esporte 29/11/2016 às 17:57 - Atualizado em 30/11/2016 às 15:08

A Chapecoense na eternidade pelas asas de uma tragédia

Artigo de Fred Giovani Mezaroba, torcedor da Chapecoense e morador de Chapecó.

POR FRED GIOVANI MEZAROBA

Debaixo de chuva, em um domingo perdido no meio da década de noventa, a Chapecoense empatou com o Marcílio Dias, de Itajaí, no antigo Estádio Ìndio Condá. Cerca de quinhentas pessoas testemunharam uma partida horrível, dolorosa de se ver, que terminou em zero a zero, o mais desprezível dos resultados do futebol. Eu estava lá e vi, nos últimos minutos do jogo, um torcedor jogar um copo de cerveja na cara de um jogador que se dirigia ao banco de reservas. Vi gente de bem, normalmente tranquila, ficar irada, vermelha de raiva, fora de si. Tamanha indignação ocorria porque o time claramente descumpria sua principal função na época: ganhar dos times do litoral. Aquela era uma obrigação maior até mesmo do que vencer campeonatos. Era o modo de dizer que nossa terra de colonos e índios tinha fibra e talento.

Muitos anos se passaram, e a Chapecoense seguiu vivendo sua sina de clube pequeno: em meio a vitórias e a títulos esporádicos, insolvência, salários atrasados, processos trabalhistas, desempenho irregular. Por diversas vezes foi salva pela generosidade de empresários locais. Em 2010 viveu uma de suas piores crises, quando foi rebaixada para a série B do Catarinense, da qual acabou escapando por conta da desistência do Atlético de Ibirama de disputar a série A. Neste momento as coisas começaram a mudar.

Disposta a se organizar, apoiada pelo empresariado e poder público, empurrada pela torcida, a Chapecoense montou um exército disciplinado que marchou em triunfo por todo o país: campeão catarinense em 2011, vaga na série C do Brasileiro em 2012 e um inesperado vice-campeonato da série B em 2013. Em 2014 veio a Primeira Divisão.

Acreditei, confesso, que seria uma experiência passageira, fruto de um golpe de sorte. Logo tudo voltaria o seu lugar, e o da Chapecoense não era entre os grandes. Como transpor o abismo que havia entre o pequeno clube do oeste catarinense, o que vi se arrastar contra o Siri Mecânico naquele domingo chuvoso, e tantos campeões brasileiros e até mundiais? A campanha vexatória seria inevitável, ao menos para mim era óbvio, mas sair na mesma foto que os grandes, ainda que como papagaio de pirata, já seria o suficiente para a Chape. Mas não foi. Já são três anos na série A, e desde então vitórias escandalosas contra equipes tradicionais de todo o país entraram para a rotina e o folclore do futebol brasileiro. 

A Chapecoense provou definitivamente o seu valor, a sua luz própria. E isso, mais do que um triunfo esportivo notável, porém banal, como todos os outros- foi um exemplo luminoso de vitória da autoconfiança sobre o ressentimento. A essa altura, pouco importam as rivalidades locais.

Na semana passada a Chapecoense chegou à final da Copa Sulamericana, importante competição internacional, derrotando, dentre outros, Independiente e San Lorenzo, campeoníssimos times argentinos. Hoje de madrugada, a equipe embarcou para disputar a final contra o Atlético Nacional da Colômbia em uma aeronave da empresa LaMia, que partiu de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, rumo a Medellin. Viajavam no Avro RJ85 fretado, além dos jogadores, comissão técnica, diretoria e apoiadores da Chapecoense, jornalistas e técnicos da imprensa de todo o país, o presidente da Federação Catarinense de Futebol e os nove membros da tripulação. Causas ainda desconhecidas derrubaram a aeronave, vitimando, até o momento, setenta e cinco de oitenta e um passageiros. Dentre os resgatados, o goleiro Danilo, herói do jogo de classificação à final, com uma defesa aos quarenta e sete minutos do segundo tempo, não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital.

A cidade inteira foi atingida. Aqui, os jogadores não vivem em redomas, separados do resto do mundo. Eles são vistos levando filhos à escola, fazendo compras no mercado, a caminho dos treinamentos, muitas vezes a pé. Não há quem não tenha laços pessoais, ainda que indiretos, com atletas, jornalistas, diretores, apoiadores, quase todos gente jovem ainda, com brilho nos olhos e filhos pequenos para criar. 

Tantas vezes prestes a cair no ostracismo, a Chapecoense conquistou um posto na eternidade nas asas de uma tragédia. Foi a maior catástrofe de toda a história do esporte. E agora é como se tudo desvanecesse no ar. Deus dê forças.

Fred Giovani Mezzaroba é torcedor da Chapecoense e morador de Chapecó

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