politica 27/11/2015 às 13:52

Os insuporto-alegrenses

Artigo de Mateus Colombo Mendes rejeitado pelo jornal Zero Hora

Na imagem: Bráulio Pelegrini Escobar, motorista do Uber espancado por taxistas, em 26/11/15?


POR MATEUS COLOMBO MENDES


Porto Alegre parece ser a menos gaúcha das cidades gaúchas. Parte dos habitantes desta paradoxal capital do Rio Grande sofre de um mal pouco recorrente no restante do estado: o mal da superficialidade sentimental, agravado por muita suscetibilidade. Analisando certas reações, a impressão é de que se trata de uma minoria de porto-alegrenses; mas uma minoria influente, em certa medida organizada, com acesso a rotativas e microfones, ao ponto de determinar os rumos da cidade. Falo dos insuporto-alegrenses.

Eles definem seus posicionamentos com base em impressões apressadas, apegadas às aparências. Por exemplo: não querem a revitalização (que chamam de “exploração”) da orla do Guaíba, na região do Cais Mauá. “O cais deve ser do povo! Fora privatização!”, bradam, apegando-se à fachada da questão. Ignoram que a orla como um todo só é utilizada pelo povo onde a tão mal-afamada iniciativa privada pôde intervir, na área do Gasômetro. Onde a orla é supostamente de todos, ela está abandonada, descuidada – e não pode ser aproveitada por ninguém.

Também, recusam o cercamento do Parque Farroupilha (Redenção) e seu fechamento à noite, porque, dizem, privará o acesso da população. Ora, tente passear pela Redenção após o anoitecer e a realidade lhe oprimirá mais do que qualquer cerca o faria. O parque já é naturalmente fechado à população à noite! Quem é obrigado a tangenciá-lo o faz às pressas, com muito medo. Cercas assustam, revelam nossa falta de segurança, nossa exposição à bandidagem; mas o que importa é que impedirão a utilização do local como reduto de delinquentes. Ponto. Faltam análises objetivas e sobram reações epidérmicas.

Foi assim quando da expansão do Hospital de Clínicas. Os insuporto-alegrenses se opuseram ao aparentemente terrível fato de que árvores dariam lugar a construções. Novamente, ficaram na superfície do problema, desconsiderando o mérito de que aqueles 10% da vegetação do terreno seriam replantados em outra área e dariam lugar a edificações que triplicariam a emergência do hospital e melhorariam o atendimento à população.

E o Uber? Com inovação tecnológica e oferecimento de boas possibilidades de locomoção aos cidadãos, obviamente o serviço já é combatido pelo poder público e pela vanguarda do atraso que conforma boa porção de nossa imprensa e de nossa – digamos – intelectualidade. Que essa gente seja contra o Uber, não pode haver surpresa. Mas chama a atenção que até entre os insuporto-alegrenses de sempre há quem seja a favor do serviço e condene a proibição imposta pelo Município e as reações truculentas dos taxistas.

Pois saibam, caros insuporto-alegrenses, que vocês têm enorme culpa por essa situação. Vocês, que abraçam meia dúzia de árvores (que seriam replantadas) mas viram as costas a pessoas que sofrem em filas de hospitais, vocês que não querem que se mexa nos redutos da bandidagem, vocês que enaltecem a “coragem” dos covardes dos Black Blocs e achincalham as famílias que vão às ruas pedir o fim dos desmandos do PT, vocês que se apressam em condenar policiais por qualquer ação que vá além da submissão aos marginais, vocês devem limitar-se a calar suas bocas e a babar em suas gravatas.

Não me surpreendo com o posicionamento de vocês. Conhecidos também como “SOCIALISTAS DE IPHONE”, normalmente defendem todo tipo de atraso e retrocesso mas são a favor de avanços e benesses que lhes beneficiam. Vocês são a favor do desarmamento, mas não abrem mão de seguranças particulares em seus condomínios; amam Fidel Castro, mas não deixam de ter quantas refeições fartas por dia quiserem; idolatram Hugo Chávez, mas não deixam de usar papel higiênico (admiram Lula, mas não perderam a virgindade com cabritas...). Vocês vivem de criticar a classe média e o empresariado, fazendo de conta que não são esses “opressores” que sustentam vocês, seja comprando as porcarias de seus jornais, seja com os impostos que pagam os salários dos funcionários públicos e professores universitários (os três grupos que mais fornecem integrantes ao insuportoalegrismo).

Se Porto Alegre é esse gigantesco balde de caranguejos, em que um puxa outro para baixo, em que não se evolui um centímetro em questões fundamentais, em que ser progressista é colocar as tetas de fora na Redenção e fumar maconha na universidade, em que falar em desenvolvimento social a partir do desenvolvimento econômico é um crime, se Porto Alegre é esta pequena Havana (sem o consolo do Caribe, mas com o reservatório de Nescau do Guaíba), a culpa é de vocês. Por anos, vocês pavimentaram a estrada que levou os vereadores a proibir o Uber, os taxistas a perseguir quem presta o serviço e o prefeito Fortunati (um petista tão petista que saiu do PT motivado por vaidade) a capitanear a horda de ludistas.

A verdade é que, do Guaíba à Redenção, das cercas às árvores, os insuporto-alegrenses e sua superficialidade politicamente correta deixam nossa cidade cada vez menos gaúcha, mais insuportável e longe, muito longe, de ser alegre.


Adendos:

1 - Para mim, em geral, tanto faz táxi ou Uber; não tenho grandes reclamações dos taxistas. Na verdade, parece-me gente muito boa. Meu ponto aqui é o que há por trás dessa questão, toda mentalidade da estupidez a priori que reina em Porto Alegre, além do sindicalismo que impera em toda a sociedade. Por outro lado, também não dá para cair na estupidez liberal que defende o Uber como se fosse o Santo Graal da liberdade humana, símbolo de uma mudança de cultura indispensável à civilização. É apenas um serviço/tecnologia a mais que vem para facilitar nossas vidas.

2 - Já enviei este texto (sem a parte do Uber) para a Zero Hora cinco vezes. Obviamente, não publicaram. Creio que o fariam se fosse, sei lá, uma defesa da preservação das urtigas do Parcão, cruelmente ceifadas pelo patriarcado branco e homofóbico.


Nota do Sul Connection: Mateus Colombo Mendes jamais poderá ser apresentador do OCTO

No blog da Giovana Sartori: A absurda proibição do Uber em Porto Alegre

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