economia 07/11/2017 às 11:27 - Atualizado em 07/11/2017 às 11:27

Fundo Soberano de Angola aparece nos Paradise Papers

Os mais de 13 milhões de arquivos vão expondo a elite em todos os quadrantes do planeta.

O mais recente vazamento sobre a mega-indústria dos paraísos fiscais expõe as relações obscuras entre o Fundo Soberano de Angola (FSDEA) e a empresa suíça Quan­tum Global, especializada na gestão de ativos e responsável por boa parte dos investimentos do fundo nas Maurícias. As informações são do portal AngoNotícias.

A nova leva de documentos em escala global sobre as ligações de políticos, milionários e multinacionais a offshores, a que o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI) deu o nome de Paradise Papers, tem origem em 13,4 milhões de arquivos que chegaram às mãos de jornalistas do Süddeutsche Zeitung e que foram compartilhados com os outros jornalistas do consórcio, do qual faz parte o semanário Expresso de Angola.

Muitos dos arquivos (cerca de 6,8 milhões) são registos do escritório de advogados Appleby, uma sociedade fundada nas Bermudas com ramificações em ou outros centros financeiros offshore. Foi nesse lote que o jornal suíço Le Matin Dimanche, parceiro do consórcio de jornalistas, encontrou as informações sobre os investimentos angolanos geridos pela Quan­tum Global.

A empresa em causa é dirigida por Jean-Claude Bastos de Morais, um empresário suíço-angolano de 50 anos. Jean-Claude, já visado pela justiça suíça, fundou com Filomeno dos Santos o primeiro banco de investimento angolano, o Banco Quantum, que em 2010 mudaria o nome para Bank Kwanza Invest.

De acordo com o jornal Le Matin Dimanche, dos cerca de 5 bilhões de euros atribuídos inicialmente ao Fundo Soberano de Angola, cerca de 3 bilhões foram investidos em sete fundos de investimento sediados nas Maurícias, através da Quantum Global. Os documentos permitem perceber quanto é que a empresa de Jean-Claude Bastos de Morais ganha diretamente com os investimentos. A Quantum Global, revela o jornal suíço, recebe entre 2% a 2,5% do capital por ano, o que desde 2015 corresponde a um valor entre 60 a 70 milhões de dólar anuais. Não são os únicos ganhos. 

Um relatório anual obtido pelo CIJI mostra, por exemplo, que as empresas do grupo conseguiram encaixar em 2014 perto de 120 milhões de dólares por serviços de consultadoria. Jean-Claude Bastos de Morais defende-se, dizendo ao CIJI que as remunerações da Quantum correspondem aos “padrões” do setor.

O consórcio encontrou centenas de documentos relacionados com Bastos de Morais, empresário que, segundo o Matin Dimanche, a Appleby classifica como “cliente de alto risco”, pelas relações próximas que mantém com o aparelho de Estado angolano. A Quantum Global tem a África o mercado central. Além dos escritórios na Suíça, no cantão de Zug, está presente em Luanda, nas Maurícias e trabalha ainda na África do Sul, na Mauritânia, no Gana, na Zâmbia e no Quénia.

O Matin Dimanche refere outros investimentos do FSDEA dos quais Bastos de Morais tem se beneficiado. Um dos exemplos citados é o projeto de construção de um arranha-céus na capital angolana (ainda no papel) num terreno de uma empresa detida pelo empresário. O FSDEA terá assegurado 157 milhões de dólares para a construção; e uma segunda empresa de Bastos de Morais ficou com a direcção de projeto e a concepção de uma parte da torre destinada a escritórios, descreve o mesmo jornal.

Sem revelar a quem cabe a gestão dos ativos, o FSDEA refere no seu site que a carteira de investimento está “amplamente diversificada em termos de classes de ativos, indústrias e geografias”. O resultado líquido de 2016, o mais recente que se conhece, foi de 44 milhões de dólares (perto de 37 milhões de euros).

As revelações dos Paradise Papers expõem dezenas de outros casos em que políticos, celebridades, empresários milionários e grandes empresas internacionais recorrem a sociedades localizadas em centros offshore para esquemas de planeamento fiscal e salvaguarda da identidade dos fundos para ali localizados.

Notícias Relacionadas