sendo assim nos últimos meses. A inflação despencou para um nível de 3%, raro nos anos pós-Real. O setor externo apresentou saldos crescentes.

Os juros têm sido reduzidos, atingindo quase a metade do que eram na transição do impeachment. Temer mostrou forte vitalidade no Congresso, mesmo debaixo de um enorme noticiário negativo com as duas denúncias apresentadas contra ele pelo então Procurador-Geral, Rodrigo Janot. Em estudo publicado no caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo (29/10/2017), Carlos Pereira, doutor em ciência política pela New School University, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e professor visitante na Universidade Stanford, demonstrou com dados e gráficos que, desde FHC (1995) “Temer é o presidente mais eficiente na relação com o Congresso”. Nesse estudo, Carlos Pereira mostrou que Temer tem o menor custo-benefício no jogo parlamentar. Isso desmente o noticiário que atribuiu o apoio a Temer a uma política abusiva de clientela – com cargos e emendas – que teria sido recorde na votação das duas denúncias.

E isso porque essas votações retardaram a votação das reformas econômicas que restam e levantaram dúvidas sobre as suas aprovações. É provável que, vencida a turbulência dessas pautas mais sensíveis na Câmara de Deputados, essas votações retornem à ordem do dia. Mas, assim mesmo, não há qualquer expectativa que ocorra uma reversão significativa e abrupta na avaliação de Temer. A política de clientela não explica os votos dos deputados atentos às suas bases a apenas um ano das eleições de 2018. Os casos de Trump e Temer desmentem a assertiva de Carville como uma regra geral, compulsória e inexorável nas correlações entre Economia e Política no que diz respeito aos chefes de governo. Isso deve animar os “mercados”.

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