politica 19/02/2017 às 12:55

O quê é, afinal, o verdadeiro conservadorismo brasileiro?

* Opinião. Arthur Rizzi Ribeiro.

Recentemente a pesquisa da CNT revelou um cenário imprevisível, liderando as pesquisas presidenciais para 2018, um ícone da esquerda histórica e de outro da direita histórica. De um lado Lula, do outro Jair Bolsonaro. 


Muitos se perguntam como é possível que Lula ainda esteja em primeiro lugar nas pesquisas e, simultaneamente, esteja abaixo Jair Bolsonaro? Muito se enfatiza que Lula seja popular entre os mais pobres e Bolsonaro entre os mais ricos. 


Porém, o que poucos falam é que mesmo entre os mais pobres Bolsonaro ainda tem grande apoio, mesmo quando comparado a outros candidatos como Aécio Neves e Marina Silva, opositores recentes tradicionais do PT.


Como pode o mesmo povo que pede justiça aos “mensaleiros e quadrilheiros do petrolão” ser o mesmo povo que quer eleger o chefe de quadrilha? Como pode ser o povo que vota no símbolo aglutinador da esquerda brasileira desde o fim do regime militar, ser o mesmo povo que dá o segundo lugar a um representante do regime militar e logo da velha direita nacional-positivista?


A bifurcação esquerda (social-democracia) e direita (liberal-conservadorismo) típica dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Europa germânico-saxônica não dá conta de nosso espectro. Isso se dá por uma razão muito fácil para se compreender, especialmente quando se entende a psique do brasileiro e sua história. 


Para o Minuto Produtivo, site onde escrevi periodicamente - não como este do qual apenas recebi um convite pra esse artigo - eu escrevi três artigos intitulados “Por que o brasileiro é antiliberal”, Parte 2 e Parte 3  e argumentei ao meu ver, de modo bem fundamentado, que não se trata de nenhuma “mentalidade anticapitalista” em sentido misesiano e randiano, baseado na mais pura e vil inveja. 
 

Também disse que não se trata de socialismo ou fascismo, mas sim com nossa natureza católica, indígena e romântica, que são as três fontes de nosso inconsciente coletivo. E, sustentei ainda, polemicamente, que não achava isso ruim, pois se eu era um conservador brasileiro, devo ser conservador disso que é o Brasil.


Historicamente, mesmo no Império, nossa direita sempre teve uma tendência centralista e estatal; o Partido Conservador, mais do que partido dos grandes latifúndios, era o partido da burocracia estatal. O liberal, por sua vez, era o partido das camadas médias ascendentes e da burguesia urbana, bem como alguns latifundiários. O Partido Conservador foi até a ascensão do Barão do Rio Branco, notadamente um partido protecionista, tanto que o liberal Alves Branco foi forçado por uma pressão conjunta de alguns setores dos “luzias” e pela quase unanimidade dos “saquaremas” a taxar importações inglesas.


Os setores militares, historicamente adeptos do que chamei de “nacional-positivismo” assim como Comte, viam no Estado o centro da sociedade e tinha na ideia da tecnocracia sua teoria política. Em que pese a primeira república ser liberal e federalista, gradativamente, pela sua instabilidade, ela foi tornando-se mais e mais centralista, até que por fim, sua insustentabilidade propiciou aquilo que Oliveira Vianna chamou de “golpe de esquerda tocado pela direita”, que foi o Estado Novo. Ora, ideologicamente, Getúlio não era tão distinto dos militares.


O conservadorismo brasileiro sempre foi reflexo de seu povo, centralista, confiante mais no benfeitor “coroné”, nas grandes famílias, do que no seu próximo. Isso deriva também de nossa condição de camponeses sem terras e de uma organização social que era muito similar a do antigo feudalismo, só que sem as terras comunais. 


Sendo assim, nosso conservadorismo naturalmente tendeu a confiança preferencial no Leviatã juntamente com o desenvolvimento do Estado moderno. O Estado, como sendo o responsável por controlar os abusos das oligarquias locais, cria em si a figura central de unidade, e que é a base do nosso conservadorismo.


Agora o que isso tem a ver com Lula? Além do estatismo que marca a esquerda, há na mentalidade católica e romântica, a noção de que o Estado é responsável pelo bem comum, assim sendo, o Estado deve, ao lado da própria população mais abastada, o dever da caridade. 


Os artigos 164, 166 e 168 do "Compêndio de Doutrina Social da Igreja" delimitam que é dever também do Estado agir no combate à pobreza. Respectivamente eles defendem a existência de bens públicos (164), serviços públicos voltados ao bem-estar social (166), e os mesmos sendo também dever do estado (168).


Desta forma, o brasileiro vê no moralismo populista e nacionalista de Getúlio Vargas uma restauração do velho paternalismo monárquico, como um novo Dom João VI, cuja chegada inaugura uma era de prosperidade. 


Assim, o conservadorismo brasileiro encontra sem querer uma visão similar a pregada pelo conservador alemão Lorenz von Stein, um “absolutismo sindical”. 


A UDN sempre teve uma votação abaixo do esperado, justamente por refletir um conservadorismo de tipo americano, a UDN era mais luzia que saquarema, ao passo que o PSD, braço direito do Estado Novo, representando a burocracia estatal e a oligarquia rural, representava o velho saquaremismo, e só se unia com a UDN quando havia o medo do comunismo das alas mais radicais do PTB, do PSB e do então extinto PCB. 


Juscelino Kubitschek, por exemplo, dizia-se abertamente um conservador, embora não despertasse paixões na UDN que àquela época defendia radicalmente o liberalismo econômico de Hayek antes de ser modinha.


Bolsonaro e Lula representam a junção destes dois ideais; de um lado o clamor por moralidade e a segurança do paternalismo, traço que une a esquerda e o conservadorismo brasileiro histórico, e do outro o assistencialismo e o trabalhismo que a esquerda advoga, e que o pobre povo brasileiro aprecia. 


Costumo dizer que o liberal-conservadorismo que grassa por aqui hoje em dia conserva um país inexistente ou tem um ideal de conservadorismo que está preso às regiões metropolitanas, mas que muito dificilmente vai ganhar votos nas cidades do interior. Não é possível conservar uma sociedade liberal e moderna num país cuja mentalidade popular ainda é a do Ancién Régime. Em outras palavras, é um conservadorismo fictício ou, melhor dizendo, uma inovação.


Pode ser dito no máximo um conservadorismo da Avenida Paulista, mas não de São João dos Marrecos, Serra da Saudade, Pau das Antas ou de Quiproquó do Vale. 


Este último conservadorismo, interiorano e “caipira”, pode ser chamado sem medo de conservadorismo brasileiro, ou anedoticamente, para desespero de nossos liberais-conservadores de conservadorismo trabalhista.

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