politica 14/08/2017 às 05:14

O curioso caso do memorando do engenheiro da Google

A imprensa nacional e internacional não noticiou o caso com o devido critério

Nos últimos dias, a imprensa, nacional e internacional, noticiou amplamente o caso do funcionário da Google que, na sequência de uma opinião que emitiu sobre as políticas internas de valorização da diversidade, foi despedido.

O documento, escrito por James Damore, foi rotulado de “antidiversidade” assim que foi publicado na sua totalidade, pelo site Gizmodo, no dia 5 de agosto, sábado. O rótulo pegou e a imprensa internacional depressa noticiou a revolta originada por um “manifesto sexista”. O conteúdo do documento era resumido da seguinte forma em muitos artigos: uma defesa de que as mulheres não estão preparadas para empregos tecnológicos por razões biológicas. 

As notícias chegaram, inevitavelmente, à imprensa brasileira, que as reproduziu quase sempre da mesma forma: através de frases-resumo que indicavam uma posição extremista quanto ao tema.

Diziam que Damore “afirma que a ausência de mulheres nas funções de topo da empresa deve-se apenas às diferenças biológicas e psicológicas que distinguem homens e mulheres”. 

Damore, contudo, diz expressamente no seu memorando que (tradução) “não estou a afirmar que todos os homens diferem de todas as mulheres naqueles pontos [diferenças biológicas que elencou antes] ou que essas diferenças são “justas”. Estou simplesmente dizendo que a distribuição de preferências e capacidades entre homens e mulheres difere em parte devido a causas biológicas e que essas diferenças podem explicar o porquê de não vermos uma igual representação de mulheres na tecnologia e na liderança”.

A diferença entre “apenas às diferenças biológicas” (como dizem alguns veículos) e “em parte devido a causas biológicas” (como consta do documento) não é irrelevante e dá ao leitor uma impressão falsa do conteúdo e do tom do memorando.

Vamos ser muito claros: não temos qualquer intenção de defender as ideias de Damore. Mas aquilo que lemos nas notícias sobre o seu memorando simplesmente não fecha com aquilo que lemos no seu memorando. 

Este post é sobre essa diferença entre o que lemos e o que é noticiado. Com todos os defeitos que a opinião de Damore pode ter (e que cada um julgará – deixamos o link abaixo), ela simplesmente não é nem tão absoluta, nem tão abrasiva como acreditámos que seria depois de ler as notícias sobre o assunto. 

A The Atlantic escreveu um excelente artigo onde afirmava precisamente isto: que, apesar do conteúdo do memorando levantar efetivamente questões polémicas e de incluir um conjunto de afirmações factualmente pouco rigorosas, a mensagem não era de antidiversidade; contudo, a cobertura jornalística colou-lhe esse epíteto, enganando aqueles – a grande maioria – que só tomaram conhecimento do seu conteúdo pelas notícias. 
“To object to a means of achieving x is not to be anti-x”, ou seja, objetar aos meios para atingir x não significa ser anti-x.

Damore tinha um direito, que todos temos: o de ser confrontado e criticado pelas suas próprias opiniões, e não pela opinião que os outros têm das suas opiniões. 

Casos como este – em que a imprensa se antecipa ao leitor no julgamento público de determinada realidade, causando furor e drama em benefício próprio – demonstram a importância de um olhar crítico sobre o jornalismo. Qualquer rótulo imposto em títulos de jornais deve ser analisado, sempre.

Será que, se não tivesse sido montado um circo mediático em torno de representações incorretas ou parciais do seu memorando “antidiversidade”, James Damore ainda teria emprego? Nunca saberemos com certeza. Mas sabemos o seguinte: o memorando de Damore já circulava internamente na Google há mais de um mês. Em um sábado chegou à imprensa e na segunda-feira, Damore foi despedido.

Memorando 

https://assets.documentcloud.org/…/Googles-Ideological-Echo…

Artigo da Atlantic

https://www.theatlantic.com/…/the-most-common-error…/536181/

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