THAÍS GUALBERTO
Thaís Gualberto é formada em Economia pelo IBMEC-RJ e é natural de Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro, onde ainda vive. Além de colaborar com o portal Sul Connection, publica crônicas e resenhas de obras de ficção em seu outro blog.

02/01/2017 às 09:12 - Atualizado em 02/01/2017 às 09:22

Resenha: A Nova Síndrome de Vichy

Em 29/12 enfim foi exibida a entrevista que o psiquiatra e ensaísta britânico Anthony Daniels, que atende pelo pseudônimo de Theodore Dalrymple em seus artigos e livros, concedeu ao programa Roda Viva. Infelizmente, como muito bem relatou Guilherme Macalossi na edição de 30/12 de seu programa de rádio, o Confronto, a entrevista decepcionou os fãs brasileiros do escritor inglês, visto que boa parte do time de entrevistadores estava mais preocupada em polemizar sobre feminismo e delações premiadas do que indagá-lo a respeito das teses das obras dele, além de ao menos uma jornalista ter admitido sequer conhecia a obra do autor.

Eis um momento mais que adequado para conhecer um pouco do trabalho de Dalrymple. E, dessa vez, o trabalho a ser destacado do autor é “A Nova Síndrome de Vichy: Porque intelectuais europeus se rendem ao barbarismo”, lançado em meados de 2016 pela editora É Realizações. Originalmente publicado em 2010, o livro permanece atualíssimo na maneira como aborda a decadência que assola o continente europeu, hoje profundamente mais abalado que há seis anos. Nas 180 páginas, Dalrymple trata de como a Europa já não se destaca no mundo seja por crescimento econômico e pesquisa científica, seja por influência e poder e de como, apesar disso, Europa parece incapaz de reagir por causa das ações da classe política da União Europeia, que teme perder o poder e as regalias que adquiriram ao longo dos anos.

“Síndrome de Vichy” foi a expressão cunhada pelo historiador francês Henry Rousso, referindo-se ao trauma nacional francês pós-Segunda Guerra Mundial por ter colaborado com os nazistas em certo momento do conflito e Dalrymple estabelece um paralelo desse sentimento com o forte mal-estar que europeus ainda sentem por terem vivido duas grandes guerras, o qual teria minado a auto-confiança da população. Isso ainda teria feito com que esta se apegue à segurança econômica, à melhora do padrão de vida e à redução da jornada de trabalho como sendo o estado natural das coisas.


“A União Europeia hoje funciona como um gigantesco fundo de pensão para políticos defuntos, os quais não conseguem ser eleitos em seus próprios países […] É um modo de os políticos permanecerem importantes e poderosos no centro de uma rede clientelista depois de terem sido derrotados ou de perder a disposição para passar pelos rigores do processo eleitoral”


Para Dalrymple, a União Europeia foi criada tanto para aplacar esse sentimento ruim demonstrando a intenção de as nações europeias não mais guerrearem entre si, como para tentar reestabelecer a glória associada à história do continente anterior às guerras mundias e manter o poder de políticos que, a depender de votos, já não teriam mais suas carreiras. Mais especificamente, destaca-se a abordagem do autor a respeito de Inglaterra, França e Alemanha. Enquanto a Alemanha, derrotada tanto na primeira como na segunda guerra empenha-se fervorosamente em deixar de ser alemã por temer um renascimento do nazismo, a França esforça-se por voltar a ter glória e ser uma grande potência e a Inglaterra gostaria de poder anular seu passado colonialista.

Já no primeiro capítulo do livro, Dalrymple ressalta que entre os sentimentos que fortalecem a percepção da decadência europeia estão a ansiedade e a fraqueza. A ansiedade deve-se muito à ascensão industrial da China e da Índia, cujas produções são mais competitivas no mercado mundial devido à mão-de-obra barata e alta tecnologia, não aparentando a Europa ser capaz de promover os grandes avanços tecnológicos necessários para superar tais países. Além disso a Europa é estrategicamente vulnerável, uma vez que depende de fontes estrangeiras de energia, sobretudo de países politicamente instáveis. Já a fraqueza refere-se à maneira apaziguadora como a Europa tem reagido a todo tipo de ameaça que tem se manifestado, bem como à falta de preparo e de capacidade militar dos países do continente. 

O ponto mais contrverso da análise talvez seja a maneira branda como o autor trata os movimentos imigratórios com destino à Europa e as consequências previstas. Embora Dalrymple saliente que as baixas taxas de natalidade dos europeus nativos figura entre os motivos do declínio europeu e do insustentável estado de bem-estar social, ele não considera tão preocupante o fato de a população muçulmana da Europa ser mais jovem e mais fértil que o restante da população. Para o psiquiatra, a Europa não só encontrará meios de limitar a imigração massiva proveniente de países islâmicos como também a população muçulmana na Europa tende a se estabilizar em números mais elevados que os atuais, porém ainda assim minoritários. Mais que isso, Dalrymple acredita existir uma tendência de que os imigrantes e seus descendentes tornem-se mais ocidentalizados a cada geração, embora reconheça que mesmo um reduzido número de fanáticos seja extremamente perigoso, bem como se mostrar intimidado por estes e adotar leis que os protejam de ter sentimentos feridos. Por outro lado, é louvável que, ainda que em uma nota de rodapé, o autor exponha como o movimento feminista nada faz a respeito da opressão vivida por mulheres islâmicas mesmo no Ocidente, o que ele atribui às covardias física e moral e ao fato de que as feministas teriam de criticar o multiculturalismo pelo qual tanto militam.

Outro interessante ponto levantado está em apontar os diversos relativismos como causa da decadência. Troca de palavras como “verdadeiro” por “válido”; a sugestão de que ensinar a gramática correta é prejudicial para a autoestima de crianças que cresceram em lares menos abastados e ainda colocaria essa; o multiculturalismo; o politicamente correto. Dalrymple menciona também o “individualismo sem individualidade”, que seria o fato de muitas pessoas não estarem dispostas a tolerar qualquer restrição proveniente de autoridades, mas que se curva diante os gostos da maioria e de seus pares sendo ao mesmo tempo intolerante a quaisqer divergências que outros manifestem quanto a suas opiniões/modo de vida. Ademais, para o médico, em uma sociedade extremamente secularizada como a europeia, as pessoas acabam buscando formas “pagãs” de transcendência, como teorias Ecomalthusianas, nacionalismo e mesmo o antinacionalismo do projeto europeu de formação de um estado supranacional. Por fim, Dalrymple afirma que o derrotismo visto nas nações europeias acaba por provocar um misto de indiferença e ódio pelo passado, não tendo mais nenhum conceito do que seja a glória e mesmo ridicularizando manifestações desta.


“Uma historiografia da miséria tornou-se a marca registrada do homem sensível e bem informado, cujo lema é esquivar-se de qualquer otimismo condescendente para com o passado”


Assim sendo e considerando a fluidez da escrita de Dalrymple (mantida na tradução para o português), “A Nova Síndrome de Vichy” é uma obra excelente e rápida para os que desejam entender a decadência europeia sob vários aspectos distintos, ainda que, provavelmente, venham a discordar de um ou outro ponto da análise.

18/12/2016 às 10:33 - Atualizado em 18/12/2016 às 10:38

Ronaldo Caiado conta sua trajetória e debate atual momento do país em evento em Niterói

Com palestras de personalidades como Guilherme Fiuza, Marcelo Madureira, Marcos Troyjo e Merval Pereira em seu histórico, o Grupo Papo Reto contou com a presença de Ronaldo Caiado no evento realizado em 28 de novembro, em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Nesse dia, o senador goiano dedicou-se tanto a falar de sua trajetória como a analisar o atual momento político do país. A começar pelas eleições presidenciais de 1989, na qual Caiado foi um dos candidatos, iniciando sua carreira política de maneira “inversa”, e, já àquela época, não só se mostrava um liberal sem medo da patrulha esquerdista como também expunha a relação do PT com propinas (o que ele nomeou como “sindicalismo criminoso”). A esse respeito, o senador ainda discorreu sobre como nos 80 predominava a pregação de tendências estatizantes, as quais tinham como uma de suas estratégias distorcer a luta liberal e contrária às invasões criminosas promovidas pelo MST como sendo uma luta saudosista da ditadura e outros rótulos que os liberais e conservadores de hoje tão bem conhecem. Um outro ponto interessante levantado por Caiado é que, diferentemente do impeachment de Dilma Rousseff, que se iniciou verdadeiramente nas ruas, o impeachment de Fernando Collor, ocorrido em 1992, teria fortalecido a esquerda, uma vez que, além de confirmar a narrativa que Lula apresentara contra Collor em 1989, o impedimento, ao menos inicialmente, foi alardeado pela militância de esquerda.
 
Sobre o Brasil do presente, Caiado falou sobre como a maioria dos atuais deputados e senadores foi cooptada pelo Partido dos Trabalhadores ao longo da última década e sobre o que acontece se Temer cair. A propósito, para Caiado, Michel Temer deveria convocar cadeia nacional para explicar a necessidade de uma reforma da previdência ao povo e de maneira didática a fim de neutralizar a histeria da militância esquerdista, que investe em uma luta “irresponsável e intransigente” com o intuito de fomentar uma narrativa de deterioração da conjuntura para ter chance de vitória em 2018. O senador ainda salientou que políticos deveriam ter preocupação com a moralidade pública, bem como critica o uso de eufemismos como “pedaladas” e “malfeitos”, constantemente repetidos pela grande mídia e mesmo por seus colegas da política.

Após quase uma hora de palestra e mais de uma hora respondendo a perguntas da platéia, Caiado atendeu ao público tanto para breves conversas como para fotos, sendo bastante simpático, bem-humorado e receptivo. Quanto à pergunta que grande parte da direita brasileira quer ver respondida, a respeito da possibilidade de Ronaldo Caiado ser novamente candidato à presidência da república em 2018, o senador declarou que ainda nutre o sonho de voltar a concorrer ao principal cargo político da república, porém que sua candidatura depende das decisões do partido e de se conseguir o apoio de outros partidos a fim de se ter tempo de televisão, caso as regras atualmente vigentes não sejam alteradas para o próximo pleito. Não faltaram menções também as suas trajetórias como médico ortopedista e produtor rural.  No vídeo a seguir, confiram alguns trechos da palestra.

O Grupo Papo Reto costuma organizar eventos mensais com personalidades relevantes no debate político nacional e local, sempre às segundas, no bairro de São Francisco, em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.  

14/11/2016 às 20:01 - Atualizado em 14/11/2016 às 20:11

¡Es libre el llanto!

“When Mexico sends its people, they’re not sending their best and their brightest…They’re sending people that have lots of problems, and they’re bringing those problems to us. They’re bringing drugs. They’re bringing crime. They’re rapists. And some, I assume, are good people.” Quando o Mexico manda seu povo, não está mandando o seu melhor e mais brilhante. eles têm mandado pessoas com muitos problemas e que estão trazendo esses problemas para nós. Estão trazendo drogas. Estão trazendo crime. E muitos, eu acredito, são boas pessoas.

Tocando com dureza em uma das temáticas mais polemizadas pela esquerda americana, a questão da imigração ilegal, já no discurso de lançamento de sua campanha pela vaga à disputa presidencial pelo Partido Republicano, o empresário Donald Trump conseguiu atrair para si o ódio de politicamente corretos de todas as matizes, bem como a mídia não perdeu tempo em distorcer a fala do então candidato. Obviamente, por toda a mídia repetiram à exaustão que Trump manifestou ódio por mexicanos e imigrantes em geral, que Trump acusou imigrantes como um todo de serem traficantes e estupradores. E, claro, omitiram todos os trechos da fala do empresário que evidenciavam a especificidade dela em relação aos ilegais.

Mais de um ano, muitas polêmicas mais, infinitas palavras distorcidas pela mídia amplamente pró-Hillary, pesquisas eis que Trump elegeu-se presidente da América. E as inúmeras celebridades que a tantos ridículos expuseram-se para ajudar Hillary Clinton a ganhar votos, conseguiram superar-se. Cher chorou em público; Zara Larsson perguntou se “velhos não poderiam morrer de uma vez”; Lady Gaga foi gritar com um megafone diante o Trump Hotel em Nova York, clamando por que os delegados traiam os votos de seus estados e elejam Hillary; Katy Perry convocou uma revolução por twitter e Miley Cyrus, aos prantos, resignou-se por Snapchat. Eis algumas das reações de algumas das pessoas mais famosas do planeta. Há, contudo, um outro grupo de celebridades fazendo um escarcéu tão grande (e hipócrita) quanto, mas que tem passado desapercebido nas mídias brasileira e americana: as celebridades hispano-americanas.

Antes, contudo, é relevante lembrar como se comportaram essas celebridades desde meados desde 2015. A histeria de artistas do mundo latino naturalmente começou tão logo que Trump iniciou sua campanha. A Univision, uma emissora de programação hispânica na América, rompeu o contrato que tinha com o empresário para a transmissão do Miss USA para o público hispânico; Bill de Blasio, prefeito de New York de ascendência latina, anunciou que revisaria todos os contratos que a prefeitura eventualmente tivesse com as empresas de Trump porque este seria “racista com latinos”.

“Encuentro los comentarios del Sr. Trump injustos e hirientes. Como colombiana y como Miss Universo, quiero mostrar mi apoyo y avalar los sentimientos de la comunidad latina” – Paulina Vega, atual Miss Universo.

“Sr. Trump, como latino no puedo trabajar en ningún evento asociado con su nombre… Las declaraciones que hizo en contra de mexicanos e inmigrantes demuestran que usted es un ignorante. Es inaceptable que busque la candidatura presidencial creando una retórica de odio y discriminación, llamando a los mexicanos traficantes y violadores. Es una lástima que una institución tan importante como Miss USA esté en manos de un payaso” – Cristian de la Fuente, ator chileno (que trabalha para a Televisa, México).

“En principio me espanté y entré en shock porque llevo meses preparándome para hacer un buen papel, pero aplaudo la decisión. Asistir era una meta importante, pero es mejor no participar en un certamen que va en contra de mis valores y los de los mexicanos. La corona más grande que puede llevarse México es la dignidad” – Wendy Esparza, atual Nuestra Belleza México (“Miss” México).

“Como mexicana me siento muy ofendida e indignada igual que todos, como Miss Universo me parece que Donald Trump le está haciendo mucho daño a la organización; #MissUniverso es un concurso con gran historia en el mundo, que se ha caracterizado por convocar a los países a participar en un evento donde predomina la amistad y la unión, echando abajo barreras culturales. Es una pena que por sus comentarios racistas se pierda lo que el concurso ha promovido y representado durante tantos años que es un ambiente de armonía y paz entre naciones; por lo cual, y de acuerdo al comunicado de @Televisa, no participaremos en MU”. – Lupita Jones, ex Miss Universo.

Manchete de ontem do site TV y Novelas, omitindo que os imigrantes que Trump deseja deportar são ilegais que cometeram crimes em território americano


Naturalmente, os comentários que sucederam à vitória de Trump não foram muito distintos. A manchete de ontem do site TV y Novelas, tal como manchetes de veículos de todo o mundo, omitiu que os imigrantes que Trump deseja deportar são ilegais que cometeram crimes em território americano. Já atriz mexicana Ariadne Díaz, que já iniciou as filmagens da novela “La Doble Vida de Estela Carrillo”, que abordará a temática da imigração ilegal, em entrevista a revista TV y Novelas, declarou:

“¿Cómo es posible después de ver la forma en que este hombre habla de nosotras las mujeres? Es increíble como este tipo que es evidentemente misógino, una mujer puede ir a una casilla y votar por este señor que agrede directamente a mi género, que ataca a personas de distintos colores y diferencias sexuales. Ayer que veía lo que estaba sucediendo decía 'Dios mío por favor no', porque yo sé como está la situación económica acá. Lo único que me resta decir es que Diosito nos ayude y que hagamos lo mejor sabemos hacer que es trabajar, que  este es un país que si por algo no para es por gente chambeadores […] Me dormí a las dos de la mañana viendo lo que estaba pasando y dije parece que nos hubiéramos puesto de acuerdo, nos perdemos con esta realidad que ni esperábamos ni nos favorece porque esta historia toca estas fibras”


Decerto a novela por estrear da Televisa será um conto a edulcorar a vida como imigrantes ilegais, a mostrá-los como verdadeiros heróis/vítimas a desafiar as “tirânicas” leis vigentes e a tratar policiais e a justiça americana como carrascos, desumanos, tal como fez a novela brasileira América nos idos de 2015. O ator Jaime Camil compartilhou no twitter nota do comentarista da CNN que disse que a vitória de Trump foi algo arquitetado por brancos "racistas"; já Ana Brenda Contreras, atriz mexicana, foi virulenta em seu perfil no Twitter,  acusando os americanos de não conhecerem a própria história. As atrizes Ludwika Paleta, Chantal Andere e Barbara Mori,  famosas no Brasil pelas novelas Carrossel, A Usurpadora e Rubi, respectivamente, também expuseram sua opinião durante a apuração.

"La cosa en México no va a estar fácil, inclusive para los privilegiados. Esperemos que sea un llamado para todos y que todos hagamos equipo" – Alfonso Herrera, ator.

"¿Cuántas mujeres habrán votado por Trump? ¿Cuántos latinos? Esto no puede estar sucediendo" – Diego Luna, ator.

 

 

 


A população hispano-americana que reside em seus países natais, a propósito, parece compartilhar dos mesmos sentimentos, é possível notar por comentários nas redes sociais, sobretudo nas páginas de artistas e portais latinos de celebridades. Os comentários, sempre em tom apavorado e catastrófico, não raramente comparam Trump a Hitler e/ou manifestam que a própria existência do estado nacional mexicano encontra-se ameaçada com Trump ocupando a Casa Branca. Mais que isso, alguns até mesmo acusam o povo americano de ter uma personalidade fascista por ter escolhido Trump em vez de Clinton (cuja fundação aceita dinheiro de ditaduras islâmicas que apedrejam mulheres por adultério e arremessam gays do alto de prédios), lembrando o famoso meme “Tudo o que eu não gosto é fascista”. E é nesses comentários que algo peculiar, porém de nenhuma maneira surpreendente, transparece com veemência: o fervor antiamericano.


“Pobre de México, ¡tan lejos de Dios, tan cerca de Estados Unidos!” Eis um famoso ditado atribuído aos mexicanos que faz referência ao antiamericanismo de longa data predominante entre os mexicanos. Entre 1946 e 1948 o México travou uma guerra com a América na qual perdeu para este cerca de metade do que considerava território mexicano, o que incluía o atual estado americano do Texas, que anos antes havia declarado independência em relação ao México. À época presidente da América pelo Partido Democrata, James K. Polk elegera-se presidente prometendo anexar a então República do Texas ao território americano e, em 1944, propôs ao governo mexicano comprar a área entre os rios Nueces e Grande a fim de expandir os domínios americanos.  Com a oferta rejeitada pelo México, o governo americano moveu tropas para Cohauila, no México, e as tropas deste contra-atacaram. Assim começou a guerra que levou o México a perder a antiga porção norte de seu território. Esse episódio representa um ponto traumático no imaginário mexicano a respeito da América, sendo ensinado às crianças desde os primeiros anos de estudos de História como uma mostra do imperialismo americano, como uma mostra de como a América julga-se superior à América Latina.

A doutrinação ao antiamericanismo desde a mais tenra idade acaba por fomentar algo como um ressentimento em relação à América e aos americanos, um sentimento que todas as misérias mexicanas devem-se, de alguma forma, às ações americanas no mundo e ao conflito entre os dois países em meados do século XIX. A eleição de Trump como presidente americano apenas fez muito desse pensamento aflorar, ser publicamente exposto, como indicam comentários como o que sugeriu que americanos são fascistas por natureza.

Por outro lado, isso torna o comportamento das celebridades latinas supracitadas (sobretudo das mexicanas) ainda mais curioso. Embora frequentemente apontem a América como o demônio em forma de país e vocalizem isso com fervor ainda maior quando as decisões políticas do país contrariam suas opiniões pessoais, não são raras as celebridades mexicanas que, após firmadas na carreira, mudam-se para Miami ou Los Angeles. Por que se mudam para um país que consideram detestá-los tão fortemente? Mais que isso, muitas são as celebridades sem nenhuma raiz americana que se mudam para a América nos últimos meses de gestação a fim de que seus rebentos lá nasçam e assim tenham assegurada a cidadania americana. Sim, a cidadania da nação demoníaca cujos valores eles rejeitam! Sandra Echeverría, atriz, mudou-se para a América poucas semanas antes do nascimento de seu primogênito. Galilea Montijo, apresentadora e atriz, deu a luz seu filho em Miami. Jaime Camil, ator mexicano (que é cidadão brasileiro, a propósito) e sua esposa, a argentina Heidi Balvanera, também tiveram seu casal de filhos na América, bem como o comediante Eugenio Derbez e a atriz/apresentadora Alessandra Rosaldo lá tiveram a filha. Mais recentemente, após ter tido duas filhas no México, a atriz Jacqueline Bracamontes e o corredor Martín Fuentes escolheram a América para o nascimento da terceira filha.  Por que deixar seu país Natal para ter filhos em um país que supostamente odeia latinos? Porque sabem, embora nunca vão dizer publicamente, que a condição média de vida na América é superior a do México; porque sabem que um passaporte americano pode facilitar muita coisa; porque o estado americano é mais eficiente que o mexicano. Ainda assim, ao chegar à América, defendem o mesmo tipo de político que é responsável pela ruína latino-americana.
 


Assim sendo, o comportamento das celebridades latinas que vivem na América consegue ser ainda mais asqueroso e hipócrita que o do segmento hollywoodiano. Não nasceram na América, ninguém os obrigou a ir para lá e, como pessoas públicas, acabam por disseminar suas impressões distorcidas para um número enorme de pessoas. Acusar o povo americano e Donald Trump de racistas, fascistas, misóginos e homofóbicos no twitter, facebook ou alguma entrevista enquanto desfruta das boas coisas de se viver na América é muito fácil; retornar para o México, que é bom, nenhuma dessas celebridades quer. Por isso, às celebridades latinas em estado histérico diante os recentes eventos, só há um consolo: ¡Es libre el llanto!”

19/10/2016 às 17:55 - Atualizado em 20/10/2016 às 13:51

Madonna, a moralíssima!

Mais uma vez a famigerada hipocrisia da esquerda americana (não que as demais não a sejam) escancara-se. A cantora Madonna, uma das muitas artistas apoiadoras do partido Democrata e entusiasta de Hillary Clinton que execrou Donald Trump por suas conversas de boteco e até fez uma piñata do empresário para o aniversário de um de seus filhos, ofereceu sexo oral em troca de votos para a candidata democrata. Isso mesmo. Sexo oral.

Isso aconteceu no show no Madison Square Garden da comediante (e também democrata) Amy Schumer, no qual Madonna fez um pequeno stand up de abertura. No último final de semana, cerca de 200 pessoas abandonaram o show de Schumer quando ela atacou o candidato republicano como sendo um "estuprador laranja" entre outros adjetivos nada meritórios.

“If you vote for Hillary Clinton, I will give you a blowjob. And I’m good. I’m not a douche and I’m not a tool. I take my time. I have a lot of eye contact. And I do swallow.” - Se vocês votarem em Hillary Clinton, eu os darei um b**uete. E eu sou boa. Eu não sou uma ducha e eu não sou uma ferr engulo.amenta. Eu levo o meu tempo necessário. Eu tenho bastante contato visual. E eu engulo.

Provavelmente isso foi uma brincadeira da cantora, que sempre apreciou os discursos erótico e pornográfico em seu trabalho. Contudo, não deixa de ser curioso (e hipócrita) que alguém tão escandalizada com as palavras de dez anos atrás de Trump e que o classifica como misógino, "pregador de discurso de estupro" e "pregador de discurso objetificante da mulher" ofereça-se ao grande público de maneira tão explícita a fim de angariar votos para sua candidata. O discurso de Madonna, que corrobora meu texto da última segunda-feira sobre a hipocrisia dos apoiadores de Hillary, soa-me, particularmente, muito mais depreciativo que o de Trump. Mas eis a esquerda feminista na característica máxima que a define: hipocrisia.

17/10/2016 às 11:40 - Atualizado em 17/10/2016 às 16:47

As edificantes canções dos apoiadores de Hillary

A hipocrisia esquerdista sem dúvidas é um dos temas favoritos desta que vos escreve. Sobretudo tratando-se especificamente da hipocrisia feminista, que eu costumo analisar na série Sororidade para quem?”. É sempre engraçado perceber que rótulos como “discurso que fomenta a cultura do estupro” ou “discurso de objetificação da mulher” parecem aplicáveis apenas a interlocutores que não comungam com a ideologia da militância histérica. Isso, aliás, ficou bastante evidente quando vieram a público os grampos da conversas do ex-presidente Lula. Em um deles, referia-se às feministas do PT como “as mulher do grelo duro”; em outro, disse que a Clara Ant (diretora do Instituto Lula) teria acordado pensando que era “um presente de Deus” que cinco homens (policiais federais) tivessem entrado na casa dela.

Diferentemente do que se imaginaria, militantes feministas não acusaram Lula de ser misógino, como fariam com tantos outros por muito menos, vide Bolsonaro processado por “apologia ao estupro” por ter dito que a colega “não merecia ser estuprada”. Pelo contrário, feministas adotaram o termo chulo como um termo que iria contra a “falocracia que impera na sociedade machista”.

Na América não é diferente. Aliás, em ano eleitoral e com Hillary Clinton, mulher esquerdista na disputa pela Casa Branca, é ainda pior. Além de abusar do “gender card” (justificar críticas que recebe como sendo fruto de machismo e tratar sua condição de mulher como algo primordial para que ela seja eleita), a campanha de Hillary conta com o massivo apoio da grande mídia e de celebridades de peso. E nada melhor que ter a mídia nas mãos para assassinar a reputação de seus adversários, sobretudo quando seu adversário é alguém politicamente incorreto como o empresário e candidato republicano Donald Trump.

Pussygate ou Trump Tapes foram os termos mais utilizados para se referirem a áudios de uma conversa entre Donald Trump e Billy Bush em 2005, na qual o atual candidato republicano faz comentários no nível “conversas de boteco” sobre seu desejo e capacidade de pegar uma mulher casada, sendo ele também casado. OK, os comentários não eram os mais bonitos de se ouvir, mas duvido que a maioria dos homens, inclusive os que estão criticando o diálogo, nunca tenham participado de conversas entre amigos que seguissem por esse caminho. Mais que isso, ele claramente se referia a como certas mulheres cedem fácil a abordagens de homens na posição dele, o que não é nenhuma mentira, sabemos bem, e é um problema apenas dos indivíduos envolvidos. Esse tipo de comentário, aliás, não só acontece entre homens como também entre muitas mulheres.

Contudo, obviamente, a mídia foi à loucura dizendo que Trump seria um “estuprador”, um misógino etc. Segundo a própria Hillary Clinton, Horrível! Não podemos permitir que esse homem seja presidente!” (isso quando ela própria está enrolada até a morte com Benghazi, emails de estado enviados por servidores privados e perseguição às vítimas de assédio de Bill Clinton), bem como Michelle Obama disse estar “profundamente abalada” pelos comentários. Hillary e Michelle, porém, como a maioria das feministas histéricas, agiram com enorme hipocrisia. E uma das maiores provas disso é o tipo de música cantada por muitos de seus mais veementes apoiadores famosos. Beyoncé, Madonna, Lady Gaga, Kesha: todas apoiadoras da democrata e com um vasto histórico de músicas que abusam de termos chulos e de descrever situações muito mais chocantes (e “objetificantes” da mulher e fomentadoras do que elas mesmas chamam “cultura do estupro”) em termos sexuais que a conversa de onze anos atrás dos candidatos. E é isso que veremos a seguir.

OBS: Não estou aqui bancando a moralista, eu escuto muitas das músicas que citarei e não tenho nenhum problema com artistas que cantem esse tipo de música, mas acredito que cabe apontar a hipocrisia dos que condenam o discurso de Trump ao mesmo tempo em que fazem fortuna com o mesmíssimo tipo de falatório.

Beyoncé
Ídolo da própria Hillary Clinton e também de Michelle Obama, que inclusive a classificou como um modelo a ser seguido por garotas de todo o mundo, Beyoncé é uma das mais proemintes esquerdistas da música e, a cada novo álbum, investe mais pesado na politização (chegando a louvar o grupo terrorista Panteras Negras e Malcom X na apresentação do intervalo do Super Bowl 2016) e também na sexualização de suas letras. Mas para Hillary e Michelle, embora as canções abaixo apresentem liguagem similar (ou pior) que as do diálogo, não são “negativas”, nem mesmo “perpetuadoras de um discurso que objetifica as mulheres. Eu sugiro que vocês, leitores, julguem por si mesmos, incluindo uma referência explícita a Ike Turner, falecido ex-marido de Tina Turner que agredia a cantora...

Drunk in Love: Hope you can handle this curve / Foreplay in a foyer, fucked up my Warhol / Slip the panties right to the side […] In '97 I bite, I'm Ike, Turner, turn up / Baby no I don't play, now eat the cake, Anna Mae. – Eu espero que consiga alcançar essa curva / Preliminares no vestíbulo f**eram meu Warhol/ Deslize a calcinha para o lado / Em 97 eu mordo, sou Ike Turner, vire-se / Querido, eu não brinco, coma o bolo Anna Mae (nome de Tina Turner antes da fama)

Partition: Oh he so horny, yeah, he want to fu... / He popped all my buttons and he ripped my blouse / He monica lewinsky-ed all on my gown – Oh, ele está tão excitado, sim, eu quero f**er / Ele abriu todos os meus botões e rasgou minha blusa / Ele “monica-lewinskyzou” em toda a minha camisola.


Christina Aguilera
Mais uma das entusiasmadas apoiadoras de Hillary, Christina Aguilera tem em seu histórico vídeos como Dirrty e Not Myself Tonight, ambos altamente sexualizados e até mesmo com sadomasoquismo, caso específico do segundo. Mas é na letra de WooHoo, uma parceria com a rapper Nicki Minaj que a coisa é realmente explícita.

WooHoo: Wanna taste my (woohoo) / You know you wanna get a peek / Wanna see my (woohoo) / You know you wanna put your lips / Where my hips are (woohoo) / Kiss on my (woohoo) / All over my (woohoo) / All the boys think it's cake / When they taste my (woohoo) / You don't even need a plate / Just your face, ha (woohoo) / Licky, licky, yum yum – Quer provar minha WooHoo? / Você sabe que quer dar uma espiada na minha WooHoo / Quer ver minha WooHoo? / Você sabe que quer colocar seus lábios / Onde meus quadris estão (woohoo) / Beije minha WooHoo / Por toda a minha WooHoo / Todos os caras pensam que é bolo / quando experimentam minha WooHoo / Você nem precisa de prato / Apenas sua cara (WooHoo) / Lamba, lamba, yum yum.


Jay Z
Marido de Beyoncé, ex-traficante e notório supremacista negro, o rapper Jay Z é famoso por suas letras nada decorosas que, aliás, são uma constante em seu estilo musical. Mas vindo do Jay Z, aí não é discurso misógino...

That’s my bitch: No disrespect, I'm not tryna belittle / But my dick worth money I put monie in the middle  - Sem desrespeito, eu não estou tentando te depreciar / Mas meu p**to vale dinheiro e eu coloco dinheiro no meio.


Jennifer Lopez
Mais uma do time que posta a hashtag “I’m with her” em quase tudo o que escreve e já tendo dedicado um show a apoiar Hillary, J.Lo tem um vasto catálogo de canções mais picantes. Certamente, contudo, por ela ser de esquerda, é tudo mensagem de “empoderamento”...

I Luh Ya Papi: Pull your trigger, go and get your gun up / All the time I hear her talk / Put a pin in it, now I'm ready, let it rock / Keep it number 1, that's easy mathematics / Keep it number 1, baby, ain't no static / Got that hourglass for you, baby / Look at these legs / No brakes, go green, no red / If you wanna kill the body, gotta start with the head / […]  I'mma need about 4-5 beds / Cause I love my papi – Aperte o gatilho, vá e levante essa arma /Toda a hora ouço a conversa dela / Vamos falar disso depois, agora estou pronta, divirta-se / Guarde o número 1, isso é uma matemática fácil / Tenho uma ampulheta para você, querido / Olhe para essas pernas / Sem freios, passe o sinal verde, sem sinais vermelhos / Se você quer matar o corpo, precisa começar pela cabeça / [...] vou precisar de umas 4 a 5 camas /Porque eu te amo, papi


Katy Perry
No ultimo debate presidencial, Katy Perry ficou simplesmente histérica com a performance de Trump ter sido superior a de Clinton, candidata do coração da cantora. Foi na noite do primeiro debate, contudo, que Katy tirou sua roupa para clamar que as pessoas fizessem o registro para votar. E enquanto ela nada diz sobre as acusações reais que Bill Clinton sofre há décadas, obviamente ela também bancou a indignada com o diálogo de Trump e cantou coisas como Peacock...

Peacock: I want the jaw droppin', eye popin', head turnin', body shockin' / I'ma peace out if you don't give me the pay off / Come on baby let me see / what you're hiding underneath / Are you brave enough to let me see your peacock? / what you're waiting for, it's time for you to show it off - Quero ficar de boca aberta, olhos saltitando, cabeça pirando, com o corpo em choque / Te deixarei em paz e não precisará pagar / Vamos lá baby, deixe me ver / O que você está escondendo ai embaixo / Você é corajoso o suficiente para me deixar ver seu pavão? / O que esta esperando? É hora de você mostrar-lo


Kesha
Tendo alcançado a fama em 2009 com Tik Tok, atualmente Kesha tem garantido espaço na mídia pelo processo contra o produtor musical Lukas “Dr. Luke” Gottwald por abuso sexual, o qual ela perdeu por não ter provas a apresentar. Isso, como era de se esperar, transformou-a em uma mártir do movimento feminista e ela não perdeu tempo em demonstrar o quão mal ela se sentiu diante os comentários de Trump, embora ela mesma sempre tenha entoado versos grosseiros e que glorificam um comportamento degradante...

Gold Trans Am: Get inside my fucking gold trans am / Pull over sucker, now spread ‘em / Lemme see what you’re packin’ inside that denim / Pedal to the medal, looking straight amazing / I can’t help all the hell that I’m raising / Stopping traffic like an ambulance / Tryna get my hands in your worn down pants - Entre na p**ra do meu carro dourado / Encosta otário, agora se espalhe / Deixe-me ver o que você está guardando dentro desse jeans / Do pedal para a medalha, parecendo totalmente incrível / Eu não posso evitar todo o inferno que eu estou criando / Parando o tráfego como uma ambulância / Estou tentando pôr as mãos em suas calças arriadas


Lady Gaga
A polêmica Lady Gaga, que já compareceu a uma premiação vestida de carne declarou na última sexta que as palavras de Trump deixaram “em pânico mulheres que já foram abusadas”. O que dizer das letras de algumas músicas de Gaga e do quanto ela própria incentiva um comportamento “objetificante”?

Government Hooker: As long as I'm your hooker / Hooker (Government Hooker) / Put your hands on me John F. Kennedy / I'll make you squeal baby / As long as you pay me (oh!) / I want to fuck the Government Hooker / Stop fucking me Government Hooker - Desde que eu seja a sua p**a / P**a (p**a do governo) / Coloque suas mãos em mim John F. Kennedy / Farei você gritar agudo, baby /  Desde que você me pague / Eu quero f**er a p**a do governo / Pare de me f**er p**a do governo

Do What You Want: I could be the drink in your cup / I could be the green in your blunt / Your pusha man, yeah I got what you want / You want to escape all of the crazy shit / You're Marilyn, I'm the president / I love to hear you sing, girl / […]If you break my heart / So just take my body / And don't stop the party – Eu poderia ser a bebida de seu copo / Eu poderia ser a verdinha do seu baseado / Sim, eu tenho o que você quer / Você quer fugir de toda essa louca m**da / Você é Marilyn, eu sou o president / Adoro t ever cantar, garota / Se você partir meu coração / Então tome o meu corpo / E não interrompa a festa.


Miley Cyrus
Uma das crianças da Disney, Miley impulsionou seus comportamentos chocantes a partir de 2013, quando assumiu um comportamento bizarre e, inegavelmente degradante, o que inclui bodys com estampa de folhas de maconha, apologia às drogas em suas músicas, campanha para que mulheres possam andar com os seios desnudos e performances em que permite que seu público toque suas nádegas e, até mesmo, sua vagina (embora sobre a “roupa”). Para ela, contudo, é a conversa de boteco de Trump que é um horror e o escândalo do ano... O que dizer então de seu vídeo para a música "We Can’t Stop", de seu álbum "Bangerz" (2013).