politica 09/02/2017 às 09:14 - Atualizado em 09/02/2017 às 09:34

Santa Catarina: o modelo para que o Espírito Santo supere a crise

Santa Catarina é o estado com menos homicídios do Brasil. As lições que trouxeram este resultado podem ser aplicadas em todo o país.

Como um estado que passou por situações praticamente idênticas ao Espírito Santo em um passado não tão distante consegue atingir o posto de estado mais seguro do Brasil? 


Envolta em agitações sindicais no final da década de 1990 e começo dos anos 2000, a Segurança Pública catarinense experimentou um salto de qualidade a partir de 2005 e no ano passado, segundo o Mapa da Violência, converteu-se no estado que menos homicídios possui por 100 mil habitantes entre todas as unidades da federação.
 

Hoje, após seis anos em que investimentos pesados tem sido feitos em Segurança Pública, desde a eleição de Raimundo Colombo (PSD) em 2010 e a nomeação do Promotor Cesar Grubba para a Secretaria que comanda a área, o estado é um verdadeiro bolsão de tranqüilidade em meio a um mar de agitações que vão tomando conta do Brasil.


Conhecer a história desta caminhada e as medidas tomadas certamente ajudará a compreender como o Espírito Santo e outros estados em situação semelhante podem sair do fundo do poço em que se meteram.


O INÍCIO DAS GREVES DE MILITARES NO BRASIL


Em 1998, tendo início em Minas Gerais, pela primeira vez na história o Brasil conheceu greves de Policiais Militares. O truque criado naquele ano segue valendo até hoje: utilizar as famílias em ocupações de quartéis para impedir os militares de trabalharem. Legalmente, PM's estão proibidos de fazerem greve. Logo, a situação se espalhou pelo país e em Santa Catarina, estado que sofria na época com atraso de salários para os Militares durante o governo do peemedebista Paulo Afonso Vieira, também se estabeleceu o movimento.


O grande líder da greve no estado foi o sargento Amauri Soares. Soares chegou a ser expulso da corporação, mas acabou readmitido. Como todo bom sindicalista, logo fundou seu próprio sindicato, a Associação de Praças de Santa Catarina. Foi um sucesso imediato, ainda mais em uma corporação que sofreu com atrasos salariais.


Em 2006, Soares candidatou-se ao posto de deputado estadual e acabou eleito. Seu mandato foi marcado muito mais por uma atuação intensa de esquerdista hardcore do que por qualquer defesa da categoria que dizia representar. Neste meio tempo, entre a eclosão dos movimentos em 1998 e a eleição de Soares, movimentos aconteciam todos os anos, sempre com ameaça de paralização.


É um cenário que durante vários anos lembrou o do Espírito Santo. 


Entretanto, paulatinamente, a situação começa a mudar, especialmente após a aliança do então governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) com o PFL em 2005. A partir daquele momento os liberais assumem importantes espaços do governo, incluindo a Secretaria da Fazenda e o governo da chamada tríplice aliança (PMDB, PSDB e PFL), apoiado em partidos menores, inicia uma política de valorização e respeito aos agentes de segurança. 


O sindicalista Amauri Soares, membro do PDT e da anacrônica Corrente Comunista Luís Carlos Prestes vê seu prestígio definhar cada vez mais, ao mesmo tempo em que suas aparições públicas vão virando cada vez mais meros espetáculos de defesa do chavismo, do comunismo e de todo tipo de esquerdismo possível.


Não a toa, em 2010 Soares conquista seu último mandato como deputado estadual e, dada sua radicalização, acaba expulso do PDT, migrando para o PSOL. Sua Associação de Praças de Santa Catarina igualmente definhou. Hoje serve muito mais para prestar serviços sociais aos sócios do que para qualquer mobilização propriamente sindical ou política.


A VIRADA DE 2010


Nas eleições de 2010, o então senador Raimundo Colombo (DEM) é eleito governador do estado. Se por um lado Colombo herdou uma Polícia Militar pacificada, com salários em dia e diversos reajustes concedidos ao longo do governo Luiz Henrique, de outro enfrentou um cenário em que investimentos propriamente ditos não eram realizados em Segurança Pública há mais de duas décadas.


Santa Catarina contava com um enorme déficit de Policiais Civis, Militares, Agentes Penitenciários e Agentes de Segurança nos centros de reabilitação para menores. Tem mais: o estado também sofria e ainda sofre com a superlotação de Presídios, fruto também da falta de investimento dos governos precedentes.


Para comandar a pasta da Segurança Pública, Colombo nomeou o Promotor Cesar Augusto Grubba. Isso foi em 2011. Grubba segue no comando até hoje.


Neste meio tempo, assim como em todo o Brasil, Santa Catarina conheceu o fenômeno das facções nos Presídios. Mesmo com o PCC babando para entrar no estado e assumir o comando das cadeias e do tráfico de drogas, um grupo autônomo, conhecido como Primeiro Grupo Catarinense foi criado.


A primeira grande aparição em público do PGC, certamente que não por coincidência, ocorreu às vésperas da reeleição de Colombo em primeiro turno nas eleições de 2014. Mesmo tacando fogo na Capital, assassinando uma Agente Penitenciária e realizando atentados por todo o estado, o grupo não conseguiu impedir a vitória de Colombo.


INVESTIMENTOS MACIÇOS EM SEGURANÇA


Desde que assumiu, Colombo vem realizando uma política de investimentos maciços e continuados em Segurança Pública. Realizou concursos para suprir o déficit nos diversos setores. Para que se tenha uma ideia, foram mais de 6.500 agentes de seguranças contratados desde que assumiu o mandato. Não se via nada parecido desde o governo do saudoso Vilson Kleinübing (PFL), entre 1991 e 1994.


Com a gestão do Secretário Grubba, Colombo também investiu pesado em tecnologia. Municípios de todo o estado receberam câmeras de vídeo-monitoramento e as cidades começaram a contar com centros de controle para acompanhar toda e qualquer movimentação suspeita em tempo real.


Com a crise com o PGC, os principais líderes foram transferidos para Penitenciárias Federais. Desde então, a facção até fez algumas ameaças de novas rebeliões ou atentados, mas nunca mais saiu disso.


O governador Raimundo Colombo foi o principal líder dos estados na renegociação com as dívidas da União. Tem dado o exemplo de seriedade, sobriedade e ortodoxia fiscal desde que assumiu. Não a toa, Santa Catarina, se fosse um país, teria a segunda menor taxa de desemprego do mundo, ficando atrás apenas de Singapura.


Agora, para além da questão econômica, o estado também pode ser encarado como um exemplo na área de Segurança Pública. É só aprender e aplicar as lições.


O Brasil pode sair do atoleiro em que se meteu. É só querer.


A imagem que ilustra a matéria é do jornal Notícias do Dia, do grupo RIC/Record.

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