politica 07/04/2017 às 15:54

Gazeta do Povo usa falso estudo da USP sobre notícias falsas para mostrar credibilidade do jornal

Em janeiro saíram matérias em diversos portais de notícias, quase todos de esquerda, sobre um estudo da USP a respeito de sites que seriam "fake news". Entretanto, o tal estudo simplesmente não existiu, sendo ele próprio uma notícia falsa.

por Roger Scar

A Gazeta do Povo não é um jornal ruim. Na realidade, dentre muitos que são conhecidos na atualidade, é talvez um dos melhores. Mesmo assim, seus editores não foram capazes de averiguar uma informação antes de sair por aí distribuindo mala direta aos seus clientes. Em um e-mail comercial, a Gazeta diz o seguinte:

Você sabia que é comum o compartilhamento de notícias falsas nas redes sociais? Segundo estudo realizado pela USP, 60% dos compartilhamentos de notícias no Facebook na última semana do processo de Impeachment de Dilma Roussef não eram verídicas

Esse "estudo" realizado pela USP, entretanto, nunca aconteceu. Muitos blogs esquerdistas ficaram empolgados quando o boato saiu, especialmente porque a lista tinha, por "mera coincidência", apenas sites alinhados à direita, nenhum à esquerda. Dentre os mais conhecidos, estavam o Jornalivre, o Ceticismo Político e o Implicante, sendo que estes dois últimos nem mesmo são sites de notícia. Na realidade, fizeram uma saladinha com informações desconectadas e lançaram o boato de que a USP havia realizado um estudo.

Qual foi a jogada? 

Alguns malandros, certamente esquerdistas, pegaram uma lista de sites influentes da mídia alternativa, que tem números elevados de acessos diários. Esta lista havia sido feita pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital, mas nunca foi feito nenhum estudo por eles sobre notícias falsas. Os boateiros também usaram a Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do Estado de São Paulo, outra entidade que negou ter realizado tal estudo.

Se os fact checkers da esquerda fossem mesmo bem intencionados, não seria difícil de achar. Digitando apenas "Estudo da USP sobre fake news" no Google eu rapidamente localizei as verdadeiras informações. O Monitor, por exemplo, fez três postagens entre 24 e 30 de janeiro negando ter realizado qualquer estudo. 

Em 24 de janeiro, a página do Monitor do Debate Político no Meio Digital, no Facebook, postou o seguinte:

Gostaríamos de esclarecer que todos os levantamentos e análises que fizemos até hoje foram publicadas nesta página. Em particular nunca fizemos um levantamento de sites de notícias falsas. Elencamos um conjunto de veículos de mídia que consideramos relevantes, que pode ser encontrado na publicação fixada, e os monitoramos. Além disso, colaboramos com algumas matérias sobre difusão de boatos por meio do Facebook. (Fonte)

Ainda no mesmo dia, horas mais tarde, o Monitor reiterou:

Notícia falsa sobre notícias falsas.

Conforme explicado, não fomos nós que fizemos esse levantamento de 10 maiores sites de notícias falsas e a redação deste veículo de mídia não nos procurou para verificar o fato. Aparentemente alguém fez o levantamento a partir dos nossos dados e por uma falha de comunicação deu a entender que nós havíamos feito. (Fonte)

Como se já não fosse suficiente, e como sites esquerdistas continuaram espalhando o boato, o Monitor fez outro post no dia 30 de janeiro, mais uma vez negando ter realizado este estudo. A Associação dos Especislitas em Políticas Públicas de São Paulo fez o mesmo, e também no dia 24 de janeiro negou qualquer estudo nesse sentido, deixando claro para todos que ela não tinha qualquer envolvimento.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A Associação dos Especialistas em Políticas Públicas do Estado de São Paulo — AEPPSP — orienta sua atuação pela defesa dos princípios democráticos, dos valores republicanos e da cidadania, com vistas a aprimorar a gestão das políticas públicas.

Em nossa publicação no facebook de 24 de janeiro de 2017 propusemos uma reflexão acerca do fenômeno da pós-verdade na Internet e da dificuldade de diferenciar as fontes confiáveis de informações, em meio à grande quantidade de notícias apócrifas que poluem o debate político e desqualificam a esfera pública.

Para evitar a propagação de mal entendidos, retiramos a publicação de nossa página e aproveitamos para agradecer a todos que têm contribuído para o aprimoramento da nossa atuação.

Asseveramos que nossa intenção sempre foi contribuir para o fortalecimento da democracia, da transparência e dos princípios éticos e jornalísticos. Continuamos sempre abertos à discussão produtiva e acreditamos que este é o melhor caminho para assegurar um debate público honesto, plural e inclusivo

Revisaremos nosso material e seguiremos sempre dispostos ao diálogo, estando à disposição para eventuais esclarecimentos.

Atenciosamente,

Associação dos Especialistas em Políticas Públicas (Fonte)

Resumidamente, o estudo da USP sobre "fake news" é em si mesmo uma farsa. Nunca existiu. O que aconteceu de verdade é que um grupinho, obviamente alinhado à esquerda, resolveu usar o nome da universidade para dar credilbidade a uma mentira e atacar opositores políticos conhecidos e influentes. Foi a mesma coisa que o BuzzFeed fez com o Sul Connection no ano passado, com a diferença de que o mesmo correu para se retratar do erro logo depois, quando viu que a coisa ia feder.

A Gazeta cometeu o mesmo equívoco do UOL, com a diferença de que no caso do UOL foi claramente um ato de má fé. No ano passado, o portal UOL compartilhou aquela lista falsa do BuzzFeed e ainda manteve mesmo após o próprio BuzzFeed ter assumido o "erro". O caso é que aparentemente os fiscais de fake news têm sido justamente os que mais praticam.

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