29/04/2017 às 13:11 - Atualizado em 29/04/2017 às 13:12

Eu fui trabalhar

Ontem deveria ter sido um dia como outro qualquer, mas não foi. A militância histérica não permitiu.

Trabalho com consultoria e, especificamente à minha área, foi-nos facultado fazer home office. No fim do expediente da quinta-feira 27/05, contudo, estava com muita dor nas costas para passar um tempão no ponto de ônibus carregando o notebook de trabalho. Mais que isso, estava confiante de que, saindo pouco mais cedo que o habitual e de carro com meu pai, que também trabalha no Rio, conseguiria superar a possível greve de ônibus.

Não houve greve de ônibus em Niterói, tampouco no Rio (ao menos não na região em que circulo do município). Pelo jornal local do meu estado, já sabia haver um grupo de militantes (não mais que 20 indivíduos) fazendo um cordão de isolamento na estação de barcas de Niterói, impedindo que embarcassem as muitas pessoas que chegavam para ir trabalhar ignorando o apelo de petistas e afins. Como de costume, meu pai me deixou no ponto do ônibus intermunicipal e eu o peguei rumo ao Rio. Parecia-me estranho, contudo, que poucas pessoas estavam nos pontos. Não é possível que as pessoas aderiram a essa palhaçada... Deve estar cedo demais ou estão com medo do que podemos encontrar no caminho..., pensei comigo mesma.

Então entrou uma senhora no ônibus dizendo “A PONTE ESTÁ FECHADA!”. Gelei. Eu precisava chegar ao trabalho ao menos para apanhar meu notebook e trabalhar de casa. Busquei notícias na internet. Outra vez, umas vinte pessoas tumultuavam a vida dos que queríamos e tínhamos de trabalhar. Atravessaram carros à altura do vão central da Ponte Presidente Costa e Silva, vulgo Ponte Rio-Niterói. E eu me perguntando “Onde está a polícia que não remove fisicamente esses seres”?. Passageiros do ônibus começaram a comentar que a polícia estava na Estação das Barcas e que tinha proposto diálogo com os “””manifestantes”””, mas estes teriam reagido com violência e não aceitaram sair e ficou por isso mesmo (eles foram removidos muito mais tarde).

O ônibus passou em frente à Estação das Barcas e lá estavam equipes de TV, inúmeras faixas “Fora Temer”, gente de vermelho em um cordão de isolamento e muita gente tentando embarcar sem sucesso. Mais ou menos nesse momento, recebemos a notícia de que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) estava dirgindo-se à Ponte. Alguns passageiros desceram no meio do caminho, o que se repetiu várias vezes ao longo do trajeto. Com as ruas vazias, o ônibus logo alcançou o ponto em que se iniciava o engarrafemento, já bem perto da entrada da Ponte Rio-Niterói.

A primeira boa notícia chegou por volta das 7h30min, quando a PRF conseguiu liberar as pistas sentido Niterói da ponte. Meu pai seguia de carro parado no centro de Niteroi aguardando a situação resolver-se para ele ir para o trabalho dele. Toda vez que nos falávamos, ele me perguntava se eu não queria desistir e ir para casa, mas, além de ser extremamente persistente, eu precisava do notebook de trabalho. Na fila rumo à ponte, vários veículos, inclusive ambulências, carros de bombeiros e viaturas policiais, evidenciando ainda mais a sandice dos que se prestam a instaurar o caos nas vidas alheias. Não demorou a que víssemos pessoas deixando os ônibus e caminhando da própria ponte rumo de volta a Niterói. Aquela imagem irritava-me e me fazia ainda mais decidida a conseguir chegar ao meu destino.

7h40min e enfim duas pistas sentido Rio foram liberadas e o ônibus começou a andar, embora ainda bem pouco. Estranhamente, naquele momento havia um grande fluxo de motoristas abandonando a ponte na contramão, por meio de um retorno improvisado pelo operador da via à altura da praça de pedágio. 7h45min e três pistas liberadas. Apenas por volta das 8h da manhã a PRF conseguiu liberar totalmente a ponte em ambos os sentidos e o ônibus seguiu.

Pela ponte, o trajeto foi bem rápido. Em muitos do letreiros luminosos da via piscavam alertas da PRF informando que interditar via pública é crime com multa de quase 6000 reais. Uma das saídas da ponte, no entanto, apresentava um enorme congestionamento devido a badernas nas cercanias do Terminal Rodoviário Novo Rio. Felizmente, o motorista do ônibus em que eu estava teve presença de espírito suficiente para seguir por uma rota alternativa, de modo que, pouco antes das 9h e ainda dentro do horário, consegui enfim chegar ao trabalho.

Sim, consegui chegar e trabalhar apesar das várias tentativas da corja esquerdista de sequestrar-nos a todos para a causa deles. E orgulho-me muito por isso. Assim como fiquei feliz por ver a maioria das pessoas trabalhando normalmente lá na empresa, muitos que também enfrentaram um trajeto hostil. Naturalmente, aproveitei o horário do almoço para retornar do Rio junto do meu pai, que lá chegou um pouco mais tarde que eu, e chegar em casa em tempo de cumprir meu horário de trabalho e não enfrentar problemas na volta, pois já conhecia bem o modus operandi da turba aqui no rio: passeata no Centro no fim da tarde/começo da noite; black blocs, incêndios, pedradas, quebra-quebra generalizada; vandalismo absoluto. E essa impressão foi confirmada mais tarde, quando pelo menos dez ônibus foram incendiados no Centro da cidade (embora a imprensa insista que os vândalos eram meros “infiltrados” e que todo o resto foi pacífico). Não, não há nada de pacífico quando para defender suas ideias é preciso fazer barricadas e estabelecer o caos para que outros, involuntariamente, sirvam a sua causa. Não há nada de pacífico em se interromper o direito de ir e vir do outro, de nos impedir de seguirmos nossas rotinas de trabalho e/ou estudo, deixando pessoas cansadas/doentes/idosos/gestantes encurraladas e desesperadas pelo caos. Isso é chantagem, isso é sequestro, isso é crime.

Por outro lado, algumas coisas chamaram-me positivamente a atenção nesse conturbado dia. A postura de João Dória, prefeito de São Paulo, em colacar em prática planos de enfrentamento à turba. Empresas que se dispuseram a reembolsar viagens de Uber/Táxi para que funcionários conseguissem chegar ao trabalho. O Ibmec, faculdade pela qual orgulhosamente graduei-me em Economia, onde as aulas ocorreram normalmente (exceto as da noite, mas por questão de segurança, uma vez que a faculdade localiza-se no Centro do Rio). A prefeitura de Maranguape, região metropolitana de Fortaleza (e cidade natal do falecido humorista Chico Anysio), salientando que o expediente ontem seguiria normalmente até às 17h e com corte de ponto para quem não comparecesse. E, por fim, minha enorme admiração pela Dona Cleude, mãe de uma das minhas melhores amigas e diretora linha-dura de colégio público na região metropolitana de Fortaleza, que se se recusou a permitir que sua escola aderisse à greve, cortou ponto de professores que aderiram e ainda impôs que os ausentes reponham as aulas em algum sábado. Por um Brasil com mais diretoras de colégios, públicos e particulares, como Dona Cleude e menos diretores e professores subordinados a sindicatos que são grande parte dos péssimos resultados do ensino brasileiro.

Fiquem com algumas fotos que consegui tirar no trajeto de ontem.
 

Greve Esquerda