politica 14/12/2015 às 20:01 - Atualizado em 14/12/2015 às 20:04

Em 1992, Folha comemorava 10 mil manifestantes. Hoje diz que 40 mil é pouco.

Manifestações pelo impeachment de Collor, apenas seis meses antes de sua queda, levavam 25% do que as deste fim de semana. E geravam comemoração.

Quem não conhece a história recente do Brasil talvez compre as avaliações apocalípticas da imprensa nacional sobre os resultados das manifestações de rua deste fim de semana. Ainda que tenham sido batizadas como esquenta, que seus organizadores tenham deixado claro que seu objetivo era animar para as grandes manifestações do próximo ano, foram pelo menos quatro vezes maiores do que as mesmas manifestações realizadas em 11 de Agosto de 1992. Detalhe: em Dezembro daquele ano, Fernando Collor de Mello era apeado do poder.

 

Um bom termômetro é a capa da Folha de São Paulo de 12 de Agosto de 1992, que ilustra esta matéria. Os 10 mil do Masp receberam a chamada linha fina da capa, com amplo destaque. Ao lado, fotos das "teens da rebeldia", que voltavam às ruas com a recente redemocratização. Nas matérias do meio da capa, pau pra todo gosto no governo. Luís Nassif, hoje pena alugada do petismo, atacava o fim da "era Marcílio" na economia. Gilberto Dimenstein, então diretor de redação (hoje presidente do Conselho da Folha), trazia matéria sobre a ruptura do governador de Pernambuco com Collor. Por fim, quase no rodapé, uma matéria sobre a mudança no preço das linhas telefônicas determinado pelo governo. Não tratavam de Collor e de seu fim eminente apenas uma matéria sobre a crise na sérvia e o ouro do time de vôlei nas Olímpiadas.

 

O contraste não poderia ser maior com a Folha de hoje. Mesmo com um protesto quatro vezes maior do que aquele contra Collor, a chamada é crítica: "40 mil se reúnem no menor protesto anti-PT em SP". Com direito à gráfico mostrando a queda dos participantes nas manifestações. Se bem que não deixa de ser curiosa a matemática da grande imprensa: os protestos anti-Dilma são comparados apenas com outros protestos anti-Dilma e PT. Nada do contraste com a meia dúzia de gatos pingados que se reúnem em ventos pró-governo e petismo.

 

A capa traz ainda a crise econômica, sem apontar seus culpados, notícias internacionais e a curiosa melhora do Brasil no IDH, que acabou derrubando o país mais uma posição no ranking global. A chamada da entrevista de 2ª adverte: "crise muito longa jogará os pobres fora do trem". Recadinho claro: acabem com a crise gerada pela presidente e pelo PT porque se não os pobres sofrerão. Temos ainda uma chamada para os "estados ameaçam atrasar reajuste de professores". Ameaça. Uma palavra escolhida a dedo para atacar os governadores. Mais uma paulada embaixo: "Governos estudam cortar benefícios de servidores públicos". E no rodapé, a ÚNICA chamada crítica ao governo federal, para um texto de Vinícius Motta Freire que aponta que Dilma rompeu o pacto com a democracia.

 

Temos duas opções para analisar esta diferença dramática no tratamento da Folha em relação ao impeachment de Collor e de Dilma. Ou a Folha era petista em 1992 e continua petista hoje, mantendo a coerência e uma posição político partidária clara (contrariando seu Manual de Redação, seus princípios e tudo que defende em público) ou ela era independente em 1992 e deixou de ser (igualmente contrariando seu Manual de Redação, seus princípios e tudo que defende em público).

 

Deixamos ao leitor deste Sul Connection a conclusão.

 

Capa da Folha de São Paulo - 14/12/2015

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