02/01/2017 às 09:12 - Atualizado em 02/01/2017 às 09:22

Resenha: A Nova Síndrome de Vichy

Em 29/12 enfim foi exibida a entrevista que o psiquiatra e ensaísta britânico Anthony Daniels, que atende pelo pseudônimo de Theodore Dalrymple em seus artigos e livros, concedeu ao programa Roda Viva. Infelizmente, como muito bem relatou Guilherme Macalossi na edição de 30/12 de seu programa de rádio, o Confronto, a entrevista decepcionou os fãs brasileiros do escritor inglês, visto que boa parte do time de entrevistadores estava mais preocupada em polemizar sobre feminismo e delações premiadas do que indagá-lo a respeito das teses das obras dele, além de ao menos uma jornalista ter admitido sequer conhecia a obra do autor.

Eis um momento mais que adequado para conhecer um pouco do trabalho de Dalrymple. E, dessa vez, o trabalho a ser destacado do autor é “A Nova Síndrome de Vichy: Porque intelectuais europeus se rendem ao barbarismo”, lançado em meados de 2016 pela editora É Realizações. Originalmente publicado em 2010, o livro permanece atualíssimo na maneira como aborda a decadência que assola o continente europeu, hoje profundamente mais abalado que há seis anos. Nas 180 páginas, Dalrymple trata de como a Europa já não se destaca no mundo seja por crescimento econômico e pesquisa científica, seja por influência e poder e de como, apesar disso, Europa parece incapaz de reagir por causa das ações da classe política da União Europeia, que teme perder o poder e as regalias que adquiriram ao longo dos anos.

“Síndrome de Vichy” foi a expressão cunhada pelo historiador francês Henry Rousso, referindo-se ao trauma nacional francês pós-Segunda Guerra Mundial por ter colaborado com os nazistas em certo momento do conflito e Dalrymple estabelece um paralelo desse sentimento com o forte mal-estar que europeus ainda sentem por terem vivido duas grandes guerras, o qual teria minado a auto-confiança da população. Isso ainda teria feito com que esta se apegue à segurança econômica, à melhora do padrão de vida e à redução da jornada de trabalho como sendo o estado natural das coisas.


“A União Europeia hoje funciona como um gigantesco fundo de pensão para políticos defuntos, os quais não conseguem ser eleitos em seus próprios países […] É um modo de os políticos permanecerem importantes e poderosos no centro de uma rede clientelista depois de terem sido derrotados ou de perder a disposição para passar pelos rigores do processo eleitoral”


Para Dalrymple, a União Europeia foi criada tanto para aplacar esse sentimento ruim demonstrando a intenção de as nações europeias não mais guerrearem entre si, como para tentar reestabelecer a glória associada à história do continente anterior às guerras mundias e manter o poder de políticos que, a depender de votos, já não teriam mais suas carreiras. Mais especificamente, destaca-se a abordagem do autor a respeito de Inglaterra, França e Alemanha. Enquanto a Alemanha, derrotada tanto na primeira como na segunda guerra empenha-se fervorosamente em deixar de ser alemã por temer um renascimento do nazismo, a França esforça-se por voltar a ter glória e ser uma grande potência e a Inglaterra gostaria de poder anular seu passado colonialista.

Já no primeiro capítulo do livro, Dalrymple ressalta que entre os sentimentos que fortalecem a percepção da decadência europeia estão a ansiedade e a fraqueza. A ansiedade deve-se muito à ascensão industrial da China e da Índia, cujas produções são mais competitivas no mercado mundial devido à mão-de-obra barata e alta tecnologia, não aparentando a Europa ser capaz de promover os grandes avanços tecnológicos necessários para superar tais países. Além disso a Europa é estrategicamente vulnerável, uma vez que depende de fontes estrangeiras de energia, sobretudo de países politicamente instáveis. Já a fraqueza refere-se à maneira apaziguadora como a Europa tem reagido a todo tipo de ameaça que tem se manifestado, bem como à falta de preparo e de capacidade militar dos países do continente. 

O ponto mais contrverso da análise talvez seja a maneira branda como o autor trata os movimentos imigratórios com destino à Europa e as consequências previstas. Embora Dalrymple saliente que as baixas taxas de natalidade dos europeus nativos figura entre os motivos do declínio europeu e do insustentável estado de bem-estar social, ele não considera tão preocupante o fato de a população muçulmana da Europa ser mais jovem e mais fértil que o restante da população. Para o psiquiatra, a Europa não só encontrará meios de limitar a imigração massiva proveniente de países islâmicos como também a população muçulmana na Europa tende a se estabilizar em números mais elevados que os atuais, porém ainda assim minoritários. Mais que isso, Dalrymple acredita existir uma tendência de que os imigrantes e seus descendentes tornem-se mais ocidentalizados a cada geração, embora reconheça que mesmo um reduzido número de fanáticos seja extremamente perigoso, bem como se mostrar intimidado por estes e adotar leis que os protejam de ter sentimentos feridos. Por outro lado, é louvável que, ainda que em uma nota de rodapé, o autor exponha como o movimento feminista nada faz a respeito da opressão vivida por mulheres islâmicas mesmo no Ocidente, o que ele atribui às covardias física e moral e ao fato de que as feministas teriam de criticar o multiculturalismo pelo qual tanto militam.

Outro interessante ponto levantado está em apontar os diversos relativismos como causa da decadência. Troca de palavras como “verdadeiro” por “válido”; a sugestão de que ensinar a gramática correta é prejudicial para a autoestima de crianças que cresceram em lares menos abastados e ainda colocaria essa; o multiculturalismo; o politicamente correto. Dalrymple menciona também o “individualismo sem individualidade”, que seria o fato de muitas pessoas não estarem dispostas a tolerar qualquer restrição proveniente de autoridades, mas que se curva diante os gostos da maioria e de seus pares sendo ao mesmo tempo intolerante a quaisqer divergências que outros manifestem quanto a suas opiniões/modo de vida. Ademais, para o médico, em uma sociedade extremamente secularizada como a europeia, as pessoas acabam buscando formas “pagãs” de transcendência, como teorias Ecomalthusianas, nacionalismo e mesmo o antinacionalismo do projeto europeu de formação de um estado supranacional. Por fim, Dalrymple afirma que o derrotismo visto nas nações europeias acaba por provocar um misto de indiferença e ódio pelo passado, não tendo mais nenhum conceito do que seja a glória e mesmo ridicularizando manifestações desta.


“Uma historiografia da miséria tornou-se a marca registrada do homem sensível e bem informado, cujo lema é esquivar-se de qualquer otimismo condescendente para com o passado”


Assim sendo e considerando a fluidez da escrita de Dalrymple (mantida na tradução para o português), “A Nova Síndrome de Vichy” é uma obra excelente e rápida para os que desejam entender a decadência europeia sob vários aspectos distintos, ainda que, provavelmente, venham a discordar de um ou outro ponto da análise.