politica 27/11/2017 às 10:45

Carta de desistência da candidatura Presidencial de Huck é um embuste

* Análise. Eduardo Bisotto. Diretor do Sul Connection.

A candidatura do apresentador e empresário Luciano Huck segue de vento em popa. É talvez a operação midiática de construção de um candidato mais agressiva já feita no Brasil desde aquela que conduziu Fernando Collor de Mello à Presidência em 1989. Com a diferença fundamental de que Collor levou três anos trabalhando incansavelmente seu projeto, desde o momento em que foi eleito Governador de Alagoas. Antes, havia sido Deputado Federal e Prefeito de Maceió. Huck tenta um salto muito mais audacioso: sem qualquer prévia experiência, trabalha de maneira bastante profissional para ir direto rumo ao Palácio do Planalto, como Presidente da República.

Nesta segunda-feira (27), a Folha de São Paulo traz uma carta em que Huck supostamente desiste da candidatura no próximo ano. A carta é um embuste e mais uma peça de propaganda do apresentador global em sua jornada pela candidatura. O texto está inteiramente escrito em linguagem política e de candidato, da primeira à última linha. 

Huck inicia comparado sua trajetória com a Odisséia de Ulisses. Como se nota, auto-estima não é um problema para o apresentador. Ele se vê para o Brasil tal e qual o Herói Grego estava para Ítaca. Para Huck,  "sair do conforto das selfies" e entrar no jogo político é o equivalente à trajetória mitológica do herói grego. Logo em seguida, ao golpe de uma frase, Huck parece descartar a candidatura Presidencial.  "Mas daí a postular a candidatura a presidente da República há uma distância maior que os oceanos da jornada de Ulisses", afirma.

Entretanto, como sabem todos que vivem na e da política há algum tempo, estes oceanos já não são tão distantes assim nos dias atuais. Os transatlânticos das redes sociais, combinados com o jato supersônico conhecido por Rede Globo de Televisão, podem facilmente transportar o Ulisses brasileiro para sua Ítaca Presidencial rapidamente. 

Em seguida, Huck ataca um ponto pelo qual vem sendo bastante criticado: "qual foi exatamente a trajetória, o fato e até mesmo o momento em que meu nome foi lançado entre os possíveis candidatos à Presidência do Brasil?", pergunta-se de forma retórica. E humilde como apenas heróis do porte de Ulisses podem ser, ele mesmo responde: "minha exposição pública e, espero, meu jeito, minhas características, minha personalidade e a forma como vejo o mundo. As mesmas forças que me movem desde sempre me levaram a esse lugar". 

Nota-se aqui mais uma vez a construção do mito, do herói, do Salvador da Pátria. "As mesmas forças que me movem desde sempre me levaram a esse lugar". Forças místicas movem Huck/Ulisses. Forças místicas sempre o moveram. São estas forças místicas que o levam para a Presidência da República. 

Depois de toda esta introdução heróica, era a hora de mostrar alguma humildade. E Huck/Ulisses o faz. "Explicando em outras palavras, entre as centenas de defeitos que carrego, talvez eu tenha uma única virtude: carrego desde sempre, genuinamente, enorme paixão e curiosidade pelo outro". Note-se: ele vai cuidar da gente. É um apaixonado pelas pessoas.

"Gosto muito de gente. Sempre gostei. De todo tipo, origem, tamanho, cor, posição na pirâmide. É só olhar para o que faço profissionalmente há mais de duas décadas. Não paro de procurar pelo diferente. E não falo de um olhar distante, acadêmico, teórico. Falo de andanças intermináveis por todos os quadrantes do Brasil e por vários do mundo atrás daquilo que não conheço. Ando há anos e anos por lugares ricos, paupérrimos, super ou subdesenvolvidos, em guerra, centros moderníssimos de saber, cantos absolutamente esquecidos pelo desenvolvimento. Sempre atrás da mesma coisa: gente boa". É ou não é a construção de uma candidatura Presidencial que temos aqui?

Agora, é hora de explicar o porquê Luciano Huck é quem encarna as virtudes e porque salvação não há para a atual política.

"E foi essa permanente "bateção de perna", sempre " in loco", que me tirou definitivamente da zona de conforto e me fez ver: O Brasil está sofrendo demais —especialmente os mais pobres, mas não apenas eles— para ficarmos passivos e reféns deste sistema político velho e corrupto. O que está aí jamais será empático, perceberá e muito menos traduzirá as reais necessidades da gente. Da nossa gente". OPA! "DA NOSSA GENTE"? É nosso herói deixando cada vez mais claro seu intento.

Quase ao final, Huck explica porque sua candidatura se tornou algo tão forte de maneira tão rápida.

"O momento de total frustração com a classe política e com as opções que se apresentam no panorama sucessório levou o meu nome a um lugar central na discussão sobre a cadeira mais importante na condução do país".

E já finalizando, ele afirma: "Quem se interessa pelo que sou e faço pode acreditar: vou atuar cada vez mais, sempre de acordo com minhas crenças, em especial com a fé enorme que tenho neste país".

Só há uma frase aparente de desistência: "Contem comigo. Mas não como candidato a presidente".

Não, Luciano. Contamos sim. Iremos implorar ao nosso Ulisses que nos salve. Iremos pedir pelo amor de Deus para este homem hiper-virtuoso, repleto de sonhos, agregador, que conversou com sábios das mais diversas áreas, gestor obsessivo e pronto para salvar o país para que se candidate.

A carta de Luciano Huck na Folha é um embuste. Muito mais do que a desistência de sua candidatura, é um Manifesto de Lançamento.

Huck é candidatíssimo. Está apenas ganhando tempo, tentando tirar um pouco da pressão que começa a receber de cima de seus ombros e ampliar sua margem de manobra.

Como esquecer o suposto ultimato que teria recebido da Globo, pelo qual teria de sair do ar ao fim do ano se fosse candidato? Em não sendo, ele continua a se expor. E pode protelar a saída para a data-limite prevista pela legislação, em abril do próximo ano. 

Por fim, a questão do prazo de filiação. Um leitor mais atento às burocracias partidárias há de perguntar: mas ele não tem de estar filiado há um ano do pleito? Sim, tem. Mas isso é uma questão de economia interna dos partidos. O registro em Cartório das filiações partidárias pode ser feito no início do próximo ano, bastando ao Partido apresentar uma ficha com a data de um ano antes. É um probleminha burocrático facilmente contornável.

Huck segue candidato. Sempre foi candidato. E está atuando de maneira hiper profissional seu setor de comunicação.

Prova maior de candidatura do quê isso não poderia haver. 

Sigamos vigilantes para o embuste não prosperar nas urnas. 

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