politica 27/02/2018 às 14:51

A conjuração dos fanáticos fracassados

* Opinião. Eduardo Bisotto. Diretor do Sul Connection.

Na noite de ontem levei um ban do Facebook por 24 horas. O ban veio após uma seqüência orquestrada de denúncias em posts de meses atrás. A seqüência de denúncias aconteceu após algum tempo em que o perfil foi utilizado para criticar a candidatura de Jair Messias Bolsonaro, com ênfase aos seus Minions, uma horda de fanáticos de fazer inveja aos hunos de Átila em sua fase pré-contato com Roma.

A gota d’água foi um post em que expus Bruna Luiza, uma das famigeradas “Musas de Direita”, destas que ficam meses postando laudas e mais laudas no Facebook sobre a obrigação que mulheres têm de casar e parirem mais do que coelhas ao mesmo tempo em que não é casada e tampouco é mãe de um filho que seja.

A tempestade estava formada: Minions, manginas e fanáticos fracassados, unidos para tentar me calar a qualquer custo. Pode parecer uma bobagem. Não é. Revela a alma profunda desta gente.

Lembro-me dos saudosos tempos no Orkut em que nos atracávamos com petistas. O pau cantava, rolava tudo quanto era tipo de xingamento, grupos se formavam de lado a lado e discussões poderiam levar dias, semanas, meses sem que chegassem a um termo. O Orkut foi o último suspiro de uma internet pré-politicamente correto. Não havia o conceito de denúncias, não havia moderação da rede, tão somente nos próprios grupos (e os moderadores raramente moderavam alguma coisa), era praticamente uma terra de ninguém. Mas mesmo nesta terra de ninguém, havia um limite ético implícito: vencer a discussão era ganhar nos argumentos ou mesmo na gritaria. Jamais calar o oponente. Jamais impedi-lo de falar.

No auge do poder do petismo, quando Lula era Presidente com 80% de popularidade, as campanhas do partido nadavam em dinheiro e eles estavam entranhados na máquina do estado em agências como a Abin e a Polícia Federal, em NENHUM MOMENTO computadores, redes sociais ou e-mails meus foram atacados. Ontem à noite, no início do ataque da horda, antes de decidirem por derrubar o perfil com base em denúncias, tentaram invadir tanto o meu Facebook quanto o Messenger.

Fica clara a diferença: os petistas podiam ser fanáticos, podiam berrar pra valer, podiam xingar até a mãe, mas estavam convictos de seus argumentos. Não precisavam do meu silêncio para sentirem-se vitoriosos.

Estes neofanáticos fracassados, não passam de crianças desamparadas. Buscam em Bolsonaro o pai que lhes faltou na infância. Veem nos bandos virtuais aos quais se entregam, a família que acham que deveriam ter tido e não tiveram. Buscam nas Musas da internet os relacionamentos que na vida real são incapazes de construir. E então, partem para o vale-tudo. É o instinto de sobrevivência falando.

Incapazes de pensar por si, terceirizam o pensamento para um Guru qualquer. Travados na adolescência, com medo de progredirem à vida adulta, buscam em um político a salvação para o fracasso rotundo que suas vidas absolutamente desprovidas de sentido são.

Assim que o Facebook me liberar do banimento, uma drástica mudança irá se processar em meu perfil. Um perfil que já tem praticamente uma década de existência. Os familiares, amigos e mesmo colegas mais próximos, serão deslocados para outra conta, completamente fechada. Sei que daqui pra frente, o ataque dos ogros tende só a piorar. Lamento profundamente chegar a este ponto. Mas é a medida necessária para continuar dando combate ao fanatismo.

Em todo o tempo de existência do meu perfil no Facebook, nunca a conta havia caído. Isso prova que ela sempre respeitou as políticas da rede. Mas sei que uma rede imensa como o Facebook tem dificuldades óbvias para aplicar sua política de conteúdo de maneira contextualizada. Sendo assim, novas quedas serão inevitáveis. Mas ainda que o perfil seja banido, o combate continuará.

Continuará nos sites com os quais eu colaboro, continuará em outras redes como o Twitter, continuará por uma internet que a despeito de todo o politicamente correto e das hordas de lunáticos que por ela trafegam, segue livre.

O combate que eu travo não é e nem nunca foi um combate para converter estes lunáticos, tentar abrir os olhos de quem é cego ou trazer à vida adulta crianças desamparadas, desesperadamente necessitadas de pais fictícios, de gurus à distância ou de manadas para se sentirem protegidas.

É uma luta para que os que não cederam a este clima de histeria percebam o perigo com o qual estão lidando.

Muita gente boa não viu nenhum grande problema quando os Social-Democratas russos passaram a pregar contra a “autocracia czarista”: quando Lênin e sua facção bolchevique chegaram ao poder, já era tarde demais.

Muita gente boa não viu nenhum grande problema quando os Nacional-Socialistas alemães passaram a pregar contra a “miséria alemã e sua covardia frente ao Pacto de Versailles”: quando Hitler e o nazismo chegaram ao poder, já era tarde demais.

Muita gente boa vibrou quando um jovem advogado e seu fiel amigo médico fizeram uma “revolução humanista e democrática” numa pequena ilha caribenha: quando Fidel e Che Guevara transformaram Cuba num gigantesco campo de concentração, já era tarde demais.

Não, não estou dizendo que Bolsonaro é da mesma cepa que Lênin, Hitler ou Castro e Guevara. Pra começo de conversa, Jair é um político pragmático, que vive de mandatos parlamentares desde o fim dos anos 1980, quando se elegeu vereador no Rio de Janeiro. É deputado federal desde 1990. Bolsonaro, por si, é um mero político de carreira, que viu na política uma forma de melhorar de vida. Não a toa, forçado a se reformar no Exército para não ser expulso, viu seu patrimônio familiar chegar aos mais de R$ 15 milhões neste período.

Entretanto, o movimento que ele congrega ao seu redor, tem as mesmas características dos movimentos de massa que geraram todas as maiores tragédias ao longo do Século XX. Reúne gente ressentida, com ódio dos bem-sucedidos, convencida que o sistema (ou establishment, na formulação mais elegante) é uma máquina que lhes persegue pessoalmente e impede seu imenso talento de florescer.

Por isso são seduzidos tão facilmente por quem promete transformá-los em gênios com um cursinho semanal à distância. Nunca a falta de talento e capacidade foram tão facilmente superáveis, bastando se unir ao bando, repetir os mesmos slogans e idolatrar as mesmas figuras.

Esta horda reúne gente que não quer reconhecer que sua ausência de qualquer tipo de sucesso, seja material, seja amoroso, seja político, não é fruto de uma conspirata: é sua mais pura e absoluta responsabilidade, fruto da ausência de competência e maturidade mínimas.

Se Bolsonaro não tem os caracteres dos líderes totalitários, o movimento e o tipo de gente que ele reúne ao redor, tem. O que significa que em última escala, se tal movimento realmente atingisse às feições de um ascenso das massas, Bolsonaro se veria premido entre duas escolhas: ou transformar-se no líder totalitário que seu bando deseja ou ser engolido e substituído por um novo líder, que entregue o que os seguidores precisam: autoridade, punição, senso de redenção.

Este perfil ter caído pode parecer uma bobagem, mas, insisto, não é: já vimos outros casos de assassinatos de reputação que foram comandados por esta horda. De ataques intimidatórios. De humilhações. De exposições ridicularizantes absolutamente desnecessárias. Não sou o primeiro alvo. Certamente não serei o último.

E, justamente pelo histórico, justamente pelo perigo que esta gente demonstra ser maior, a cada dia que passa, por esta situação que vai se tornando cada vez mais assustadora, eu me recuso a ficar calado.

“Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”. Se a intenção era meu silêncio, colherão mais verdades. Se a intenção era não ver suas Vacas Sagradas expostas, terão uma verdadeira exposição agropecuário-ideológica.

Um movimento ancorado em histeria, fanatismo e reescrita da história, não tem como parir nada de bom. Isso fica claro quando um de seus principais expoentes tem orgulho de dizer que sua missão era tão somente “fo... a m... toda”. Para construir, é preciso talento verdadeiro. Para destruir, basta mobilizar o que as pessoas têm de pior.

Concluo parafraseando Sir Winston Leonard Spencer Churchill: lutaremos no Facebook e no Twitter. Nos defenderemos no Google. Exporemos a verdade em cada pedacinho de internet, mas também na vida real. Lutaremos até o final.

NUNCA NOS RENDEREMOS.

Ainda que os fanáticos tomem todo o país, seguiremos combatendo.

E onde quer que a liberdade, a maturidade e o bom-senso seguirem existindo, ali a resistência continuará.

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