geral 22/09/2016 às 20:37 - Atualizado em 22/09/2016 às 20:37

Não há bons argumentos contra a secessão

Muita gente rejeita a ideia de secessão, mas a maioria não tem argumentos realmente aceitáveis para discordar. Às vezes é só preconceito.

por Roger Scar

A ideia de secessão passa por vários estágios. Primeiramente, há aqueles que pensam nela de maneira bem restrita, como é o caso dos separatistas em sua maioria. O plano de movimentos como O Sul é Meu País, por exemplo, é separar os três estados do sul do Brasil dos demais, transformando isso aqui em uma nova nação. Outros, como é o meu caso, pensam mais longe e defendem a divisão dos próprios estados com base em sua cultura.

Não me vejo muito semelhante aos gaúchos. Seus costumes, seus hábitos e sua forma de fazer política em nada condizem comigo. Ademais, sou um bairrista. Meu sonho sempre foi transformar Joinville e as cidades da região em uma espécie de cidade-estado, totalmente independente do restante, mas ainda assim parte de um mesmo país - que poderia ser este novo sul, por exemplo.

A ideologia secessionista, entretanto, enfrenta forte rejeição da direita e da esquerda. Os nacionalistas e patriotas, em sua maioria, abominam a ideia pelo simples e singelo "amor à Pátria." Os esquerdistas, por sua vez, rejeitam por causa de seus projetos de poder político. Um governo como o petista jamais toleraria a ideia de perder o controle de três estados, uma vez que o objetivo dele sempre foi o de ter o maior controle político possível, sem falar na perda financeira.

Há vários bons argumentos para a secessão. Um deles é a liberdade cultural, jurídica e política. Se Santa Catarina fosse um estado independente, poderíamos ter aqui nossas próprias leis, poderíamos usar o dinheiro que é produzido aqui para promover nossa própria cultura. Elegeríamos nosso presidente, também. Outro bom argumento em prol da secessão é a facilidade - para o governo e para o povo - de se administrar as coisas em menor território. Se estamos mais próximos do governo federal, fica mais fácil cobrá-lo, pressioná-lo, exigir que ele aja de acordo com o que queremos. Para sair daqui até Brasília a viagem é longa.

Também há o fator financeiro. Nossa arrecadação de impostos, no sistema atual, vai para Brasília, fica nas mãos da União, sustenta 513 deputados, 81 senadores, inúmeros assessores, ministros, secretários, etc. Depois, volta para o nosso estado apenas uma fração daquilo que saiu. Aqui, pagamos tudo de novo. Mais deputados, mais assessores, mais secretários, etc. Por fim, aí sim, uma fração ainda menor retorna para as nossas cidades, e lá pagamos os vereadores, mais assessores, mais secretários, mais de tudo um pouco. A lista é infinita. É um caminho longo para o dinheiro percorrer, e nesse caminho muito dele se perde, caindo da carroça diretamente para o bolso de alguns trambiqueiros engravatados.

Um erro, talvez, de algumas pessoas que apoiam o separatismo, é usar como argumento que nós sustentamos o povo do nordeste. Isso é errado. Nós nunca sustentamos o povo nordestino, e sim os políticos nordestinos. Porém, também sustentamos os políticos daqui, e em certo grau eles também sustentam "nossos" políticos. Nesse jogo, quem perde é sempre o povo. Ademais, existem movimentos separatistas no nordeste também, e segundo registros eles surgiram antes mesmo dos nossos.

Portanto, a secessão é positiva. Ainda que ela não tenha capacidade para sanar estes problemas, ela será boa o bastante para amenizá-los. Um poder reduzido do Estado nos permite mais liberdade, flexibilidade e independência. Quem acredita que precisamos ser um país só, nas mãos de um só governo, nunca parou para pensar no exemplo europeu. Com exceção da Rússia, que é mais asiática que europeia, não há um só país na Europa que tenha algo próximo das proporções brasileiras em termos de população e território. Já pararam para pensar em quantos países existem na Europa, e qual é o tamanho deles?

Para se ter uma ideia, hoje, a Europa tem 51 países considerados independentes, isso incluindo a Escócia, o País de Gales e a Irlanda, que pertencem ao Reino Unido sob o comando da Inglaterra. Apesar disso, todo o continente tem menos da metade da quantidade de habitantes da China. Na realidade, toda a população europeia é menor do que a do continente americano, e apesar disso temos menos países do que eles (35, ao todo). Mesmo com tudo isso, a Europa possui mais movimentos de secessão do que nós.

Fato é que este assunto precisa começar a ser discutido com um pouco de honestidade. A ideia é ruim para alguns políticos e partidos, mas é muito boa para a população de maneira geral. Isso vale para nós, do Sul, mas também cabe para os nordestinos, ou para quem vive no centro-oeste, e assim por diante. 

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