geral 25/05/2017 às 11:23

Na mais grave crise da Nova República, militares entram no tabuleiro

* Análise. Eduardo Bisotto. Diretor do Sul Connection.

Este Sul Connection tem buscado acompanhar com atenção os desdobramentos da mais grave crise da Nova República desde sua fundação com a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral em 1985. Se de um lado os analistas tradicionais tem prestado cada vez menos atenção ao Exército brasileiro e seus movimentos políticos, após aquele que é seu mais longo período de silêncio sobre os assuntos políticos nacionais, nós não podemos ignorar que nossa Força Terrestre é o mais importante agente político da República desde sua fundação em 1889.

No ano passado por exemplo, quando o impeachment de Dilma ainda estava a caminho, trouxemos uma matéria especial com o tículo: "Como o Comandante Villas Bôas impediu um Golpe de Estado do PT e de Dilma". Na ocasião, mesmo leitores assíduos do site nos acusaram de exagerar e estar vendo uma suposta "teoria da conspiração" onde não existia nada. Eis que passado um ano dos fatos, o próprio Villas Bôas, em entrevista para Veja, confirmou tudo que o Sul Connection havia informado antes para nossos leitores.

Faço esta necessária introdução para que fique claro que a análise a seguir baseia-se tão somente em fatos e na apuração que pudemos realizar, sem qualquer "teoria da conspiração".

Acompanhe a linha do tempo do golpe que Temer vem enfrentando desde a semana passada.

Quarta-feira, 17 de maio: em seu blog no jornal O Globo o colunista Lauro Jardim crava que Joesley Batista teria gravado Michel Temer (PMDB) acertando a compra do silêncio de Eduardo CunhaAs redes sociais vêm abaixo, pedidos de renúncia se multiplicam, plantões da Globo se sucedem.

Quinta-feira, 18 de maio: jornalista Ricardo Noblat, do mesmo grupo Globo de Jardim, crava em seu blog no início da tarde: Temer decidiu renunciarDuas horas depois, em pronunciamento alguns decibéis acima do que está acostumado, o Presidente nega enfaticamente qualquer possibilidade de renúncia. No fim da tarde, finalmente o áudio da conversa de Temer e Joesley é divulgado, mostrando claramente que Lauro Jardim praticou fake-news. Em nenhum momento da conversa o Presidente anuiu a compra do silêncio de quem quer que fosse.

Sexta-feira, 19 de maio: o Presidente Michel Temer convoca reunião com os Comandantes das três Forças Armadas. Na saída, tudo que se tem são notas absolutamente insossas em que os comandantes militares afirmam estar irmanados no mesmo pensamento e que os militares agirão nos estritos limites da Constituição.

Terça-feira, 23 de maio: após terem demolido politicamente o Senador Aécio Neves (PSDB), principal aliado de Temer, com a divulgação de sua conversa com Joesley Batista, após terem quase provocado a renúncia de Temer com a invenção de um diálogo que não ocorreu, eis que os golpistas vão pra cima de seu principal aliado na imprensa, o jornallista Reinaldo Azevedo. Com a divulgação de conversas entre Azevedo e Andrea Neves, sem qualquer relação com a investigação ou com qualquer tipo de ilício, golpistas conseguem provocar a demissão do jornalista tanto na Veja quanto na Rádio Jovem Pan.

Quarta-feira, 24 de maio: mega-manifestação marcada para pedir a saída de Temer em Brasília. Com informações precisas vindas da inteligência, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas prefere ir para São Paulo participar de painel com o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Cardoso que, vale ressaltar, tem dado sinais absolutamente incongruentes sobre a crise. Num primeiro momento, defendeu "gestos de renúncia", em mensagem cifrada para Temer e Aécio Neves em seu Facebook. Em seguida, recuou e e em ligação pessoal ao Presidente afirmou que seu papel era resistir à crise. Para logo em seguida, em entrevista ao Canal Livre da Rede Bandeirantes, voltar a defender a saída de Temer.

Meio da tarde de quarta-feira: terroristas ligados aos protestos que pediam Fora Temer incendeiam o Ministério da Agricultura, tentam incendiar o Ministério da Saúde e destroem os Ministérios da Cultura e da Ciência e Tecnologia. Acuado, o Presidente chama o Ministro da Defesa Raul Jungmann e o Ministro Chefe do Gabinete de Segurança Institucional, General Sérgio Etchegoyen e decreta o uso das Forças Armadas para a garantia da lei e da ordem na capital da República e no Distrito Federal.

De São Paulo, Villas Bôas deixa claro sua contrariedade e afirma que o clima no Exército "é de consternação, choque e preocupação".

Segundo informações de pessoas próximas ao Comandante do Exército, sua saúde não vai bem. Villas Bôas caminha para o fim de uma brilhante carreira e terá o mérito de ter impedido Dilma de dar um cavalo-de-pau na democracia com auxílio das Forças Armadas. Sendo assim, tudo que ele menos quer é confusão e ver o Exército como força política ativa no desenlace da pior crise que a Nova República já enfrentou.

De outro lado, o Ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, é apontado como sucessor natural de Villas Bôas no comando do Exército. Profissional experiente, respeitado pelas tropas (alguns ousam afirmar que Etchegoyen é mais respeitado do que atual comandante) e com vasta experiência na inteligência, Etchegoyen sabe perfeitamente da onde e em nome de que interesses o golpe contra Temer foi desencadeado. E como mostrou ontem, ao escoltar Raul Jungamnn no anúncio do Decreto de garantia da Lei e da Ordem pelo Exército, está disposto a usar a força para bancar o atual governo.

A revogação de Temer de seu decreto hoje pela manhã, mostra que o Presidente não conseguiu resistir à gritaria dos políticos, especialmente os de esquerda, mas também e talvez principalmente, ao descontentamento do Comandante do Exército, General Eduardo Villas Bôas.

A crise vai se tornando cada vez mais dramática e os desfechos se tornam cada vez mais imprevisíveis.

Este Sul Connection seguirá acompanhando e buscando informar seus leitores da melhor forma possível.

Como diria o deputado Eduardo Cunha ao votar pelo impeachment de Dilma: "Que Deus tenha misericórdia desta Nação".

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