politica 02/12/2016 às 15:14 - Atualizado em 02/12/2016 às 15:30

Análise: O legado de Barack Obama

O que Obama deixa após 8 anos?

POR GUILHERME SCHNEIDER

Um aspecto por vezes esquecido da derrota de Hillary Clinton é a performance de Barack Obama e seu legado. É seguro afirmar que muitos dos erros da administração Obama também pesaram na decisão daqueles que votaram em Donald Trump. Principalmente depois que Obama abertamente entrou na campanha da sua ex secretária-de-estado.

Obama será sempre lembrado como o primeiro presidente afro-americano, o "símbolo do progresso social" e da vitória contra o racismo, mas isso será suficiente para deixar um legado duradouro?

Ele foi eleito - e reeleito - prometendo esperança e mudança, foi o motto de suas campanhas, e que ele uniria o povo e um sistema político fragmentado por políticas que levaram o país à guerras, crises econômicas e abusos de poder que havia deixado muitos americanos preocupados. Ele também havia prometido reduzir a influência dos lobbystas em Washington.

Durante a sua presidência, no entanto, Obama conseguiu o oposto, conforme podemos ver pela atual aguda polarização política nos Estados Unidos. Ele aumentou o gasto público como resposta paliativa à crise econômica e gerou o maior deficit fiscal em 4 décadas. O débito público dobrou e excedeu mais de 100% do PIB dos Estados Unidos (o maior do mundo). 

A reforma da saúde (normalmente chamada de "Obamacare") foi uma das mudanças em políticas públicas mais importantes nos Estados Unidos em décadas, mas Obama a executou sem o apoio de um único Republicano no Congresso e as reformas se mostraram bastante impopulares com o público. Em seu segundo termo, Obama reclamou que o Congresso não lhe apoiou, e passou a governar por decretos executivos, inclusive um que ordenou o aumento do gasto com o seu plano de saúde em bilhões de dólares sem aprovação do Congresso.

Da mesma maneira, ele decretou que mais de um milhão de imigrantes ilegais menores de idade fossem legalizados mesmo com a recusa do Congresso em aprovar a lei com conteúdo similar. Ainda assim Obama foi um dos presidentes que mais deportou imigrantes ilegais durante sua administração, tendo deportado cerca de 2.5 milhões de pessoas. 

Donald Trump agora sucederá Obama e herdará muito dos poderes criados por seu antecessor. Com isso, Trump poderá unilateralmente reverter muitas das políticas de Obama. Ele poderia, por exemplo, deportar imigrantes ilegais por decreto agora que esses foram registrados pelo governo e o Obamacare deverá sofrer um grande revés de um Congresso com maioria Republicana. Apenas agora muitos dos que enfaticamente apoiaram a concentração de poder nas mãos de Obama começaram a se dar conta dos problemas que a mesma concentração poderia gerar na futura administração de Trump. 

E as coisas ficam ainda piores ao avaliar o legado de Obama em outras áreas. O presidente que subiu ao poder criticando seus antecessores, especialmente com relação às políticas externa e de segurança apenas as endureceu e ainda as extendeu.

Sua administração deteve suspeitos de terrorismo sem nenhum processo legal e propôs as leis para mante-los presos sem julgamento, não fechou Guantanamo como havia prometido, executou milhares de pessoas (inclusive um cidadão americano) usando drones, invocou doutrinas para proteger a tortura e programas de espionagem e, secretamente, expandiu o programa de vigilância eletrônica massiva a níveis ainda maiores do que aqueles expostos por Edward Snowden.

Por fim, a sua política externa foi desastrosa para a estabilidade mundial: Líbia e Síria são apenas dois exemplos de como a administração Obama tomou decisões desastrosas no Oriente Médio. Enquanto rebeldes apoiados por Washington usavam armas químicas na Síria, Barack Obama estava preocupado em publicar sua lista de músicas preferidas no Spotify ou participar sorridente de programas de humor e entrevistas. Não discutirei aqui, ainda, a interferência americana no golpe na Turquia, na crise da Ucrânia e na atual escalada de tensões com a China. 

Ao analisar o conjunto da obra desses oito anos, não parece que a declaração de Donald Trump que Barack Obama entraria para a história como o pior presidente dos Estados Unidos estava totalmente errada ou era pura retórica. 

Guilherme Schneider é Doutorando em Ciência Política e colaborador internacional do Sul Connection

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