22/01/2017 às 20:33

Por que a ficção importa

Liberais e conservadores deixaram a esquerda dominar a ficção. E isso é grave, gravíssimo. A ficção é a base da imaginação de um povo, seja por meio da literatura, do cinema, do teatro ou de séries e novelas. É por meio da ficção que se endossam ou se repudiam estereótipos, transmitem-se valores e ideias, uma vez que a base para uma boa obra ficcional é construir personagens dotados de personalidade própria e complexidade, repletos de conflitos e emoções conflitantes, tal como os indivíduos da vida real. E não é raro ver filmes, livros, novelas e séries que debocham de conservadores e liberais ou os colocam como vilões/falsos moralistas ou quaisquer outros adjetivos que denigrem o todo do que pode ser normalmente identificado com a direita política. Na verdade, este é o tipo predominante de obra e assim é porque quem escreve e produz tais obras é majoritariamente afeito a ideias socialistas ou social-democratas.

O caso do cinema e da TV é o mais evidente, sobretudo em um país como Brasil, onde a leitura não é um dos hábitos de predileção da população. O caso da literatura, contanto, não é menos preocupante. No Brasil, ao menos, é praticamente impossível conseguir publicar obras que não analisem as mazelas da nação sob uma ótica bastante esquerdista; na verdade, você nem mesmo é visto por seus pares como alguém que produz literatura. Pior que isso, não é raro que se desencoraje quem escreve ficção que apresente personagens que defendam valores como família, amizade, cristianismo, liberalismo clássico e conservadorismo. A própria pessoa que vos escreve, e começou a escrever ficção aos 13 anos, ouviu da professora de português da oitava série que era “perda de tempo escrever personagens que pertencem a uma elite deslumbrada e exploradora e incapazes de conhecer qualquer problema de verdade”. Obviamente a fala castradora da professora foi solenemente ignorada por sua então aluna, que segue escrevendo.

É, contudo, na literatura estrangeira, que se vê o maior problema, uma vez que tem maior alcance, sobretudo entre os jovens, bem mais influenciáveis pelos ideais expostos por seus escritores prediletos. Acompanhando vários autores cuja obra aprecio, não foi uma surpresa vê-los todos apoiando a marcha das mocréias. Sim, aquela pacífica marcha em que Madonna disse ter pensado muito sobre explodir a Casa Branca. Sim, a marcha em que uma das patrocinadoras defende a implementação da sharia, que impõe pena de morte a gays, por exemplo, na América. Sim, a pacífica marcha em que defenderam Hillary Clinton, a mulher que perseguiu as vítimas do marido, insinuando que elas eram vadias e culpadas por terem sido violentadas por Bill Clinton, aquele ser admirável que vilipendiou a Casa Branca e ficou se mordendo e lambendo os lábios enquanto Ivanka Trump passava ontem na posse do pai.

Para a mundialmente best-seller escritora britânica Jojo Moyes (”A última carta do meu amor”; “Um Mais Um”; Como eu era antes de você”), por exemplo, era absolutamente pacífico o protesto em que a atriz Ashley Judd expulsou o ridículo Michael Moore do palco porque ele é homem e estaria "roubando o protagonismo" das mulheres e Madonna vocifera "elogios" a todos que discordam dela, bem como muitas feministas colaram absorventes com frases imbecis como "Blood proud" em paredes públicas. Já a também mundialmente best-seller autora americana Emily Giffin (”O Noivo da Minha Melhor Amiga”; “Presentes da Vida”) acha lindo o ativismo político de uma professora da filha mais nova dela, que levou a menina de nove anos para o protesto em Atlanta. JK Rowlling (”Harry Potter”), uma das mais influentes autoras das últimas duas décadas para o público juvenil vive a dar chiliques nas redes sociais a respeito de política, seja por causa do Brexit ou da eleição de Trump; assim como o aclamado autor de terror e suspense Stephen King (”O Iluminado”; “A Coisa”).

E é óbvio que esses autores majoritariamente refletirão essas ideias em suas obras, que alcançarão milhões de pessoas e influenciarão a leitura de mundo dessas pessoas, o que, obviamente, não é errado da parte deles. A ficção somente é convincente para o leitor quando o próprio autor está convencido daquilo que narra, seja quanto à maneira como interagem as personagens, seja pelo tipo de personagem a quem se atribui cada visão de mundo. Emily Giffin, por exemplo, em “Primeiro e Único", traz personagens que repetem toda a palhaçada desarmamentista defendida pelo partido Democrata Americano e ainda estereotipa texanos como majoritariamente violentos, machistas, ignorantes e loucos por futebol e armas - sempre usando tom pejorativo ao atribuir tais características a alguns personagens -, bem como frisa como republicano o pai que se separou da segunda esposa com uma filha pequena para retornar à primeira esposa.

Surpreendentemente, por outro lado, Jojo Moyes cria personagens e enredos universais que em nada indicam a posição política dela. Pelo contrário, visto que “Um Mais Um” é uma defesa explícita da meritocracia e narra fatos que confirmam ideias que o conservador Theodore Dalrymple apresenta em “A Vida na Sarjeta”. Em "Nada Mais a Perder", a autora traz uma protagonista que tornou-se cética à política imigratória europeia após descobrir que um dos adolescentes para quem tinha conseguido asilo na Inglaterra cometera um homicídio e tinha-lhe contado mentiras para convencê-la da situação dele de refugiado.

Ficção é a base da imaginação de um povo. Ainda que haja autores esquerdistas como Jojo Moyes, a maioria é como Emily Giffin ou ainda mais veemente na disseminação de suas ideias. Mais uma vez, não é errado que eles usem seus livros para venderem suas ideias; errado é que liberais e conservadores não façam o mesmo, que não fiquem apenas nas teorias e não se empenhem em conquistar um lugar ao sol na escrita ficcional. A maneira como a esquerda sabe utilizar a ficção como meio sutil de disseminação de suas ideias deveria ficar como alerta para liberais e conservadores: precisamos de mais escritores de ficção a disseminar nossas ideias e assim equilibrar o jogo no campo cultural. Pela ficção, absorve-se valores com muito mais rapidez e facilidade que pela teoria e, ao menos até aqui, o que se convenciona chamar de direita falhado miseravelmente nisso. Raríssima exceção feita a Julian Fellowes, membro da câmara dos lordes britânica pelo partido conservador, criador do sensacional Downton Abbey e escritor do não menos incrível "Belgravia".

Não basta ficarmos com as teorias apenas. A cultura importa e muito e a ficção é grande parte disso.