RODRIGO NUNES
Rodrigo de Bem Nunes – O nome é inspirado na obra de Erico Verissimo e o sobrenome deixa evidente; trata-se de um legitimo cidadao de bem. Nasceu e cresceu no glamuroso bairro Canudos, em Novo Hamburgo-RS e hoje vive com a esposa na cidade de Houston, Texas, lugar que considera “uma Bagé com grife”.

09/07/2016 às 16:01 - Atualizado em 09/07/2016 às 22:36

O Racismo na América: uma explicação sobre o atentado de Dallas

Racismo é um assunto delicado, que envolve questões históricas e sociais extremamente complexas, sobretudo nos Estados Unidos, país que até 1964 tinha a discriminação racial legalmente prevista. Obviamente este é um problema que ainda se faz presente em escala global, mas há uma grande diferença na terra de George Washington; é comum ver negros em carros luxuosos, em restaurantes finos, morando em bairros elegantes e ocupando postos de destaque na sociedade ou cargos executivos, a exemplo de um colega  de trabalho que começou na empresa como analista e ascendeu ao cargo de diretor ou através do gerente da minha agência bancária, um rapaz negro bastante jovem e excelente profissional.

É impressionante que esta realidade tenha sido conquistada sem a implementação de medidas proselitistas, como cotas, e sem derramamento de sangue. Mas, infelizmente, o que se vê atualmente é um certo retrocesso na questão racial e conflitos evitados no passado vem tomando forma agora, justamente depois da eleição e da reeleição do primeiro presidente afrodescendente da história Americana. Por que isso está acontecendo?

Noto que uma problematização superficial e excessiva sobre o racismo vem tomando conta do debate público nos EUA. A postura predominante é o confronto – não o entendimento – e o tema acaba sendo exaustivamente discutido, mas não exatamente de forma pacífica e nem exatamente de forma inteligente. Fala-se muito, mas diz-se pouco. Há uma enxurrada diária de demandas que visam a polêmica gratuita, vide a suposta falta de atores negros indicados ao Oscar ou “apropriação cultural indevida” que pessoas brancas fariam ao usar roupas com temas africanos ou penteados rastafáris.

Para completar, movimentos como “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam – em tradução livre) instigam uma postura divisiva no próprio nome e, não raro, organizam manifestações hostis, onde saques e vandalismo se fazem presentes.

O resultado de tudo isso é uma tensão racial potencializada que vem ganhando contornos realmente perigosos. Os recentes casos de Minessota e Lousiania, onde duas pessoas negras forma mortas em abordagens policiais sob circunstâncias até agora controversas, seguidos do ataque de proporções terroristas ocorrido em Dallas e direcionado especificamente contra policiais brancos, podem ser considerados como o apogeu de uma narrativa cada vez mais popular; o suposto racismo institucionalizado, principalmente por parte da polícia Americana. Mas seria esta ideia amparada por fatos sólidos ou por emoções volúveis? Não é possível ter uma discussão honesta sobre a conduta policial sem ter uma discussão honesta sobre alguns dados que vão totalmente contra o senso comum:

1. Aproximadamente 90% dos assassinatos de negros são cometidos por outros negros. De acordo com dados do FBI, no ano de 2014 foram assassinados 2.451 pessoas negras nos Estados Unidos. Deste número, 2.205 homicídios foram cometidos....por outros negros! Basicamente quem mais mata negros - 90% das vezes – são os próprios negros. Outro dado sintomático: 446 pessoas brancas foram mortas por negros em 2014, enquanto 187 pessoas negras foram mortas por brancos no mesmo período.

2. Policiais mataram aproximadamente o dobro de pessoas brancas, em comparação a negros. No ano de 2015, de acordo com dados compilados pelo jornal The Washington Post, 50% das vitímas de tiroteios foram brancos, enquanto 26% foram negros nos EUA.

3. No ano de 2015, o índice de homicídios aumentou 17% nas 50 maiores cidades Americanas. A taxa nacional de homicídios dos EUA são as mais baixas desde os anos 50, entretanto esta não é a tendência observada em algumas das grandes cidades. A hostilidade da população em relação a polícia é apontada como um dos fatores contribuidores para este fenômeno. O receio pelo estigma de “racista” ou de “preconceituoso” faria muitos oficiais se portarem de maneira mais passiva frente a atividades suspeitas, evitando abordagens e prisões, o que favorece ocorrências criminosas. Essa é inclusive uma questão pertinente não apenas na América, mas no próprio RS, tendo em vista o brigadiano Luiz Carlos Gomes da Silva, que optou por não agir contra dois bandidos que insistiam em não cooperar com suas ordens e acabou sendo morto. A situação da polícia é ingrata. Não há chance para erro e até mesmo quando se acerta, corre-se o risco de ser massacrado pela mídia.

Discriminar pessoas negras com base nos dados mencionados seria desumano e desprezível. O intuito aqui é mostrar que a retórica anti-policial não faz sentido e os discursos que clamam por uma suposta perseguição racial no país servem apenas para tapar fatos com ideologias não necessariamente boas e justificar ações injustificáveis, como a do franco-atirador que matou cinco policiais em Dallas, ferindo outros tantos.

Quando observamos fatos, e não emoções instigadas pela mídia, vemos inclusive que o estereótipo de “país racista” não é exatamente justo com os Estados Unidos. Isso não é dito por mim, mas por Orlando Patterson, sociólogo da universidade de Harvard que afirmou: “EUA é o país menos racista dentre as nações com maioria branca no mundo e a o país que mais oferece oportunidades às pessoas negras, inclusive mais oportunidades que os próprios países Africanos”. Patterson, a propósito, é negro e originário da Jamaica.

Há sempre aqueles que sentem antipatia pelo que os Estados Unidos representam e utilizam-se de tragédias e problemas sociais para comprovar seus pontos de vista e mostrar a América como um país tenso, conflituoso e racista. São os abutres ideológicos, que observam o cisco no olho do vizinho, mas não removem as traves inteiras que cegam suas próprias nações.

Existem muitos problemas na terra do tio Sam, incontáveis questões que devem ser melhoradas, o país está longe de ser perfeito. Mas trata-se de uma grande nação. O gerente da agência bancária que frequento não me deixa mentir.

FONTES:

https://www.fbi.gov/about-us/cjis/ucr/crime-in-the-u.s/2014/crime-in-the-u.s.-2014/tables/expanded-homicide-data/expanded_homicide_data_table_6_murder_race_and_sex_of_vicitm_by_race_and_sex_of_offender_2014.xls

http://www.dailywire.com/news/7264/5-statistics-you-need-know-about-cops-killing-aaron-bandler?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_content=062316-news&utm_campaign=dwbrand

http://www.forbes.com/sites/niallmccarthy/2016/01/28/americas-major-cities-saw-an-increase-in-homicides-last-year-infographic/#613a21d350c2

http://www.nytimes.com/2015/05/10/opinion/sunday/the-real-problem-with-americas-inner-cities.html

05/07/2016 às 14:17 - Atualizado em 05/07/2016 às 14:18

Série Custo Brasil: Parte II

No texto de hoje, seguirei com a parte II da série “Custo Brasil”, onde a alta carga tributária brasileira é evidenciada com menos opinião e com mais etiquetas de preços. O foco da parte II estará num fenômeno interessante: produtos doces que adquirem preços salgados.

Começamos pela Nutela, amada e adorada, salve salve por dez entre dez habitantes da Terra. No Brasil, paga-se R$ 29,50 reais por um pote de 650 gramas. Nos EUA, paga-se U$ 6,42 dolares, o que daria R$ 20,54 pelo câmbio atual. Mas a diferença não para por aí. O pote americano tem 750 gramas. Ou seja, o brasileiro malandro paga R$ 9 reais a mais por 100 gramas de Nutela a menos.

Quem nunca deu um “Ferrero Rocher” de presente para alguém, que atire a primeira pedra. Este chocolate, salvador de tantos aniversários esquecidos, também é encontrado nos Estados Unidos onde uma caixa com 18 unidades custa U$ 7,96 ou R$ 25,47 reais. Já no Brasil, onde o capitalismo nunca é visto com bons olhos, uma caixa de Ferrero Rocher sai por R$ 29,90. Importante salientar que a caixa brasileira vem com apenas 15 unidades. Ou seja, paga-se 41% a mais por cada chocolate comprado no Brasil. Lembre-se disso no seu próximo amigo secreto.

Ao saber disso, você talvez decida comprar algo mais sofisticado para impressionar aquela garota que você tenta conquistar faz tempo. Então você compra um chocolate suiço. Sim senhor, um chocolate suiço impressionaria muito mais que um reles Ferrero Rocher, tão manjado. Você olha uma barra da marca “Lindt” com raspas de laranja, onde se pode inclusive ler a palavra “intense” na embalagem. Sim, raspas de laranja junto da palavra “intense”, ela ficará impressionada, seguramente. Para comprar o chocolate da marca "Lindt", é necessário desembolsar R$ 16,90 para uma barra de 100 gramas. Ao contrário dos outros produtos, a embalagem nos EUA tem o mesmo padrão da que é vendida no Brasil, 100 gramas. Mas na América do Norte, ela se impressionaria menos, pois o chocolate suiço custa U$ 2,68, ou R$ 8,57 reais. Praticamente a metade do custo praticado na terra do samba e futebol. De fato, a carga tributária nacional é “intensa”.

30/06/2016 às 16:00 - Atualizado em 05/07/2016 às 14:17

Bolsonaro, leões e gatinhos

O Conselho de Ética da Câmara instaurou no dia 28 de Junho um processo disciplinar sobre o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) por ter feito referências a um personagem controverso da ditadura militar na votação do impeachment, o que seria visto como apologia ao crime de tortura. Com tantos nomes importantes para a história do país, muitos dos quais carentes de homenagens, foi no mínimo um desperdício a menção de Bolsonaro ao Coronel Ustra. A indignação se faz necessária.

Mas gostaria de fazer uma pergunta: onde estava esta mesma indignação no momento em que Dilma discursou em eventos homenageando Lênin, um dos maiores carniceiros da humanidade? Onde estava essa indignação quando Lula, em visita a um ditador africano, disse que gostaria de aprender como ficar 30 anos no poder? Lula, inclusive, chegou a dizer na época que a resposta do governo do Gabão para quem reclamava da repetição de presidentes “era pau”, numa insinuação aos então opositores de sua reeleição. Onde estava a indignação quando movimentos políticos demonstraram total apoio a Chávez e a Maduro, mesmo com todas as evidências de perseguição política e de tortura (sim, tortura!!!) a opositores na Venezuela?

As ditaduras militares finalmente acabaram na América Latina e a esquerda chegou ao poder. Mas o que se viu foi um alinhamento destes governos às práticas de....ditadores! E sobre isso não houve indignação. Quando muito, o que houve foi aplauso. Não entendam que estou fazendo relativismo moral barato sobre as atitudes do “Bolsomito”. O que quero aqui é explicar a origem deste fenômeno, que faz parte de um sistema que vem se retroalimentando há séculos.

Quem era o Bolsonaro nos anos 90? Nem 5% do que é hoje. O governo brasileiro da época, com todos os seus defeitos, não saia fazendo juras de amor a assassinos por conveniência ideológica. Então essa retroalimentação foi estabilizada e até diminuída. Isso ocorreu também em outros lugares como Inglaterra, África do Sul e Leste Europeu nos anos 80 e 90. Infelizmente no Brasil e na América Latina, a esquerda não deu continuidade a este processo ao tomar o poder e, movida pelo sentimento de revanche, se reaproximou daquilo que justamente dizia combater.

Assim, vimos Lula chamar o ditador líbio Muammar Kadafi de “irmão e amigo”, visitar o ditador Fidel Castro, elogiar o Irã, país que enforca homossexuais em guindastes e fazer declarações racistas ao culpar "gente branca de olhos azuis" pela crise de 2008. Tudo isso feito sob aplausos, sem questionamento. Obviamente, se é natural ver pessoas aprovando estas atitudes, porque não seria natural aplaudir as atitudes de Bolsonaro? Alguém me explica?

Passou um tanto despercebido, mas o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) homenageou Marighella em sua votação no impeachment. Marighella pegou em armas para implantar uma ditadura no Brasil, fez ataques terroristas e escreveu um manual de guerrilha com capítulo dedicado a execuções. Pergunte às pessoas que rugem nas críticas a Bolsonaro sobre a menção de Glauber ao terrorista Marighella ou, talvez, sobre a idolatria que seu partido, o PSOL, tem por Che Guevara, que se orgulhava de seus fuzilamentos em conferências da ONU. Muitos leões se tornarão gatinhos em segundos.

Novamente, não estou justificando as atitudes de Bolsonaro, mas cobrando que não haja nenhum alinhamento ou admiração por quem impõem ou impôs restrições à democracia, seja da direita, seja da esquerda. Se Bolsonaro tem de ser punido, Glauber Braga também tem de ser, do contrário é hipocrisia ou medo das eleições de 2018.

25/06/2016 às 13:04 - Atualizado em 01/07/2016 às 18:59

Série Custo Brasil: Parte I

A última fase da operação da Lava Jato, realizada no dia 23 de junho, foi denominada "Custo Brasil". Para sair um pouco da abstração do termo, decidi fazer uma série, mostrando o "Custo Brasil" de maneira um pouco mais prática, em produtos do dia-dia, sendo alguns mais básicos, outros um pouco mais sofisticados.

A parte I da série, começa com a cerveja, item de extrema necessidade. Gosto muito das alemãs, como a Franziskaner e Paulaner. No Brasil costumava pagar R$ 14,98 por uma e R$ 20,90 por outra, como se vê nas fotos. Já nos EUA paga-se U$ 2,39 e U$ 2,69, o que daria R$ 8,00 e R$ 9,00 em reais. Temos então a seguinte perspectiva: Caso cada Paulaner saia da Alemanha por 1 euro, o valor nos EUA seria de U$ 1,11 dólares pela simples diferença cambial. Adicionando taxas, frete e lucro, o valor aumenta 142% e vai a U$ 2,69 dólares. Pois a mesma garrafa que sai por 1 Euro da Alemanha, chegaria ao Brasil por R$ 3,76 reais pela diferença entre moedas. Mas ao adicionar taxas, frete e lucro, o valor salta, não 142% como nos EUA, mas 455% e vai para R$ 20,90. É um 7x1 todo dia.

Saímos dos "bebes" e vamos aos "comes". O salgadinho "Pringles" é um ótimo comparativo. No Brasil, paga-se R$ 13,90 reais por uma latinha de 128 gramas. Já na terra dos yankees, pode-se comprar 2 latas por U$ 3 dólares, o que daria U$ 1,50 por unidade, ou aproximadamente R$ 5 reais. Detalhe importante, as latas americanas não possuem 128, mas 169 gramas. Ou seja, come-se 32% mais salgadinho nos EUA por um preço 64% menor que o praticado no Brasil. Quem é o país rico agora?

Mudando um pouco do segmento alimentício, para o manufaturado. Pilhas são itens relativamente importantes, mais cedo ou mais tarde você precisará, seja para o controle remoto, seja para o radinho, ou o brinquedo do seu filho. Na terra de "Dilmãe", por 4 pilhas alcalinas AAA paga-se R$ 25,90 reais. Já os americanos imperialistas, no câmbio atual, pagam R$ 40 reais.... por 32 pilhas. Proporcionalmente, é como se as 4 pilhas nos EUA custassem R$ 5,00 reais, basicamente 5 vezes menos que no Brasil. "Cinco muito", dirão os políticos brasileiros, ao ler este texto.

Alguns podem também dizer que cervejas importadas, salgadinhos e pilhas alcalinas são itens supérfluos, usados por coxinhas, que o imposto tem de ser alto mesmo, que basta substituir por produtos mais baratos, que a culpa é do empresariado.... É exatamente assim que os políticos e burocratas de sempre querem que você continue pensando. É o típico discurso dos bois pertencentes aos currais eleitorais daqueles que, entre um gole e outro de champanhe, vão criar mais um tributo.

18/06/2016 às 20:06 - Atualizado em 25/06/2016 às 13:06

Remédios e Venenos: Os 15 anos sem títulos do Grêmio

Comecei a torcer pelo Grêmio quando tinha 5 ou 6 anos. Foi uma noite de Natal ao vestir minha primeira camisa tricolor. Era o início dos anos 90, época de ouro gremista que teve seu fim no dia 17 de junho de 2001, com a conquista da copa do Brasil. Torna-se inevitável o questionamento sobre a responsabilidade sobre os 15 anos sem títulos importantes. Os culpados seriam as direções passadas, a arbitragem, a Globo, até a Arena seria culpada. Teses de quem não conhece futebol, e mais que tudo, não conhece o próprio Grêmio. O jejum de conquistas passa por motivos óbvios, quase escancarados, mas que infelizmente são pouco difundidos entre os próprios gremistas. São eles:

  • 1 – A perna que treme vem sendo uma marca registrada do clube. Falo do momento que separa “os bois dos terneiros”; a decisão. Com exceção dos anos de 2003 e 2004, o Grêmio fez campanhas muito boas nas competições que disputou nestes últimos 15 anos, mas sempre afrouxou nos momentos decisivos, desclassificando-se em finais, semis-finais, quartas de final e oitavas de final. Como se vê, a palavra “final” é um problema. Até mesmo quando não há decisões, como nos sonolentos campeonatos de pontos corridos, o tricolor consegue deixar escapar títulos praticamente ganhos, vide o Brasileirão de 2008. No momento em que é necessário ganhar, a chuteira colorida fica pesada, os jogadores se escondem sob suas tatuagens gigantescas e mais um ano é perdido.  

  • 2 – Dizem que a diferença entre o remédio e o veneno está na dose e é essa a perfeita definição do fator “raça” para o Grêmio. Tudo teve início na década de 50, quando o ex-jogador Osvaldo Rolla, também conhecido como Foguinho, assumiu como técnico e implementou o chamado futebol-força. Com ele, o Tricolor priorizou o preparo físico e aprendeu a marcar, a ocupar os espaços, a lutar pela bola incansavelmente. Através de Foguinho, o futebol pragmático, objetivo e firme começava a forjar a própria identidade do clube. Jogos como a épica “batalha de La Plata” contra o Estudiantes nos anos 80 e os carrinhos de Dinho dos anos 90 acabaram solidificando a mística da raça gremista. Mas a torcida, talvez saudosista dos tempos de glória, começou a administrar o remédio em excesso e ele virou veneno; Criou-se uma certa cultura de que, no Grêmio, talento e qualidade técnica são quesitos secundários, importante é ter raça, muita raça, apenas raça. Esquecem-se que a equipe de 83 tinha um time extremamente técnico, liderado por Renato Portaluppi, atacante que não só brigava, mas fazia muitos gols, principalmente em decisões. Em 95, Dinho não servia apenas para bater no Válber do Palmeiras, mas dava lançamentos de 60 metros e raramente errava passes. Aliás, o Brasileiro de 96 veio de um golaço de Aílton, jogador habilidoso que entrou na final contra a Portuguesa para justamente substituir... Dinho. O time que conquistou a Copa do Brasil de 2001, era conhecido por sua forma envolvente de jogar, através de um 3-5-2 inovador arquitetado por Tite, atual técnico da Selecinha. Pode parecer surpreendente para alguns, mas no futebol, antes de tudo é necessário saber jogar bola.

Aos que dizem que os problemas do Grêmio se devem às más administrações, às parcerias controversas e aos dirigentes ruins. Tenho minhas dúvidas quanto a isso. Afinal, seriam os dirigentes de San Lorenzo, Rosário Central, Santa Fé, Juventude, Caxias, Atlético Paranaense e Palmeiras tão melhores e mais íntegros que os do Imortal? Seria a administração destes clubes tão mais avançada que a do tricolor gaúcho? Pergunto isso pois todos estes times desclassificaram o Grêmio de diversas competições nos últimos anos, sendo que alguns ainda ganharam títulos. O Flamengo, que nem mesmo estádio próprio tem e ainda deve R$ 451 milhões, ganhou o campeonato brasileiro de 2009 e as Copas do Brasil de 2006 e 2013, sendo esta última com Paulo Pelaipe no comando do futebol. Neste meio tempo o tricolor gaúcho passou em branco. O Fluminense, sem um estádio decente e detentor de uma polêmica parceria com a Unimed, ganhou a Copa do Brasil de 2007, os campeonatos Brasileiros de 2010 e 2012 (com Rodrigo Caetano de dirigente) e no ano de 2016 conquistou a Primeira Liga, um campeonato nacional menor, mas certamente maior que nada. Como explicar tudo isso pela perspectiva da “boa administração” ou da “má gestão”? Se alguém falar “sorte”, vá procurar outro esporte para passar o tempo.

Quem se concentra em problemas administrativos para explicar um time de futebol deve comemorar a divulgação de balancetes superavitários com buzinaços e provavelmente pensa que um zagueiro adversário se intimidaria ao ouvir os números da contabilidade gremista. Obviamente que clubes devem ser bem geridos, mas lucro por si só, não ganha jogos. Assim como a raça, a boa administração do clube é um dos componentes que ajudam nas vitórias, mas não asseguram canecos.

Precisamos menos de carrinhos e mais de vibração, de personalidade. O capitão do Grêmio intimida ou se deixa intimidar? Na hora da decisão, quem diz “deixa que eu bato”? Quem diz “por aqui ele não entra”? A raça, a vontade, a gana precisam sempre estar presentes, mas não podem substituir a técnica, como muitos gremistas pensam, mas sim complementá-la. Atualmente, penso que o Grêmio vem sendo muito bem administrado, inclusive. Mas a perna continua tremendo. Até quando?