politica 04/09/2017 às 13:01

A refundação da política brasileira não será meramente estética

* Análise. Eduardo Bisotto. Diretor do Sul Connection.

De 2013 em diante, um profundo mal estar vem tomando conta da política brasileira. Após exitosos oito anos com Fernando Henrique Cardoso (PSDB), entre 1995 e 2002, que garantiram o início da modernização do Estado brasileiro junto com a conquista da estabilidade monetária e mais oito anos de sucesso com o lulismo, que aprimorou mecanismos de crédito e distribui renda de forma maciça via Bolsa-Família, o país viu-se em um impasse no governo Dilma.

Os motivos eram basicamente dois. Em primeiro lugar, a ruptura na alternância do poder, vital em qualquer democracia. No período entre 2008 e 2010, Lula jogou a prudência às favas e adotou uma política populista buscando garantir crescimento acelerado na marra, obras em todo o país e conseqüentemente garantindo a eleição de sua sucessora de confiança. Vale recordar de 2002, quando FHC nitidamente não deixou o Estado e seu governo operarem em favor de José Serra, facilitando, no mínimo, a eleição de Lula. Em segundo lugar, a ausência de ajustes em um modelo que já havia esgotado suas possibilidades de desenvolvimento via aumento do consumo, especialmente em um cenário de crise global em que as commodties brasileiras perderam valor.

Se o pai tivesse dois peitos, eu teria duas mães. Mas é inevitável pensar que se um candidato oposicionista houvesse sido o vitorioso em 2010, teria tido as condições políticas necessárias para realizar os ajustes que o modelo econômico brasileiro pedia. Assim como apenas Lula poderia ter aprovado a Reforma da Previdência em 2003 e dado um choque de ortodoxia no esquema monetário herdado do tucanato. Como isso não ocorreu, o mal estar foi se espalhando pela sociedade, culminando nas mega-manifestações de 2013.

Se em 2013 as manifestações começaram com bandeiras de esquerda, baseadas no Passe Livre, logo evoluíram para um "Que se vayan todos" ao estilo argentino, uma manifestação claramente anti-sistêmica, com cenas do Congresso tomado e o Palácio Itamaraty com sua fachada incendiada. O recado não poderai ser mais claro: a sociedade pedia mudanças profundas, clamava pela ruptura do impasse gerado pela falta do crescimento e buscaria isso no pleito de 2014. O problema é que nenhuma das candidaturas postas em 2014, incluindo a principal candidatura oposicionista, de Aécio Neves (PSDB), parece ter compreendido o recado.

2014 trouxe ao eleitorado mais uma campanha despolitizada, sem bandeiras, sem conceitos, com mais do mesmo. Justiça seja feita: se alguém fez política em 2014, foi Dilma Rousseff, através de sua tática do terror de "vão acabar com o Bolsa-Família, vão acabar com os créditos consignados, vão tirar direitos trabalhistas". Tendo feito política, ainda que em sua pior forma, Dilma venceu. E acabou com uma vitória de Pirro nas mãos, tendo que gerir um impasse que já durava desde 2011, com um Estado esgotado, sem capacidade para continuar gastando e uma economia que a despeito das doses cavalares de incentivos setoriais, seguia patinando.

Veio 2015, tivemos as maiores manifestações democráticas da história do Brasil pelo Fora Dilma e por fim, em 2016, após diversas manobras protelatórias paridas em um STF que demonstrou mais uma vez seu descompasso com relação à sociedade, Michel Temer chega ao poder. Temer, um dos mais hábeis políticos paridos pela Nova República, retrocede à 2010 e aplica a agenda que Lula havia tentado impôr à Dilma: o banqueiro Henrique Meirelles na Fazenda, outro banqueiro no Banco Central e um novo choque de ortodoxia no Estado. 

Acontece que o desconforto permanece. Vale lembrar que esta mesma receita do bolo, implantada pelo dueto Palocci-Meirelles no período 2003/2006, só teve seus resultados mais vísiveis justamente no ano reeleitoral. No meio do caminho em 2005, com o escândalo do Mensalão, por muito pouco Lula não perdeu o mandato. Meirelles e Ilan Goldfajn (Presidente do Banco Central), além de todas as estrelas menores do Dream Team da economia montado por Temer, vem implantando seu pacote há pouco mais de um ano. É pouquíssimo tempo para que resultados de monta surjam.

Neste meio tempo, o fenômeno da anti-política segue mais ativo que nunca. Doria é eleito prefeito de São Paulo embalado por ele. E Jair Bolsonaro se consolida como real alternativa na eleição Presidencial do próximo ano. Vendo o cenário, políticos tradicionais tem buscado desesperadamente uma solução estética, tentando se desgrudar da assim chamada "velha política".

É então que vemos Marina Silva criar seu partido que não é um partido, a Rede. Empresários liberais sediados na Casa das Garças, a catedral do liberalismo econômico brasileiro, sediada no Rio de Janeiro, dão origem ao Novo, um Partido que recusa tomar parte no fundo partidário (com o perdão das redundâncias). Mesmo Álvaro Dias, Senador da República, político das antigas, ex-militante de PMDB, PDT, PSDB e outros partidos menores, muda-se para o PTN e dá origem ao Podemos, juntamente com o ex-jogador e atual Senador Romário. Já Cândido Vaccarezza, ex-braço direito de José Dirceu e líder dos governos Lula e Dilma na Câmara dos Deputados, mudou de mala e cuia pro PTdoB, agora rebatizado de Avante.

O banho estético segue nos movimentos sociais. Não tendo conseguido aparelhar o Movimento Brasil Livre (MBL), único movimento de grande expressão responsável pelo impeachment que segue tendo uma atuação política sólida, vemos a velha elite tentando parir novos movimentos como Acredito. Antes de inventar o Acredito, esta mesma elite "progressista", com ideias da esquerda norte-americana, já havia tentado usar o Vem Pra Rua com a mesma finalidade. Até mesmo a coluna de Kim Kataguiri, líder do MBL, foi trocada na Folha de São Paulo por uma coluna de Rogério Cherquer, líder do inexpressivo VPR.

O fato é que até agora estas mudanças cosméticas não tem conseguido produzir qualquer resutlado. Como já disse anteriormente, apenas o MBL tem conseguido manter uma atuação política consistente. E isso não se deve ao seu nome ou a truques publicitários. Tem a ver com sua linha pragmática, sólida, que identifica claramente aliados e inimigos, sem ser vítima do "que se vayan todos", uma linha que basicamente engessa qualquer atuação conseqüente. Nos partidos, com todo o terremoto que sacode a política institucional, seguem de pé as velhas legendas: PMDB (que também pretende mudar o nome, virando MDB), PSDB (ainda que envolto em uma crise interna sem precedentes) e PT, com Lula fazendo caravanas e botando em prática aquilo que melhor sabe fazer: política junto ao povo.

A refundação política brasileira, que os velhos atores parecem imaginar possível ser resumida em mudanças cosméticas, só estará completa nas urnas do próximo ano. Não é a toa que Bolsonaro surge tão forte. Muito antes de decidir-se pela filiação ao PEN (que virará Patriotas), Bolsonaro construiu uma sólida base militante via redes sociais. Consolidou sua mensagem em defesa da segurança, de valores conservadores perenes e contra a esquerda. O fenômeno Bolsonaro é a prova de que ter conteúdo é muito mais importante do que o rótulo que se vai usar.

Se a velha elite política brasileira seguir acreditando que basta contratar publicitários e mudar o nome, como o Democratas parece querer fazer virando Centro (nome pior, impossível), "refundar" partidos tirando o P pra disfarçar (como o PMDB estuda, voltando a ser MDB) e seguir sem ideias, sem conceitos claros e sem pautas para romper o impasse, a tendência lógica é que 2018 se resolva entre Bolsonaro e Lula ou, na falta deste, entre Bolsonaro e um esquerdista que faça do outro lado o quê ele tem feito pela direita.

Há uma velha lição da publicidade, que diz que quando se quer matar um produto ruim, basta fazer publicidade em massa dele. Ou a velha elite política brasileira cria um produto bom desde a base e só depois vai bater papo com publicitários ou a tragédia eleitoral do próximo ano será inevitável.

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