geral 25/11/2016 às 14:23

O Estado de Faz de Conta

* Opinião. Valter Heller Danni. Policial Civil do Rio Grande do Sul.

Nada pode soar mais desprezivelmente politiqueiro e aproveitador do que o envio de tropas da Força Nacional de Segurança para o estado do Rio Grande do Sul, que atravessa uma crise de proporções bíblicas.

Na área de segurança, talvez a mais nevrálgica dessa crise, o problema se resolveria com mais policiais na rua? A resposta que logo vem à cabeça do cidadão é sim, claro que seria bom. Ser bom é uma coisa, resolver é outra.


O governo pode trazer quantos policias quiser para engordar os contingentes que não mudará absolutamente nada enquanto não houver o que fazer com o resultado do trabalho policial diário. Ok, mais policiais na rua, provavelmente mais prisões e o aumento dessas estatísticas. A parte que é relegada à escuridão marqueteira é o que é feito dessas prisões, no que elas resultam concretamente para que os gaúchos tenham uma vida mais civilizada.


Não há o que fazer com os presos. O sistema penitenciário está literalmente falido. Presos estão sendo acomodados em viaturas, presídios interditados, o que leva a Justiça, esse ser etéreo e inalcançável aos pobres mortais, a simplesmente por em liberdade aquele indivíduo que fora preso anteriormente e serviu para aumentar as estatísticas da eficiência do estado em prender.


Esse estado precisa se livrar do câncer que corroeu a segurança pública nas últimas décadas, o câncer que impediu abertura de novas vagas prisionais alimentando-se do discurso politicamente correto do “não adianta prender”. Suas metástases já se espalharam pelo Brasil, o problema não é só do RS, apenas começamos a sentir agora os sintomas mais agressivos.


A quimioterapia é ruim, dolorosa e cada governo passa o tratamento para o posterior: o investimento maciço num círculo completo de segurança, sim, com a construção de presídios e mais presídios, para que cada juiz possa decretar uma pena sabendo que o indivíduo irá para um local com as mínimas condições de dignidade


O tripé da segurança está quebrado em duas pontas. A sociedade precisa de repressão (polícia), Justiça e sistema penitenciário. Quando uma dessas pontas não funciona, tudo desaba.

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