THAÍS GUALBERTO
Thaís Gualberto é formada em Economia pelo IBMEC-RJ e é natural de Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, onde ainda vive. Além de colaborar com o portal Sul Connection, publica crônicas e resenhas de obras de ficção em seu outro blog.

29/04/2017 às 13:11 - Atualizado em 29/04/2017 às 13:12

Eu fui trabalhar

Ontem deveria ter sido um dia como outro qualquer, mas não foi. A militância histérica não permitiu.

Trabalho com consultoria e, especificamente à minha área, foi-nos facultado fazer home office. No fim do expediente da quinta-feira 27/05, contudo, estava com muita dor nas costas para passar um tempão no ponto de ônibus carregando o notebook de trabalho. Mais que isso, estava confiante de que, saindo pouco mais cedo que o habitual e de carro com meu pai, que também trabalha no Rio, conseguiria superar a possível greve de ônibus.

Não houve greve de ônibus em Niterói, tampouco no Rio (ao menos não na região em que circulo do município). Pelo jornal local do meu estado, já sabia haver um grupo de militantes (não mais que 20 indivíduos) fazendo um cordão de isolamento na estação de barcas de Niterói, impedindo que embarcassem as muitas pessoas que chegavam para ir trabalhar ignorando o apelo de petistas e afins. Como de costume, meu pai me deixou no ponto do ônibus intermunicipal e eu o peguei rumo ao Rio. Parecia-me estranho, contudo, que poucas pessoas estavam nos pontos. Não é possível que as pessoas aderiram a essa palhaçada... Deve estar cedo demais ou estão com medo do que podemos encontrar no caminho..., pensei comigo mesma.

Então entrou uma senhora no ônibus dizendo “A PONTE ESTÁ FECHADA!”. Gelei. Eu precisava chegar ao trabalho ao menos para apanhar meu notebook e trabalhar de casa. Busquei notícias na internet. Outra vez, umas vinte pessoas tumultuavam a vida dos que queríamos e tínhamos de trabalhar. Atravessaram carros à altura do vão central da Ponte Presidente Costa e Silva, vulgo Ponte Rio-Niterói. E eu me perguntando “Onde está a polícia que não remove fisicamente esses seres”?. Passageiros do ônibus começaram a comentar que a polícia estava na Estação das Barcas e que tinha proposto diálogo com os “””manifestantes”””, mas estes teriam reagido com violência e não aceitaram sair e ficou por isso mesmo (eles foram removidos muito mais tarde).

O ônibus passou em frente à Estação das Barcas e lá estavam equipes de TV, inúmeras faixas “Fora Temer”, gente de vermelho em um cordão de isolamento e muita gente tentando embarcar sem sucesso. Mais ou menos nesse momento, recebemos a notícia de que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) estava dirgindo-se à Ponte. Alguns passageiros desceram no meio do caminho, o que se repetiu várias vezes ao longo do trajeto. Com as ruas vazias, o ônibus logo alcançou o ponto em que se iniciava o engarrafemento, já bem perto da entrada da Ponte Rio-Niterói.

A primeira boa notícia chegou por volta das 7h30min, quando a PRF conseguiu liberar as pistas sentido Niterói da ponte. Meu pai seguia de carro parado no centro de Niteroi aguardando a situação resolver-se para ele ir para o trabalho dele. Toda vez que nos falávamos, ele me perguntava se eu não queria desistir e ir para casa, mas, além de ser extremamente persistente, eu precisava do notebook de trabalho. Na fila rumo à ponte, vários veículos, inclusive ambulências, carros de bombeiros e viaturas policiais, evidenciando ainda mais a sandice dos que se prestam a instaurar o caos nas vidas alheias. Não demorou a que víssemos pessoas deixando os ônibus e caminhando da própria ponte rumo de volta a Niterói. Aquela imagem irritava-me e me fazia ainda mais decidida a conseguir chegar ao meu destino.

7h40min e enfim duas pistas sentido Rio foram liberadas e o ônibus começou a andar, embora ainda bem pouco. Estranhamente, naquele momento havia um grande fluxo de motoristas abandonando a ponte na contramão, por meio de um retorno improvisado pelo operador da via à altura da praça de pedágio. 7h45min e três pistas liberadas. Apenas por volta das 8h da manhã a PRF conseguiu liberar totalmente a ponte em ambos os sentidos e o ônibus seguiu.

Pela ponte, o trajeto foi bem rápido. Em muitos do letreiros luminosos da via piscavam alertas da PRF informando que interditar via pública é crime com multa de quase 6000 reais. Uma das saídas da ponte, no entanto, apresentava um enorme congestionamento devido a badernas nas cercanias do Terminal Rodoviário Novo Rio. Felizmente, o motorista do ônibus em que eu estava teve presença de espírito suficiente para seguir por uma rota alternativa, de modo que, pouco antes das 9h e ainda dentro do horário, consegui enfim chegar ao trabalho.

Sim, consegui chegar e trabalhar apesar das várias tentativas da corja esquerdista de sequestrar-nos a todos para a causa deles. E orgulho-me muito por isso. Assim como fiquei feliz por ver a maioria das pessoas trabalhando normalmente lá na empresa, muitos que também enfrentaram um trajeto hostil. Naturalmente, aproveitei o horário do almoço para retornar do Rio junto do meu pai, que lá chegou um pouco mais tarde que eu, e chegar em casa em tempo de cumprir meu horário de trabalho e não enfrentar problemas na volta, pois já conhecia bem o modus operandi da turba aqui no rio: passeata no Centro no fim da tarde/começo da noite; black blocs, incêndios, pedradas, quebra-quebra generalizada; vandalismo absoluto. E essa impressão foi confirmada mais tarde, quando pelo menos dez ônibus foram incendiados no Centro da cidade (embora a imprensa insista que os vândalos eram meros “infiltrados” e que todo o resto foi pacífico). Não, não há nada de pacífico quando para defender suas ideias é preciso fazer barricadas e estabelecer o caos para que outros, involuntariamente, sirvam a sua causa. Não há nada de pacífico em se interromper o direito de ir e vir do outro, de nos impedir de seguirmos nossas rotinas de trabalho e/ou estudo, deixando pessoas cansadas/doentes/idosos/gestantes encurraladas e desesperadas pelo caos. Isso é chantagem, isso é sequestro, isso é crime.

Por outro lado, algumas coisas chamaram-me positivamente a atenção nesse conturbado dia. A postura de João Dória, prefeito de São Paulo, em colacar em prática planos de enfrentamento à turba. Empresas que se dispuseram a reembolsar viagens de Uber/Táxi para que funcionários conseguissem chegar ao trabalho. O Ibmec, faculdade pela qual orgulhosamente graduei-me em Economia, onde as aulas ocorreram normalmente (exceto as da noite, mas por questão de segurança, uma vez que a faculdade localiza-se no Centro do Rio). A prefeitura de Maranguape, região metropolitana de Fortaleza (e cidade natal do falecido humorista Chico Anysio), salientando que o expediente ontem seguiria normalmente até às 17h e com corte de ponto para quem não comparecesse. E, por fim, minha enorme admiração pela Dona Cleude, mãe de uma das minhas melhores amigas e diretora linha-dura de colégio público na região metropolitana de Fortaleza, que se se recusou a permitir que sua escola aderisse à greve, cortou ponto de professores que aderiram e ainda impôs que os ausentes reponham as aulas em algum sábado. Por um Brasil com mais diretoras de colégios, públicos e particulares, como Dona Cleude e menos diretores e professores subordinados a sindicatos que são grande parte dos péssimos resultados do ensino brasileiro.

Fiquem com algumas fotos que consegui tirar no trajeto de ontem.
 

Greve Esquerda

 

 

22/01/2017 às 20:33

Por que a ficção importa

Liberais e conservadores deixaram a esquerda dominar a ficção. E isso é grave, gravíssimo. A ficção é a base da imaginação de um povo, seja por meio da literatura, do cinema, do teatro ou de séries e novelas. É por meio da ficção que se endossam ou se repudiam estereótipos, transmitem-se valores e ideias, uma vez que a base para uma boa obra ficcional é construir personagens dotados de personalidade própria e complexidade, repletos de conflitos e emoções conflitantes, tal como os indivíduos da vida real. E não é raro ver filmes, livros, novelas e séries que debocham de conservadores e liberais ou os colocam como vilões/falsos moralistas ou quaisquer outros adjetivos que denigrem o todo do que pode ser normalmente identificado com a direita política. Na verdade, este é o tipo predominante de obra e assim é porque quem escreve e produz tais obras é majoritariamente afeito a ideias socialistas ou social-democratas.

O caso do cinema e da TV é o mais evidente, sobretudo em um país como Brasil, onde a leitura não é um dos hábitos de predileção da população. O caso da literatura, contanto, não é menos preocupante. No Brasil, ao menos, é praticamente impossível conseguir publicar obras que não analisem as mazelas da nação sob uma ótica bastante esquerdista; na verdade, você nem mesmo é visto por seus pares como alguém que produz literatura. Pior que isso, não é raro que se desencoraje quem escreve ficção que apresente personagens que defendam valores como família, amizade, cristianismo, liberalismo clássico e conservadorismo. A própria pessoa que vos escreve, e começou a escrever ficção aos 13 anos, ouviu da professora de português da oitava série que era “perda de tempo escrever personagens que pertencem a uma elite deslumbrada e exploradora e incapazes de conhecer qualquer problema de verdade”. Obviamente a fala castradora da professora foi solenemente ignorada por sua então aluna, que segue escrevendo.

É, contudo, na literatura estrangeira, que se vê o maior problema, uma vez que tem maior alcance, sobretudo entre os jovens, bem mais influenciáveis pelos ideais expostos por seus escritores prediletos. Acompanhando vários autores cuja obra aprecio, não foi uma surpresa vê-los todos apoiando a marcha das mocréias. Sim, aquela pacífica marcha em que Madonna disse ter pensado muito sobre explodir a Casa Branca. Sim, a marcha em que uma das patrocinadoras defende a implementação da sharia, que impõe pena de morte a gays, por exemplo, na América. Sim, a pacífica marcha em que defenderam Hillary Clinton, a mulher que perseguiu as vítimas do marido, insinuando que elas eram vadias e culpadas por terem sido violentadas por Bill Clinton, aquele ser admirável que vilipendiou a Casa Branca e ficou se mordendo e lambendo os lábios enquanto Ivanka Trump passava ontem na posse do pai.

Para a mundialmente best-seller escritora britânica Jojo Moyes (”A última carta do meu amor”; “Um Mais Um”; Como eu era antes de você”), por exemplo, era absolutamente pacífico o protesto em que a atriz Ashley Judd expulsou o ridículo Michael Moore do palco porque ele é homem e estaria "roubando o protagonismo" das mulheres e Madonna vocifera "elogios" a todos que discordam dela, bem como muitas feministas colaram absorventes com frases imbecis como "Blood proud" em paredes públicas. Já a também mundialmente best-seller autora americana Emily Giffin (”O Noivo da Minha Melhor Amiga”; “Presentes da Vida”) acha lindo o ativismo político de uma professora da filha mais nova dela, que levou a menina de nove anos para o protesto em Atlanta. JK Rowlling (”Harry Potter”), uma das mais influentes autoras das últimas duas décadas para o público juvenil vive a dar chiliques nas redes sociais a respeito de política, seja por causa do Brexit ou da eleição de Trump; assim como o aclamado autor de terror e suspense Stephen King (”O Iluminado”; “A Coisa”).

E é óbvio que esses autores majoritariamente refletirão essas ideias em suas obras, que alcançarão milhões de pessoas e influenciarão a leitura de mundo dessas pessoas, o que, obviamente, não é errado da parte deles. A ficção somente é convincente para o leitor quando o próprio autor está convencido daquilo que narra, seja quanto à maneira como interagem as personagens, seja pelo tipo de personagem a quem se atribui cada visão de mundo. Emily Giffin, por exemplo, em “Primeiro e Único", traz personagens que repetem toda a palhaçada desarmamentista defendida pelo partido Democrata Americano e ainda estereotipa texanos como majoritariamente violentos, machistas, ignorantes e loucos por futebol e armas - sempre usando tom pejorativo ao atribuir tais características a alguns personagens -, bem como frisa como republicano o pai que se separou da segunda esposa com uma filha pequena para retornar à primeira esposa.

Surpreendentemente, por outro lado, Jojo Moyes cria personagens e enredos universais que em nada indicam a posição política dela. Pelo contrário, visto que “Um Mais Um” é uma defesa explícita da meritocracia e narra fatos que confirmam ideias que o conservador Theodore Dalrymple apresenta em “A Vida na Sarjeta”. Em "Nada Mais a Perder", a autora traz uma protagonista que tornou-se cética à política imigratória europeia após descobrir que um dos adolescentes para quem tinha conseguido asilo na Inglaterra cometera um homicídio e tinha-lhe contado mentiras para convencê-la da situação dele de refugiado.

Ficção é a base da imaginação de um povo. Ainda que haja autores esquerdistas como Jojo Moyes, a maioria é como Emily Giffin ou ainda mais veemente na disseminação de suas ideias. Mais uma vez, não é errado que eles usem seus livros para venderem suas ideias; errado é que liberais e conservadores não façam o mesmo, que não fiquem apenas nas teorias e não se empenhem em conquistar um lugar ao sol na escrita ficcional. A maneira como a esquerda sabe utilizar a ficção como meio sutil de disseminação de suas ideias deveria ficar como alerta para liberais e conservadores: precisamos de mais escritores de ficção a disseminar nossas ideias e assim equilibrar o jogo no campo cultural. Pela ficção, absorve-se valores com muito mais rapidez e facilidade que pela teoria e, ao menos até aqui, o que se convenciona chamar de direita falhado miseravelmente nisso. Raríssima exceção feita a Julian Fellowes, membro da câmara dos lordes britânica pelo partido conservador, criador do sensacional Downton Abbey e escritor do não menos incrível "Belgravia".

Não basta ficarmos com as teorias apenas. A cultura importa e muito e a ficção é grande parte disso.

02/01/2017 às 09:12 - Atualizado em 02/01/2017 às 09:22

Resenha: A Nova Síndrome de Vichy

Em 29/12 enfim foi exibida a entrevista que o psiquiatra e ensaísta britânico Anthony Daniels, que atende pelo pseudônimo de Theodore Dalrymple em seus artigos e livros, concedeu ao programa Roda Viva. Infelizmente, como muito bem relatou Guilherme Macalossi na edição de 30/12 de seu programa de rádio, o Confronto, a entrevista decepcionou os fãs brasileiros do escritor inglês, visto que boa parte do time de entrevistadores estava mais preocupada em polemizar sobre feminismo e delações premiadas do que indagá-lo a respeito das teses das obras dele, além de ao menos uma jornalista ter admitido sequer conhecia a obra do autor.

Eis um momento mais que adequado para conhecer um pouco do trabalho de Dalrymple. E, dessa vez, o trabalho a ser destacado do autor é “A Nova Síndrome de Vichy: Porque intelectuais europeus se rendem ao barbarismo”, lançado em meados de 2016 pela editora É Realizações. Originalmente publicado em 2010, o livro permanece atualíssimo na maneira como aborda a decadência que assola o continente europeu, hoje profundamente mais abalado que há seis anos. Nas 180 páginas, Dalrymple trata de como a Europa já não se destaca no mundo seja por crescimento econômico e pesquisa científica, seja por influência e poder e de como, apesar disso, Europa parece incapaz de reagir por causa das ações da classe política da União Europeia, que teme perder o poder e as regalias que adquiriram ao longo dos anos.

“Síndrome de Vichy” foi a expressão cunhada pelo historiador francês Henry Rousso, referindo-se ao trauma nacional francês pós-Segunda Guerra Mundial por ter colaborado com os nazistas em certo momento do conflito e Dalrymple estabelece um paralelo desse sentimento com o forte mal-estar que europeus ainda sentem por terem vivido duas grandes guerras, o qual teria minado a auto-confiança da população. Isso ainda teria feito com que esta se apegue à segurança econômica, à melhora do padrão de vida e à redução da jornada de trabalho como sendo o estado natural das coisas.


“A União Europeia hoje funciona como um gigantesco fundo de pensão para políticos defuntos, os quais não conseguem ser eleitos em seus próprios países […] É um modo de os políticos permanecerem importantes e poderosos no centro de uma rede clientelista depois de terem sido derrotados ou de perder a disposição para passar pelos rigores do processo eleitoral”


Para Dalrymple, a União Europeia foi criada tanto para aplacar esse sentimento ruim demonstrando a intenção de as nações europeias não mais guerrearem entre si, como para tentar reestabelecer a glória associada à história do continente anterior às guerras mundias e manter o poder de políticos que, a depender de votos, já não teriam mais suas carreiras. Mais especificamente, destaca-se a abordagem do autor a respeito de Inglaterra, França e Alemanha. Enquanto a Alemanha, derrotada tanto na primeira como na segunda guerra empenha-se fervorosamente em deixar de ser alemã por temer um renascimento do nazismo, a França esforça-se por voltar a ter glória e ser uma grande potência e a Inglaterra gostaria de poder anular seu passado colonialista.

Já no primeiro capítulo do livro, Dalrymple ressalta que entre os sentimentos que fortalecem a percepção da decadência europeia estão a ansiedade e a fraqueza. A ansiedade deve-se muito à ascensão industrial da China e da Índia, cujas produções são mais competitivas no mercado mundial devido à mão-de-obra barata e alta tecnologia, não aparentando a Europa ser capaz de promover os grandes avanços tecnológicos necessários para superar tais países. Além disso a Europa é estrategicamente vulnerável, uma vez que depende de fontes estrangeiras de energia, sobretudo de países politicamente instáveis. Já a fraqueza refere-se à maneira apaziguadora como a Europa tem reagido a todo tipo de ameaça que tem se manifestado, bem como à falta de preparo e de capacidade militar dos países do continente. 

O ponto mais contrverso da análise talvez seja a maneira branda como o autor trata os movimentos imigratórios com destino à Europa e as consequências previstas. Embora Dalrymple saliente que as baixas taxas de natalidade dos europeus nativos figura entre os motivos do declínio europeu e do insustentável estado de bem-estar social, ele não considera tão preocupante o fato de a população muçulmana da Europa ser mais jovem e mais fértil que o restante da população. Para o psiquiatra, a Europa não só encontrará meios de limitar a imigração massiva proveniente de países islâmicos como também a população muçulmana na Europa tende a se estabilizar em números mais elevados que os atuais, porém ainda assim minoritários. Mais que isso, Dalrymple acredita existir uma tendência de que os imigrantes e seus descendentes tornem-se mais ocidentalizados a cada geração, embora reconheça que mesmo um reduzido número de fanáticos seja extremamente perigoso, bem como se mostrar intimidado por estes e adotar leis que os protejam de ter sentimentos feridos. Por outro lado, é louvável que, ainda que em uma nota de rodapé, o autor exponha como o movimento feminista nada faz a respeito da opressão vivida por mulheres islâmicas mesmo no Ocidente, o que ele atribui às covardias física e moral e ao fato de que as feministas teriam de criticar o multiculturalismo pelo qual tanto militam.

Outro interessante ponto levantado está em apontar os diversos relativismos como causa da decadência. Troca de palavras como “verdadeiro” por “válido”; a sugestão de que ensinar a gramática correta é prejudicial para a autoestima de crianças que cresceram em lares menos abastados e ainda colocaria essa; o multiculturalismo; o politicamente correto. Dalrymple menciona também o “individualismo sem individualidade”, que seria o fato de muitas pessoas não estarem dispostas a tolerar qualquer restrição proveniente de autoridades, mas que se curva diante os gostos da maioria e de seus pares sendo ao mesmo tempo intolerante a quaisqer divergências que outros manifestem quanto a suas opiniões/modo de vida. Ademais, para o médico, em uma sociedade extremamente secularizada como a europeia, as pessoas acabam buscando formas “pagãs” de transcendência, como teorias Ecomalthusianas, nacionalismo e mesmo o antinacionalismo do projeto europeu de formação de um estado supranacional. Por fim, Dalrymple afirma que o derrotismo visto nas nações europeias acaba por provocar um misto de indiferença e ódio pelo passado, não tendo mais nenhum conceito do que seja a glória e mesmo ridicularizando manifestações desta.


“Uma historiografia da miséria tornou-se a marca registrada do homem sensível e bem informado, cujo lema é esquivar-se de qualquer otimismo condescendente para com o passado”


Assim sendo e considerando a fluidez da escrita de Dalrymple (mantida na tradução para o português), “A Nova Síndrome de Vichy” é uma obra excelente e rápida para os que desejam entender a decadência europeia sob vários aspectos distintos, ainda que, provavelmente, venham a discordar de um ou outro ponto da análise.

18/12/2016 às 10:33 - Atualizado em 18/12/2016 às 10:38

Ronaldo Caiado conta sua trajetória e debate atual momento do país em evento em Niterói

Com palestras de personalidades como Guilherme Fiuza, Marcelo Madureira, Marcos Troyjo e Merval Pereira em seu histórico, o Grupo Papo Reto contou com a presença de Ronaldo Caiado no evento realizado em 28 de novembro, em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Nesse dia, o senador goiano dedicou-se tanto a falar de sua trajetória como a analisar o atual momento político do país. A começar pelas eleições presidenciais de 1989, na qual Caiado foi um dos candidatos, iniciando sua carreira política de maneira “inversa”, e, já àquela época, não só se mostrava um liberal sem medo da patrulha esquerdista como também expunha a relação do PT com propinas (o que ele nomeou como “sindicalismo criminoso”). A esse respeito, o senador ainda discorreu sobre como nos 80 predominava a pregação de tendências estatizantes, as quais tinham como uma de suas estratégias distorcer a luta liberal e contrária às invasões criminosas promovidas pelo MST como sendo uma luta saudosista da ditadura e outros rótulos que os liberais e conservadores de hoje tão bem conhecem. Um outro ponto interessante levantado por Caiado é que, diferentemente do impeachment de Dilma Rousseff, que se iniciou verdadeiramente nas ruas, o impeachment de Fernando Collor, ocorrido em 1992, teria fortalecido a esquerda, uma vez que, além de confirmar a narrativa que Lula apresentara contra Collor em 1989, o impedimento, ao menos inicialmente, foi alardeado pela militância de esquerda.
 
Sobre o Brasil do presente, Caiado falou sobre como a maioria dos atuais deputados e senadores foi cooptada pelo Partido dos Trabalhadores ao longo da última década e sobre o que acontece se Temer cair. A propósito, para Caiado, Michel Temer deveria convocar cadeia nacional para explicar a necessidade de uma reforma da previdência ao povo e de maneira didática a fim de neutralizar a histeria da militância esquerdista, que investe em uma luta “irresponsável e intransigente” com o intuito de fomentar uma narrativa de deterioração da conjuntura para ter chance de vitória em 2018. O senador ainda salientou que políticos deveriam ter preocupação com a moralidade pública, bem como critica o uso de eufemismos como “pedaladas” e “malfeitos”, constantemente repetidos pela grande mídia e mesmo por seus colegas da política.

Após quase uma hora de palestra e mais de uma hora respondendo a perguntas da platéia, Caiado atendeu ao público tanto para breves conversas como para fotos, sendo bastante simpático, bem-humorado e receptivo. Quanto à pergunta que grande parte da direita brasileira quer ver respondida, a respeito da possibilidade de Ronaldo Caiado ser novamente candidato à presidência da república em 2018, o senador declarou que ainda nutre o sonho de voltar a concorrer ao principal cargo político da república, porém que sua candidatura depende das decisões do partido e de se conseguir o apoio de outros partidos a fim de se ter tempo de televisão, caso as regras atualmente vigentes não sejam alteradas para o próximo pleito. Não faltaram menções também as suas trajetórias como médico ortopedista e produtor rural.  No vídeo a seguir, confiram alguns trechos da palestra.

O Grupo Papo Reto costuma organizar eventos mensais com personalidades relevantes no debate político nacional e local, sempre às segundas, no bairro de São Francisco, em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.  

14/11/2016 às 20:01 - Atualizado em 14/11/2016 às 20:11

¡Es libre el llanto!

“When Mexico sends its people, they’re not sending their best and their brightest…They’re sending people that have lots of problems, and they’re bringing those problems to us. They’re bringing drugs. They’re bringing crime. They’re rapists. And some, I assume, are good people.” Quando o Mexico manda seu povo, não está mandando o seu melhor e mais brilhante. eles têm mandado pessoas com muitos problemas e que estão trazendo esses problemas para nós. Estão trazendo drogas. Estão trazendo crime. E muitos, eu acredito, são boas pessoas.

Tocando com dureza em uma das temáticas mais polemizadas pela esquerda americana, a questão da imigração ilegal, já no discurso de lançamento de sua campanha pela vaga à disputa presidencial pelo Partido Republicano, o empresário Donald Trump conseguiu atrair para si o ódio de politicamente corretos de todas as matizes, bem como a mídia não perdeu tempo em distorcer a fala do então candidato. Obviamente, por toda a mídia repetiram à exaustão que Trump manifestou ódio por mexicanos e imigrantes em geral, que Trump acusou imigrantes como um todo de serem traficantes e estupradores. E, claro, omitiram todos os trechos da fala do empresário que evidenciavam a especificidade dela em relação aos ilegais.

Mais de um ano, muitas polêmicas mais, infinitas palavras distorcidas pela mídia amplamente pró-Hillary, pesquisas eis que Trump elegeu-se presidente da América. E as inúmeras celebridades que a tantos ridículos expuseram-se para ajudar Hillary Clinton a ganhar votos, conseguiram superar-se. Cher chorou em público; Zara Larsson perguntou se “velhos não poderiam morrer de uma vez”; Lady Gaga foi gritar com um megafone diante o Trump Hotel em Nova York, clamando por que os delegados traiam os votos de seus estados e elejam Hillary; Katy Perry convocou uma revolução por twitter e Miley Cyrus, aos prantos, resignou-se por Snapchat. Eis algumas das reações de algumas das pessoas mais famosas do planeta. Há, contudo, um outro grupo de celebridades fazendo um escarcéu tão grande (e hipócrita) quanto, mas que tem passado desapercebido nas mídias brasileira e americana: as celebridades hispano-americanas.

Antes, contudo, é relevante lembrar como se comportaram essas celebridades desde meados desde 2015. A histeria de artistas do mundo latino naturalmente começou tão logo que Trump iniciou sua campanha. A Univision, uma emissora de programação hispânica na América, rompeu o contrato que tinha com o empresário para a transmissão do Miss USA para o público hispânico; Bill de Blasio, prefeito de New York de ascendência latina, anunciou que revisaria todos os contratos que a prefeitura eventualmente tivesse com as empresas de Trump porque este seria “racista com latinos”.

“Encuentro los comentarios del Sr. Trump injustos e hirientes. Como colombiana y como Miss Universo, quiero mostrar mi apoyo y avalar los sentimientos de la comunidad latina” – Paulina Vega, atual Miss Universo.

“Sr. Trump, como latino no puedo trabajar en ningún evento asociado con su nombre… Las declaraciones que hizo en contra de mexicanos e inmigrantes demuestran que usted es un ignorante. Es inaceptable que busque la candidatura presidencial creando una retórica de odio y discriminación, llamando a los mexicanos traficantes y violadores. Es una lástima que una institución tan importante como Miss USA esté en manos de un payaso” – Cristian de la Fuente, ator chileno (que trabalha para a Televisa, México).

“En principio me espanté y entré en shock porque llevo meses preparándome para hacer un buen papel, pero aplaudo la decisión. Asistir era una meta importante, pero es mejor no participar en un certamen que va en contra de mis valores y los de los mexicanos. La corona más grande que puede llevarse México es la dignidad” – Wendy Esparza, atual Nuestra Belleza México (“Miss” México).

“Como mexicana me siento muy ofendida e indignada igual que todos, como Miss Universo me parece que Donald Trump le está haciendo mucho daño a la organización; #MissUniverso es un concurso con gran historia en el mundo, que se ha caracterizado por convocar a los países a participar en un evento donde predomina la amistad y la unión, echando abajo barreras culturales. Es una pena que por sus comentarios racistas se pierda lo que el concurso ha promovido y representado durante tantos años que es un ambiente de armonía y paz entre naciones; por lo cual, y de acuerdo al comunicado de @Televisa, no participaremos en MU”. – Lupita Jones, ex Miss Universo.

Manchete de ontem do site TV y Novelas, omitindo que os imigrantes que Trump deseja deportar são ilegais que cometeram crimes em território americano


Naturalmente, os comentários que sucederam à vitória de Trump não foram muito distintos. A manchete de ontem do site TV y Novelas, tal como manchetes de veículos de todo o mundo, omitiu que os imigrantes que Trump deseja deportar são ilegais que cometeram crimes em território americano. Já atriz mexicana Ariadne Díaz, que já iniciou as filmagens da novela “La Doble Vida de Estela Carrillo”, que abordará a temática da imigração ilegal, em entrevista a revista TV y Novelas, declarou:

“¿Cómo es posible después de ver la forma en que este hombre habla de nosotras las mujeres? Es increíble como este tipo que es evidentemente misógino, una mujer puede ir a una casilla y votar por este señor que agrede directamente a mi género, que ataca a personas de distintos colores y diferencias sexuales. Ayer que veía lo que estaba sucediendo decía 'Dios mío por favor no', porque yo sé como está la situación económica acá. Lo único que me resta decir es que Diosito nos ayude y que hagamos lo mejor sabemos hacer que es trabajar, que  este es un país que si por algo no para es por gente chambeadores […] Me dormí a las dos de la mañana viendo lo que estaba pasando y dije parece que nos hubiéramos puesto de acuerdo, nos perdemos con esta realidad que ni esperábamos ni nos favorece porque esta historia toca estas fibras”


Decerto a novela por estrear da Televisa será um conto a edulcorar a vida como imigrantes ilegais, a mostrá-los como verdadeiros heróis/vítimas a desafiar as “tirânicas” leis vigentes e a tratar policiais e a justiça americana como carrascos, desumanos, tal como fez a novela brasileira América nos idos de 2015. O ator Jaime Camil compartilhou no twitter nota do comentarista da CNN que disse que a vitória de Trump foi algo arquitetado por brancos "racistas"; já Ana Brenda Contreras, atriz mexicana, foi virulenta em seu perfil no Twitter,  acusando os americanos de não conhecerem a própria história. As atrizes Ludwika Paleta, Chantal Andere e Barbara Mori,  famosas no Brasil pelas novelas Carrossel, A Usurpadora e Rubi, respectivamente, também expuseram sua opinião durante a apuração.

"La cosa en México no va a estar fácil, inclusive para los privilegiados. Esperemos que sea un llamado para todos y que todos hagamos equipo" – Alfonso Herrera, ator.

"¿Cuántas mujeres habrán votado por Trump? ¿Cuántos latinos? Esto no puede estar sucediendo" – Diego Luna, ator.

 

 

 


A população hispano-americana que reside em seus países natais, a propósito, parece compartilhar dos mesmos sentimentos, é possível notar por comentários nas redes sociais, sobretudo nas páginas de artistas e portais latinos de celebridades. Os comentários, sempre em tom apavorado e catastrófico, não raramente comparam Trump a Hitler e/ou manifestam que a própria existência do estado nacional mexicano encontra-se ameaçada com Trump ocupando a Casa Branca. Mais que isso, alguns até mesmo acusam o povo americano de ter uma personalidade fascista por ter escolhido Trump em vez de Clinton (cuja fundação aceita dinheiro de ditaduras islâmicas que apedrejam mulheres por adultério e arremessam gays do alto de prédios), lembrando o famoso meme “Tudo o que eu não gosto é fascista”. E é nesses comentários que algo peculiar, porém de nenhuma maneira surpreendente, transparece com veemência: o fervor antiamericano.


“Pobre de México, ¡tan lejos de Dios, tan cerca de Estados Unidos!” Eis um famoso ditado atribuído aos mexicanos que faz referência ao antiamericanismo de longa data predominante entre os mexicanos. Entre 1946 e 1948 o México travou uma guerra com a América na qual perdeu para este cerca de metade do que considerava território mexicano, o que incluía o atual estado americano do Texas, que anos antes havia declarado independência em relação ao México. À época presidente da América pelo Partido Democrata, James K. Polk elegera-se presidente prometendo anexar a então República do Texas ao território americano e, em 1944, propôs ao governo mexicano comprar a área entre os rios Nueces e Grande a fim de expandir os domínios americanos.  Com a oferta rejeitada pelo México, o governo americano moveu tropas para Cohauila, no México, e as tropas deste contra-atacaram. Assim começou a guerra que levou o México a perder a antiga porção norte de seu território. Esse episódio representa um ponto traumático no imaginário mexicano a respeito da América, sendo ensinado às crianças desde os primeiros anos de estudos de História como uma mostra do imperialismo americano, como uma mostra de como a América julga-se superior à América Latina.

A doutrinação ao antiamericanismo desde a mais tenra idade acaba por fomentar algo como um ressentimento em relação à América e aos americanos, um sentimento que todas as misérias mexicanas devem-se, de alguma forma, às ações americanas no mundo e ao conflito entre os dois países em meados do século XIX. A eleição de Trump como presidente americano apenas fez muito desse pensamento aflorar, ser publicamente exposto, como indicam comentários como o que sugeriu que americanos são fascistas por natureza.

Por outro lado, isso torna o comportamento das celebridades latinas supracitadas (sobretudo das mexicanas) ainda mais curioso. Embora frequentemente apontem a América como o demônio em forma de país e vocalizem isso com fervor ainda maior quando as decisões políticas do país contrariam suas opiniões pessoais, não são raras as celebridades mexicanas que, após firmadas na carreira, mudam-se para Miami ou Los Angeles. Por que se mudam para um país que consideram detestá-los tão fortemente? Mais que isso, muitas são as celebridades sem nenhuma raiz americana que se mudam para a América nos últimos meses de gestação a fim de que seus rebentos lá nasçam e assim tenham assegurada a cidadania americana. Sim, a cidadania da nação demoníaca cujos valores eles rejeitam! Sandra Echeverría, atriz, mudou-se para a América poucas semanas antes do nascimento de seu primogênito. Galilea Montijo, apresentadora e atriz, deu a luz seu filho em Miami. Jaime Camil, ator mexicano (que é cidadão brasileiro, a propósito) e sua esposa, a argentina Heidi Balvanera, também tiveram seu casal de filhos na América, bem como o comediante Eugenio Derbez e a atriz/apresentadora Alessandra Rosaldo lá tiveram a filha. Mais recentemente, após ter tido duas filhas no México, a atriz Jacqueline Bracamontes e o corredor Martín Fuentes escolheram a América para o nascimento da terceira filha.  Por que deixar seu país Natal para ter filhos em um país que supostamente odeia latinos? Porque sabem, embora nunca vão dizer publicamente, que a condição média de vida na América é superior a do México; porque sabem que um passaporte americano pode facilitar muita coisa; porque o estado americano é mais eficiente que o mexicano. Ainda assim, ao chegar à América, defendem o mesmo tipo de político que é responsável pela ruína latino-americana.
 


Assim sendo, o comportamento das celebridades latinas que vivem na América consegue ser ainda mais asqueroso e hipócrita que o do segmento hollywoodiano. Não nasceram na América, ninguém os obrigou a ir para lá e, como pessoas públicas, acabam por disseminar suas impressões distorcidas para um número enorme de pessoas. Acusar o povo americano e Donald Trump de racistas, fascistas, misóginos e homofóbicos no twitter, facebook ou alguma entrevista enquanto desfruta das boas coisas de se viver na América é muito fácil; retornar para o México, que é bom, nenhuma dessas celebridades quer. Por isso, às celebridades latinas em estado histérico diante os recentes eventos, só há um consolo: ¡Es libre el llanto!”