politica 01/11/2017 às 20:37

A importância de certas obviedades

* Análise. Bolívar Lamounier. Cientista político.

No mundo inteiro, todos os cientistas políticos que hajam feito jus ao diploma concordam num fato básico: a enorme distância que separa as camadas sociais no tocante à capacidade de assimilar e contextualizar as informações que recebem sobre o mundo político. Dou um exemplo: em qualquer país, não chega a 20 por cento a proporção dos eleitores que entendem o significado da dicotomia esquerda X direita. Isso, observe-se, usando critérios de classificação bem frouxos. E, como é óbvio, esses 20 por cento encontram-se fortemente concentrados entre os cidadãos que atingiram níveis mais altos de escolaridade formal.

Os quarenta ou cinquenta por cento seguintes apreendem as informações de uma forma bastante simplista, truncada, personalista e por isso mesmo instável. Mal e mal distinguem quem está no governo e quem na oposição. Lá em baixo, os cerca de trinta por cento restantes não entendem quase nada, não conseguem armazenar informações e muito menos de perceber vínculos causais entre um fato e outro. O máximo de que são capazes de perceber é se são ou não beneficiados por determinado programa de governo; não surpreende, portanto, que se sintam gratíssimos quando se convencem que certos governos ou partidos lhes são benéficos.

(Já ouviram falar em Bolsa-Família? Entendem agora que o programa foi montado com a perversa intenção de criar um imenso curral eleitoral para o Sr. Lula da Silva?)

As observações acima vieram-me à mente em função do debate que travamos ontem, motivado por minha provocação de que temos no mínimo dez bons nomes e vamos pouco a pouco nos deixando aprisionar na armadilha Lula X Bolsonaro. Estou seguro de que todos nesta página apreendem as relações causais mais importantes que se constituem no processo político. Devem saber que os dois cavalheiros citados são o suprassumo do populismo e que outro governo populista afugentará os investimentos de que desesperadamente necessitamos. Investimento é sinônimo de emprego, crescimento, aumento do bem-estar.

E aí é onde a porca torce o rabo. Constatamos que um grande número de pessoas escolarizadas, perfeitamente capazes de fazer tal previsão, cedem a antipatias ou simpatias personalistas e optam por caminhos divergentes, recusando-se a encarar o óbvio: ou formamos uma grande convergência nacional em torno de um candidato de perfil moderado, realista,competente e responsável, ou teremos 99% de chances de afundar outra vez no brejo.

Que minha provocação de ontem daria ensejo a diversas escaramuças, era fácil prever, mas confesso-me espantado com o número e o teor emocional das que efetivamente aconteceram.

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