politica 26/10/2017 às 19:39

O Incrível Huck vem aí

Candidatura Presidencial do apresentador deve representar a última cartada da Globo e do establishment por um mínimo de competitividade nas eleições do próximo ano.

* ANÁLISE. EDUARDO BISOTTO. DIRETOR DO SUL CONNECTION.

Quando Dilma Rousseff (PT) foi reeleita em 2014, por estreitíssima margem, certamente o establishmente político, midiático e financeiro do Brasil não esperava que a calmaria aparente do pós-apuração fosse a recuada do mar que esconde a vinda de um tsunami. Após superar imprevistas manifestações de massa em 2013, que se começaram insufladas pela esquerda acabaram completamente tomadas pela direita, dando ensejo por exemplo ao Movimento Brasil Livre e uma eleição marcada pela imprevisibilidade no primeiro turno, com o trágico acidente aéreo que vitimou Eduardo Campos (PSB), colocando Marina Silva em seu lugar, tudo parecia caminhar novamente para o leito da normalidade.

Mas só parecia.

Desde o primeiro dia de seu governo, Dilma II caracterizou-se por um gigantesco estelionato eleitoral. Algo que até seu padrinho, o ex-Presidente Lula reconheceu recentemente em entrevista a um jornal espanhol. Para corrigir os erros de uma continuada orgia populista iniciada por Lula em 2008 e que ela mesmo manteve e aumentou ao longo do primeiro mandato, Dilma apelou a um choque fiscal ortodoxo, comandado pelo tucano Joaquim Levy, na chefia da Fazenda. Talvez ela tenha imaginado que tentar repetir a receita de Lula, que nomeou o igualmente tucano Henrique Meirelles para o Banco Central em 2003, conquistando a simpatia e um armistício com os tucanos no Congresso fosse dar certo.

O problema para Dilma é que os tempos haviam mudado. 2015 não era 2003. Para muito além do finado Orkut e seu limite de menos de 5 mil amigos, agora as pessoas dispunham de WhatsApp, de smartfones nas mãos de todos, de um Facebook e seus 5 mil amigos, do Twitter e sua infita capacidade de seguir e ser seguido. E 2013, com estas ferramentas, já havia demonstrado cabalmente que não eram mais necessários partidos, sindicatos ou movimentos organizados para que as massas eclodissem nas ruas.

Com a economia em recessão, uma vitória apertadíssima nas urnas e um país sedento por mudanças, Dilma teria que ser um Lionel Messi da política. O problema é que ela estava muito mais para um zagueirão grosso, sem técnica, tentando levar a partida no grito e nas caneladas. O resultado acabou sendo o inevitável impeachment.

Se no início o establishment acreditou que o impeachment se trataria apenas de tirar o PT e manter a engrenagem do sistema funcionando, agora sob gerência peemedebista, a Operação Lava-Jato, a PGR e o próprio açodamento de setores do establishment, como a Rede Globo, acabou transformando o cenário em um Apocalipse generalizado. E assim, o establishment que tentou derrubar Temer para colocar alguém de sua confiança no lugar acabou derrotado. Não mobilizou ninguém nas ruas. Não convenceu sequer um Congresso que costuma depender de seus favores. E agora, acuado, encontra-se além de tudo sem candidaturas viáveis para o próximo ano.

De um lado ele encara o retorno de Lula, sedento de sangue, prometendo regulamentação da mídia e uma agenda econômica muito mais esquerdista que a de seus primeiros mandatos. De outro, um Jair Bolsonaro sem qualquer vínculo orgânico com o sistema tradicional, com um discurso popular que tem mobilizado as bases que tradicionalmente votariam em candidatos indicados pelo centro do sistema. 

Resta apelar. É neste diapasão que surge o movimento político em torno de Luciano Huck.

Primeiro, foi o anúncio de que Huck, Eduardo Mufarrej, Abílio Diniz, Nizan Guanaes e Armínio Fraga (representante de George Soros no Brasil) criariam um Fundo Eleitoral privado para financiar candidaturas "comprometidas com uma agenda de mudanças". Uma iniciativa flagrantemente ilegal, dada a proibição de doações empresariais pelos empresários. Um detalhe que não intimidou seus proponentes.

Desde então, a pauta avançou. Agora se fala claramente em uma candidatura presidencial do próprio Huck. O desespero é nítido. Com os partidos tradicionais esfacelados e sem confiar em mais ninguém, o mega-empresariado, incluindo players do tamanho de Soros (via Fraga) e Jorge Paulo Lemann, que vem financiando o movimento Acredito, uma tentativa de esvaziar o MBL resolveu ungir um popular apresentador de televisão, na tentativa de não ficar órfão.

O pai do Presidente da Câmara dos Deputados, Cesar Maia, já fala abertamente que o Democratas poderia apoiar uma candidatura de Huck, ao mesmo tempo em que rechaça a candidatura de João Doria. Ao mesmo tempo, o ex-Presidente do Banco Central no Governo FHC e parceiro de Fraga naquela gestão, Gustavo Franco, já encontra-se devidamente posicionado no Novo, outra legenda que Huck poderia usar como nome fantasia mais adequado para apresentar sua candidatura "mudancista".

As cartas estão na mesa. O grupo que pensa em furar a polarização Lula-Bolsonaro encontra-se numa situação delicada. Os dois polos ideológicos parecem preencher algo como 50% dos votos, talvez na casa dos 60% válidos. Lula na casa dos seus tradicionais 30% (40% válidos) e Bolsonaro cada vez mais consolidado na casa dos 20% (30%) válidos. A janela para Huck ir para um segundo turno seria bastante estreita.

Cabe analisar agora os próximos movimentos da Rede Globo. Continuará sua Cruzada buscando a destruição do governo Temer ou buscará nele um aliado para conter Bolsonaro e impulsionar seu candidato? Bolsonaro passará a ser descontruído? Teremos alguma minissérie falando dos perigos de líderes fascistas malvadões, com algum capitão que entra para a política como personagem central?

O futuro dirá.

Mas uma coisa é certa: o establishment já decidiu qual é sua bala de prata.

O Incrível Huck vem aí.

Notícias Relacionadas