geral 22/03/2017 às 11:07 - Atualizado em 22/03/2017 às 11:42

Ramalhete: desconhecimento da Doutrina Social da Igreja gera busca por Salvadores da Pátria

Pensador que é um dos principais apologistas católicos da atualidade, concedeu entrevista exclusiva ao intelectual pernambucano Bernardo Souto sobre o assunto.

Professor de filosofia e funcionário público, Carlos Ramalhete é um dos principais apologistas católicos em atividade no Brasil. Com uma atuação destacada, Ramalhete escreve semanalmente na editoria de Opinião do jornal paranaense Gazeta do Povo e foi um dos pioneiros a fazer apologética católica em meios eletrônicos e digitais, no Brasil. O Prof. Carlos, como é conhecido, nasceu no Rio de Janeiro, na década de 60, e foi aluno de Dom Estêvão Bitencourt no Seminário Arquidiocesano do Rio de Janeiro. 
 

Ele ficou conhecido por meio do programa de rádio A Hora de São Jerônimo, produzido e apresentado por ele mesmo na década de 90, na rádio da paróquia São João Batista, Diocese de Petrópolis (RJ). O programa era um sucesso de audiência e alcançou todo Brasil por meio da internet, a partir de gravações disponíveis para download. Por causa dos ouvintes que descobriram A Hora de São Jerônimo na internet, o Prof. Carlos decidiu escrever e publicar na rede material de apologética católica como artigos e folhetos. Surgiu assim o primeiro apostolado de apologética católica na internet brasileira! A inciativa inspirou a criação da lista eletrônica, Tradição Católica e Contra Revolução, moderada há 13 anos pelo professor.


Atualmente Carlos Ramalhete mora na Quinta São Tomás, zona rural de Carmo de Minas (MG), com sua esposa, seus filhos e seus cachorros. É lá que ele toca saxofone e outros instrumentos barulhentos, fuma cachimbo, bebe uma purinha e anda pra cima e pra baixo num jipe enorme.


Em entrevista exclusiva ao intelectual e poeta pernambucano Bernardo Souto, Ramalhete trata da Doutrina Social da Igreja, tema de seu mais recente curso online. Assunto pouco divulgado nos meios católicos, a DSI oferece uma série de respostas para a vida política e econômica dos fiéis e deveria ser a baliza última para estes assuntos, já que foi pronunciada de maneira infalível pelo Papa Leão XII e desde então não sofreu quaisquer alterações pelos seus sucessores.


Para Ramalhete, o desconhecimento do tema leva à busca dos Salvadores da Pátria. 


CONFIRA A ENTREVISTA:

Bernardo Souto: Professor,  soube que o senhor está oferecendo um curso sobre a Doutrina Social da Igreja. Por experiência própria, sei que apenas uma parcela ínfima dos católicos brasileiros conhecem a DSI.  Quais são as principais conseqüências de tal desleixo e de que maneira esse fenômeno pode ser explicado?  

Professor Carlos Ramalhete: Além do curso - que deve ter outra turma em breve - há um Manual da DSI, que será publicado em breve pela Quadrante. Quanto à pergunta propriamente dita, as conseqüências deste desleixo são facílimas de ver: basta prestar atenção na mínima atuação política e no enorme complexo de salvador num cavalo branco que nos dá Getúlios e Lulas. As pessoas, por falta de formação na DSI, acreditam nas besteiras que lhes são ditas por maus políticos.


Bernardo Souto: A maioria dos católicos sensatos que conheço acreditam que o Concílio Vaticano II  trouxe coisas positivas e negativas.  Gostaria de saber o que o senhor pensa a respeito desse tema tão controverso.

Professor Carlos Ramalhete: O problema do CVII não é o Concílio, mas o famigerado "espírito do Concílio", que veio, como que um espírito de porco, estragar e desfazer liminarmente tudo o que quis o Concílio real. Agora, passados mais de 50 anos, é que estamos conseguindo começar a respirar no meio dos miasmas absurdos de interpretações delirantes do CVII e apreciar a realidade dos documentos conciliares, não daquele seu falso "espírito". A decisão de S. João Paulo II de colocar tudo quanto é documento eclesial na Internet sem dúvida ajudou muito neste ponto.


Bernardo SoutoO atual Papa vem sendo amado por alguns e odiado por outros.  Caso se sinta à vontade para responder, quais são os acertos e os deslizes do pontificado de Francisco?  

Professor Carlos Ramalhete: Acertos - ele trouxe a misericórdia divina para o centro da experiência cristã, como deve ser; deslize, se é que se pode chamar assim: ele, como aliás todos os seus antecessores, tem dificuldade em lidar com a mídia, que distorce tudo o que diz.


Bernardo Souto: Um colega meu, que estuda a História da Igreja há certo tempo, crê que a Teologia da Libertação ganhou força porque nós, católicos, desdenhamos a importância das chamadas obras de misericórdia. O que o senhor tem a dizer a respeito dessa questão?  

Professor Carlos Ramalhete: Muito pelo contrário. A Teologia da Libertação ganhou corpo justamente porque fazia parecer que o marxismo era uma maneira de fazer no atacado as obras de misericórdia fí­sicas, sempre tidas como valiosas na nossa cultura.


Bernardo Souto: Lendo o famoso Compêndio da Doutrina Social da Igreja, fiquei com a impressão que pode muito bem ser equivocada, diga-se de passagem de que a Igreja Católica sugere que o tamanho do Estado deve ser intermediário: nem enorme, como pregam os comunistas, nem microscópico, como pregam os libertários. Gostaria de saber a sua opinião a respeito desse tema.  

Professor Carlos Ramalhete: A questão não é o "tamanho" do Estado (a ser medido como? Número de funcionários?), mas sim as funções precípuas do Estado. A DSI vai frontalmente contra os ditames da modernidade do século passado ao deixar ao Estado apenas o que não é passível de ser resolvido pelas instâncias inferiores, sem contudo fazer listinhas casuísticas de o que deve e o que não deve recair em cada esfera. No mais, parabéns por ter conseguido encarar o Compêndio!


Bernardo Souto: Sabemos que, no fundo, o conservadorismo possui raízes protestantes. Mas o marxismo, por ser uma ideologia de base materialista e ateia, sem dúvida é um mal maior, por assim dizer. O que o senhor pensa a respeito disso?

Professor Carlos Ramalhete: O conservadorismo anglo-saxão que anda na moda tem, sim, raízes protestantes. Mas nós temos um conservadorismo legitimamente cristão e católico no Brasil, graças a Deus, e mais valeria mergulhar nele que em modelos importados.

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