politica 04/01/2017 às 11:57

Índice de Conservadorismo do Ibope é uma piada de mau gosto

Com estimulação contraditória, perguntas sem nexo e nenhuma ligação com valores conservadores, instituto faz panfletagem.

EDUARDO BISOTTO.
DIRETOR DO SUL CONNECTION.
 

Que as pesquisas vivem uma crise brutal em escala mundial não é segredo pra ninguém. Primeiro, os institutos britânicos erraram por uma margem de quatro pontos percentuais na eleição daquele país. Em seguida, os institutos americanos, reconhecidamente os melhores do mundo, fazendo uso de metodologias de agregação e métrica, erraram grotescamente o resultado do Colégio Eleitoral. 


No Brasil não tem sido diferente. Ibope e Datafolha só captaram o crescimento brutal de João Doria Jr. em São Paulo no finalzinho do primeiro turno. Detalhe: Doria matou a eleição no primeiro turno. No Rio, só conseguiram definir a ida de Marcelo Freixo para o segundo turno contra Marcelo Crivela quando já era irreversível e Freixo passou com enorme folga para o terceiro colocado.


É claro que com a crise mundial, no Brasil o quadro tem se mostrado ainda mais grave. Nossos institutos tem um histórico de alinhamentos político-partidários e ideológicos. E é evidente que isso influência em seus resultados. Pra piorar, nossas Universidade foram incapazes até hoje de produzir um único instituto de pesquisa independente, o quê é uma vergonha inominável, considerando que uma das funções primordiais de instituições de ensino superior é justamente a pesquisa.


Sendo assim, não surpreende a vergonha que o Ibope vem passando com seu patético "índice de conservadorismo". Para chegar ao tal índice o instituto aplica as seguintes perguntas: 1) legalização do aborto, 2) casamento entre pessoas do mesmo sexo, 3) pena de morte, 4) prisão perpétua, 5) redução da maioridade penal. O questionário foi aplicado pela primeira vez em 2010 e repetido agora.


Teoricamente, para os sábios ibopeanos, quem responde de forma contrária às duas primeiras perguntas e favorável às três seguintes é o conservador exemplar, atingindo o índice de 1. Com base nas nuances, o índice é calculado.


Mas péra lá: e se eu for contra a pena de morte (como sou) e favorável à prisão perpétua (como também sou)? As duas perguntas, especialmente para cristãos, tendem inclusive a serem excludentes, gerando uma nítida estimulação contraditória. Vale também questionar a questão da maioridade penal. Eu, particularmente, como uma vasta parcela da opinião pública, não sou pela redução: sou pela extinção pura e simples.


Ou seja: se eu quiser ser enquadrado como conservador exemplar pelo índice, vou ter que adivinhar o que a turminha de sociólogos descoletes do Instituto entendem por conservadorismo. É uma piada de péssimo gosto.


Enquanto ficarmos rastejando deste jeito, com o mainstream tentando forçar suas pautas ideológicas na base do grito e da indução, não será surpresa o crescimento de figuras caricatas como Jair Bolsonaro.


Entre uma caricatura que ao menos se dá ao trabalho de tentar vocalizar as demandas reprimidas da enorme maioria do povo e uma caricatura que trata este mesmo povo como massa de manobra para experimentos de engenharia social, não é de admirar que o primeiro acabe recebendo a maior parte do apoio.

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