14/11/2016 às 20:01 - Atualizado em 14/11/2016 às 20:11

¡Es libre el llanto!

“When Mexico sends its people, they’re not sending their best and their brightest…They’re sending people that have lots of problems, and they’re bringing those problems to us. They’re bringing drugs. They’re bringing crime. They’re rapists. And some, I assume, are good people.” Quando o Mexico manda seu povo, não está mandando o seu melhor e mais brilhante. eles têm mandado pessoas com muitos problemas e que estão trazendo esses problemas para nós. Estão trazendo drogas. Estão trazendo crime. E muitos, eu acredito, são boas pessoas.

Tocando com dureza em uma das temáticas mais polemizadas pela esquerda americana, a questão da imigração ilegal, já no discurso de lançamento de sua campanha pela vaga à disputa presidencial pelo Partido Republicano, o empresário Donald Trump conseguiu atrair para si o ódio de politicamente corretos de todas as matizes, bem como a mídia não perdeu tempo em distorcer a fala do então candidato. Obviamente, por toda a mídia repetiram à exaustão que Trump manifestou ódio por mexicanos e imigrantes em geral, que Trump acusou imigrantes como um todo de serem traficantes e estupradores. E, claro, omitiram todos os trechos da fala do empresário que evidenciavam a especificidade dela em relação aos ilegais.

Mais de um ano, muitas polêmicas mais, infinitas palavras distorcidas pela mídia amplamente pró-Hillary, pesquisas eis que Trump elegeu-se presidente da América. E as inúmeras celebridades que a tantos ridículos expuseram-se para ajudar Hillary Clinton a ganhar votos, conseguiram superar-se. Cher chorou em público; Zara Larsson perguntou se “velhos não poderiam morrer de uma vez”; Lady Gaga foi gritar com um megafone diante o Trump Hotel em Nova York, clamando por que os delegados traiam os votos de seus estados e elejam Hillary; Katy Perry convocou uma revolução por twitter e Miley Cyrus, aos prantos, resignou-se por Snapchat. Eis algumas das reações de algumas das pessoas mais famosas do planeta. Há, contudo, um outro grupo de celebridades fazendo um escarcéu tão grande (e hipócrita) quanto, mas que tem passado desapercebido nas mídias brasileira e americana: as celebridades hispano-americanas.

Antes, contudo, é relevante lembrar como se comportaram essas celebridades desde meados desde 2015. A histeria de artistas do mundo latino naturalmente começou tão logo que Trump iniciou sua campanha. A Univision, uma emissora de programação hispânica na América, rompeu o contrato que tinha com o empresário para a transmissão do Miss USA para o público hispânico; Bill de Blasio, prefeito de New York de ascendência latina, anunciou que revisaria todos os contratos que a prefeitura eventualmente tivesse com as empresas de Trump porque este seria “racista com latinos”.

“Encuentro los comentarios del Sr. Trump injustos e hirientes. Como colombiana y como Miss Universo, quiero mostrar mi apoyo y avalar los sentimientos de la comunidad latina” – Paulina Vega, atual Miss Universo.

“Sr. Trump, como latino no puedo trabajar en ningún evento asociado con su nombre… Las declaraciones que hizo en contra de mexicanos e inmigrantes demuestran que usted es un ignorante. Es inaceptable que busque la candidatura presidencial creando una retórica de odio y discriminación, llamando a los mexicanos traficantes y violadores. Es una lástima que una institución tan importante como Miss USA esté en manos de un payaso” – Cristian de la Fuente, ator chileno (que trabalha para a Televisa, México).

“En principio me espanté y entré en shock porque llevo meses preparándome para hacer un buen papel, pero aplaudo la decisión. Asistir era una meta importante, pero es mejor no participar en un certamen que va en contra de mis valores y los de los mexicanos. La corona más grande que puede llevarse México es la dignidad” – Wendy Esparza, atual Nuestra Belleza México (“Miss” México).

“Como mexicana me siento muy ofendida e indignada igual que todos, como Miss Universo me parece que Donald Trump le está haciendo mucho daño a la organización; #MissUniverso es un concurso con gran historia en el mundo, que se ha caracterizado por convocar a los países a participar en un evento donde predomina la amistad y la unión, echando abajo barreras culturales. Es una pena que por sus comentarios racistas se pierda lo que el concurso ha promovido y representado durante tantos años que es un ambiente de armonía y paz entre naciones; por lo cual, y de acuerdo al comunicado de @Televisa, no participaremos en MU”. – Lupita Jones, ex Miss Universo.

Manchete de ontem do site TV y Novelas, omitindo que os imigrantes que Trump deseja deportar são ilegais que cometeram crimes em território americano


Naturalmente, os comentários que sucederam à vitória de Trump não foram muito distintos. A manchete de ontem do site TV y Novelas, tal como manchetes de veículos de todo o mundo, omitiu que os imigrantes que Trump deseja deportar são ilegais que cometeram crimes em território americano. Já atriz mexicana Ariadne Díaz, que já iniciou as filmagens da novela “La Doble Vida de Estela Carrillo”, que abordará a temática da imigração ilegal, em entrevista a revista TV y Novelas, declarou:

“¿Cómo es posible después de ver la forma en que este hombre habla de nosotras las mujeres? Es increíble como este tipo que es evidentemente misógino, una mujer puede ir a una casilla y votar por este señor que agrede directamente a mi género, que ataca a personas de distintos colores y diferencias sexuales. Ayer que veía lo que estaba sucediendo decía 'Dios mío por favor no', porque yo sé como está la situación económica acá. Lo único que me resta decir es que Diosito nos ayude y que hagamos lo mejor sabemos hacer que es trabajar, que  este es un país que si por algo no para es por gente chambeadores […] Me dormí a las dos de la mañana viendo lo que estaba pasando y dije parece que nos hubiéramos puesto de acuerdo, nos perdemos con esta realidad que ni esperábamos ni nos favorece porque esta historia toca estas fibras”


Decerto a novela por estrear da Televisa será um conto a edulcorar a vida como imigrantes ilegais, a mostrá-los como verdadeiros heróis/vítimas a desafiar as “tirânicas” leis vigentes e a tratar policiais e a justiça americana como carrascos, desumanos, tal como fez a novela brasileira América nos idos de 2015. O ator Jaime Camil compartilhou no twitter nota do comentarista da CNN que disse que a vitória de Trump foi algo arquitetado por brancos "racistas"; já Ana Brenda Contreras, atriz mexicana, foi virulenta em seu perfil no Twitter,  acusando os americanos de não conhecerem a própria história. As atrizes Ludwika Paleta, Chantal Andere e Barbara Mori,  famosas no Brasil pelas novelas Carrossel, A Usurpadora e Rubi, respectivamente, também expuseram sua opinião durante a apuração.

"La cosa en México no va a estar fácil, inclusive para los privilegiados. Esperemos que sea un llamado para todos y que todos hagamos equipo" – Alfonso Herrera, ator.

"¿Cuántas mujeres habrán votado por Trump? ¿Cuántos latinos? Esto no puede estar sucediendo" – Diego Luna, ator.

 

 

 


A população hispano-americana que reside em seus países natais, a propósito, parece compartilhar dos mesmos sentimentos, é possível notar por comentários nas redes sociais, sobretudo nas páginas de artistas e portais latinos de celebridades. Os comentários, sempre em tom apavorado e catastrófico, não raramente comparam Trump a Hitler e/ou manifestam que a própria existência do estado nacional mexicano encontra-se ameaçada com Trump ocupando a Casa Branca. Mais que isso, alguns até mesmo acusam o povo americano de ter uma personalidade fascista por ter escolhido Trump em vez de Clinton (cuja fundação aceita dinheiro de ditaduras islâmicas que apedrejam mulheres por adultério e arremessam gays do alto de prédios), lembrando o famoso meme “Tudo o que eu não gosto é fascista”. E é nesses comentários que algo peculiar, porém de nenhuma maneira surpreendente, transparece com veemência: o fervor antiamericano.


“Pobre de México, ¡tan lejos de Dios, tan cerca de Estados Unidos!” Eis um famoso ditado atribuído aos mexicanos que faz referência ao antiamericanismo de longa data predominante entre os mexicanos. Entre 1946 e 1948 o México travou uma guerra com a América na qual perdeu para este cerca de metade do que considerava território mexicano, o que incluía o atual estado americano do Texas, que anos antes havia declarado independência em relação ao México. À época presidente da América pelo Partido Democrata, James K. Polk elegera-se presidente prometendo anexar a então República do Texas ao território americano e, em 1944, propôs ao governo mexicano comprar a área entre os rios Nueces e Grande a fim de expandir os domínios americanos.  Com a oferta rejeitada pelo México, o governo americano moveu tropas para Cohauila, no México, e as tropas deste contra-atacaram. Assim começou a guerra que levou o México a perder a antiga porção norte de seu território. Esse episódio representa um ponto traumático no imaginário mexicano a respeito da América, sendo ensinado às crianças desde os primeiros anos de estudos de História como uma mostra do imperialismo americano, como uma mostra de como a América julga-se superior à América Latina.

A doutrinação ao antiamericanismo desde a mais tenra idade acaba por fomentar algo como um ressentimento em relação à América e aos americanos, um sentimento que todas as misérias mexicanas devem-se, de alguma forma, às ações americanas no mundo e ao conflito entre os dois países em meados do século XIX. A eleição de Trump como presidente americano apenas fez muito desse pensamento aflorar, ser publicamente exposto, como indicam comentários como o que sugeriu que americanos são fascistas por natureza.

Por outro lado, isso torna o comportamento das celebridades latinas supracitadas (sobretudo das mexicanas) ainda mais curioso. Embora frequentemente apontem a América como o demônio em forma de país e vocalizem isso com fervor ainda maior quando as decisões políticas do país contrariam suas opiniões pessoais, não são raras as celebridades mexicanas que, após firmadas na carreira, mudam-se para Miami ou Los Angeles. Por que se mudam para um país que consideram detestá-los tão fortemente? Mais que isso, muitas são as celebridades sem nenhuma raiz americana que se mudam para a América nos últimos meses de gestação a fim de que seus rebentos lá nasçam e assim tenham assegurada a cidadania americana. Sim, a cidadania da nação demoníaca cujos valores eles rejeitam! Sandra Echeverría, atriz, mudou-se para a América poucas semanas antes do nascimento de seu primogênito. Galilea Montijo, apresentadora e atriz, deu a luz seu filho em Miami. Jaime Camil, ator mexicano (que é cidadão brasileiro, a propósito) e sua esposa, a argentina Heidi Balvanera, também tiveram seu casal de filhos na América, bem como o comediante Eugenio Derbez e a atriz/apresentadora Alessandra Rosaldo lá tiveram a filha. Mais recentemente, após ter tido duas filhas no México, a atriz Jacqueline Bracamontes e o corredor Martín Fuentes escolheram a América para o nascimento da terceira filha.  Por que deixar seu país Natal para ter filhos em um país que supostamente odeia latinos? Porque sabem, embora nunca vão dizer publicamente, que a condição média de vida na América é superior a do México; porque sabem que um passaporte americano pode facilitar muita coisa; porque o estado americano é mais eficiente que o mexicano. Ainda assim, ao chegar à América, defendem o mesmo tipo de político que é responsável pela ruína latino-americana.
 


Assim sendo, o comportamento das celebridades latinas que vivem na América consegue ser ainda mais asqueroso e hipócrita que o do segmento hollywoodiano. Não nasceram na América, ninguém os obrigou a ir para lá e, como pessoas públicas, acabam por disseminar suas impressões distorcidas para um número enorme de pessoas. Acusar o povo americano e Donald Trump de racistas, fascistas, misóginos e homofóbicos no twitter, facebook ou alguma entrevista enquanto desfruta das boas coisas de se viver na América é muito fácil; retornar para o México, que é bom, nenhuma dessas celebridades quer. Por isso, às celebridades latinas em estado histérico diante os recentes eventos, só há um consolo: ¡Es libre el llanto!”