RODRIGO NUNES
Rodrigo de Bem Nunes – O nome é inspirado na obra de Erico Verissimo e o sobrenome deixa evidente; trata-se de um legitimo cidadao de bem. Nasceu e cresceu no glamuroso bairro Canudos, em Novo Hamburgo-RS e hoje vive com a esposa na cidade de Houston, Texas, lugar que considera “uma Bagé com grife”.

18/11/2016 às 19:42 - Atualizado em 19/11/2016 às 13:44

Os Mitos do Texas – Parte 1: Os Texanos são caipiras ignorantes

Admita, a palavra “Texas” é um festival de estereótipos; cowboys, armas, bang-bang, caipiras que não gostam de imigrantes e magnatas do petróleo... Geralmente são através dessas características simplistas que o “Estado da Estrela Solitária” é retratado, embora este seja sozinho maior que toda região sul do Brasil. Pois bem, tentarei elucidar alguns mitos e aqui vai o primeiro deles, inspirado nessa onda de invasões que as universidades e escolas brasileiras vem sofrendo: Seriam os Texanos caipiras e ignorantes?

Comecemos pelo ensino superior: Existem quase 200 campi em todo Texas, pertencentes a aproximadamente 150 diferentes instituições, entre universidades públicas, privadas, faculdades e centros universitários. Quantidade não faz qualidade? Pois bem são 8 os prêmios Nobel conquistados apenas por pesquisadores afiliados a instituições texanas, entre as quais não estão apenas universidades, mas também uma empresa! Sim, a companhia “Texas Instruments”, de Dallas, é uma das poucas empresas no mundo a obter tal premiação através da pesquisa em circuitos integrados feita por um antigo funcionário, Jack Kilby, premiado no ano 2000 com um Nobel em física.

Também é válido mencionar que algumas instituições estaduais, como a Universidade do Texas A&M contam com prêmios Nobel no grupo docente, ainda que estes não fossem filiados à instituição na época do prêmio. Já o Brasil, com suas grandes universidades invadidas e suas empreiteiras financiadas pelo BNDES, nunca recebeu um prêmio Nobel sequer.

A qualidade do ensino básico dos Estados Unidos é muito boa, de maneira geral. Os EUA figuram na 27º posição** no teste internacional PISA, um pouco acima de Itália (28º) e Suécia (36º) e um pouco abaixo de Noruega (25º) e Dinamarca (24º). A educação é universal e gratuita, do jardim de infância até o fim do ensino médio. Já o sistema básico de ensino no Texas, especificamente, vem sofrendo algumas críticas recentes, pois seu nível estaria decaindo. Mas a verdade é que o estado, mesmo não tendo os melhores resultados nacionais, está também longe de figurar entre os piores.

O NAEP (National Assessment of Educational Progress), teste nacional Americano que mede a qualidade do ensino primário e secundário, mostra o Texas figurando em 14º lugar entre 50 estados avaliados. A publicação educacional “Education Next”, numa parceria com a Universidade de Harvard, equalizou a pontuação do teste internacional PISA e do NAEP para poder comparar a performance de cada estado junto a outras nações. No estudo feito em 2015, o Texas aparece a frente da própria média Americana, com indicadores de ensino similares a países como Inglaterra e Luxemburgo.

Um professor primário numa escola texana ganha, em média, algo em torno de U$ 4 mil dólares por mês. Há programas estaduais para crianças talentosas e super-dotadas, onde o ensino e o acompanhamento escolar é personalizado. Competições esportivas entre escolas (as famosas interséries) são as vezes transmitidas pela ESPN ou FOX e um detalhe curioso: a famosa “matada de aula” é quase impossível, já que jovens em idade escolar não podem andar sozinhos na rua em horário de aula. Sim, um policial tem autoridade de recolher um pré-adolescente que esteja num shopping às 11 da manhã de uma segunda-feira, sem justificativa, e autuar os pais ou responsáveis.

Todos estes indicadores fazem com que, nos últimos 250 anos, tenham havido 0 invasões por alunos birrentos em escolas Texanas. Como se vê, talvez pensar num texano com jaleco de cientista faz tanto ou mais sentido que a eterna figura do cowboy.

** média do desempenho em leitura, matemática e ciências. Hong Kong e Macau são consideradas como “China”

Todas as fontes utilizadas no artigo estão nos hiperlinks (palavras de cor destacada, sublinhada), inseridas no próprio texto

 

14/11/2016 às 11:33 - Atualizado em 19/11/2016 às 13:45

A morte do amigo que não tive

Morreu Luiz Fernando Vaz. Você provavelmente não o conhece. Eu também não o conheci. Ele era um destes contatos virtuais que fazemos no Facebook, que adicionamos em função de alguma postagem, de algum posicionamento que seja similar ao que pensamos. Sabia que o Luiz vivia no Pará, fazia parte de uma oficina de teatro, como se pode ver na maquiagem de sua foto. Também sabia que participava de algumas ações políticas e era aficcionado pelo autor de “O Senhor dos Anéis”, J.R.R Tolkien. Em seus posts ele demonstrava ser bastante inteligente, dono de um humor sagaz e de uma ironia fina. Nunca troquei duas palavras diretamente com ele. Mas por tê-lo na minha rede de amigos virtuais e ver suas análises cotidianas, sentia uma certa “proximidade distante”, se é que existe isso de “proximidade distante”.

Em agosto deste ano o Luiz escreveu um pequeno comentário que elucidou uma dúvida que sempre tive sobre o filme “A Paixão de Cristo”, obra da qual sou profundo admirador. Disse ele: “O filme é quase uma missa. A presença silenciosa de Nossa Senhora durante a Paixão é para que Ela não tente a parte humana de Nosso Senhor a desistir de cumprir Sua Dolorosa Missão. Por isso a presença de Satanás sempre a tentar Maria, que resistiu bravamente e não pediu para que Seu Filho descesse daquela Cruz. O coração de Maria rasga em mil pedaços, por isso ela é co-partícipe da Salvação da Humanidade com direito a todas as honras na Terra e no Céu”.

De fato, ao ver o filme, costumava achar a atitude da Santa Virgem relativamente conformada. Ficava um pouco incomodado. Pensava que qualquer mãe se desesperaria ao ver o filho inocente sendo torturado e morto de forma tão cruel. Por que ela não gritava? Não fazia algo? Óbvio, ela não era "qualquer mãe". As palavras do Luiz responderam a todas estas minhas dúvidas de forma graciosa e teologicamente irreparável, sem que sequer eu tivesse a ele perguntado qualquer coisa. Agradeci-lhe, mas não tenho certeza que o viu. Ali o Luiz já estava doente.

Ao que tudo indica, ele morreu de tuberculose abdominal, bastante jovem, com um pouco mais de 30 anos. Estava bem não faz muito tempo e agora se foi. Que sua família seja forte e tenha muita Fé neste momento de perda. O Luiz Vaz talvez tenha partido sem saber do conforto espiritual a mim ocasionado em função daquelas suas rápidas palavras, mas Ele e Ela sabem. Espero que então assim, o amigo que não tive, seja um dia, o amigo que para sempre terei.

04/11/2016 às 16:09 - Atualizado em 19/11/2016 às 13:45

Resolvendo as ocupações das escolas à maneira Cita

As recentes ocupações das escolas por jovens de 14 e 15 anos poderiam ser facilmente resolvidas. Basta analisar a história dos Citas, um povo guerreiro, do século V antes de Cristo descrito pelo historiador grego Heródoto. Ocupavam uma vasta região, conhecida como Scythia, que hoje compreenderia partes da Rússia, Kazaquistão e Europa Oriental. Eram bravos e reconhecidos por sua crueldade. Tinham o hábito de cegar seus escravos e tirar o tampão dos crânios dos inimigos para fazer tigelas e outros utensílios domésticos.

Em uma ocasião, nos conta Heródoto, os citas marcharam para guerrear com os Medos. Os Medos tinham esse nome em função da região em que viviam, localizada no Oriente....Médio! Foi uma batalha dura, que levou 28 anos para ser vencida. Quando voltaram para casa, os Citas tiveram uma péssima surpresa. Suas mulheres, nos 28 anos que ficaram longe, haviam decidido viver junto dos escravos cegos, no que resultou toda uma nova população. E os jovens filhos destes escravos decidiram defender seus povoados dos antigos donos que retornavam da guerra. A luta foi muito difícil e os Citas, velhos e cansados de tantas batalhas, estavam em vias de perder para os filhos das suas mulheres. Até que um comandante gritou:

– Vocês não estão vendo que lutamos contra escravos e filhos de escravos? Apanhem seus chicotes e marchem contra eles agindo como os senhores que são!!!

E assim fizeram. Caminharam com firmeza contra os rebeldes, agiram com autoridade. Os jovens se assustaram ante tamanha ousadia e puseram-se a correr. Pois tivessem os pais destes fedelhos invasores de escolas e faculdades alguma firmeza, exercessem a autoridade de pais que são,  as invasões acabavam em minutos. As aulas estariam transcorrendo normalmente. Os alunos que querem estudar não seriam impedidos de estudar. O Enem não precisaria ser adiado e R$ 12 Milhões seriam economizados do erário público.

Mas os pais destes alunos, tal como os escravos cegos, são impotentes, não fazem nada e seu aprisionamento ideológico é a única herança passada aos seus filhos, igualmente cegos, que “lutam pela educação” ao mesmo tempo que não estudam.

28/10/2016 às 17:40 - Atualizado em 19/11/2016 às 13:52

Razões da violência epidêmica: O que especialistas tem a dizer?

Há cerca de dois meses, o jornal Zero Hora promoveu um debate sobre impunidade junto a alguns especialistas, ou seja, pessoas experientes, com estudo e que trabalham com segurança pública e com o sistema prisional em seu cotidiano. Chamou-me atenção algumas das colocações principalmente do promotor Mauro Andrade e do Delegado Ranolfo Júnior, as quais eu transcrevo aqui. Os especialistas são gauchos, o contexto é o Rio Grande do Sul, mas o diganóstico é aplicável a todo país.

Promotor de Justiça Mauro Fonseca de Andrade, Professor de Direito Penal da URFGS e da Escola Superior do Ministério Público:

A PENA PARA QUEM MATA É FICAR EM CASA: A pena para homicídio simples, caso réu primeiro, é de 6 anos. Devido aos problemas de superlotação, o condenado atualmente está indo para o “semi-aberto”, que consiste basicamente em ficar em casa com uma tornozeleira eletrônica. Em resumo: A pena para quem mata, no RS, é ir para casa. Menores de idade ficam no máximo 3 anos em casas de detenção, sendo relativamente raro cumprirem todo o tempo da pena.

OPÇÃO PELO CRIME E PAIS AUSENTES: O promotor Mauro vem fazendo um levantamento junto aos adolescentes que chegam a sua promotoria aprendidos em flagrante. Nos últimos 13 anos ele pergunta diretamente aos jovens infratores se passaram fome, se faltou ou falta roupas, abrigo ou escola. Praticamente 98% dizem que optaram pelo crime, que não trabalham e não estudam porquê não querem e que apesar da vida humilde nunca faltou nada, exceto por um pai presente. A quase totalidade dos jovens envolvidos com o crime vem de famílias em que a figura paterna é nula.

PRESOS QUE ESCOLHEM GALERIAS: Alguns juízes perguntam aos criminosos que chegam ao presídio central de Porto Alegre qual galeria desejam ficar. A grande maioria dos que entram na cadeia já possuem vínculos com facções e para serem protegidos enquanto estão presos, acabam se comprometendo, ao término da pena, a praticar mais crimes como forma de pagamento.

O SALÁRIO DO CRIME: Um pequeno traficante ganha em média R$ 2.500 reais limpos, podendo chegar fácil a R$ 6 mil por mês. O promotor questiona se este jovem, caso as drogas sejam liberadas, vai virar empreendedor repentinamente, pagar tributos e cumprir com todas as exigências e regulações que um empreendimento exige.

Delegado da Polícia Civil Ranolfo Vieira Júnior, ex-chefe de Polícia Civil e ex-chefe do DEIC (Departamento de Investigações Criminais):

SÍNDROME DO “NÃO DÁ NADA”: Há uma cultura entre os criminosos que já está até no jargão policial, chamado de “síndrome do não da nada”. Os criminosos sabem que a punição é uma piada e já incluem o tempo de cadeia como pequeno “contra-tempo”, algo que pode até ser enfrentado caso o resultado do crime compense.

INVERSÃO DE VALORES: Além de não haver rotina ou carga horária, a vida do crime dá status e isso é um forte componente para entrar na vida a margem da lei. Pode parecer algo bobo, mas muitas garotas demonstram mais interesse em garotos que vivem pelo tráfico ou de assaltos, ostentando o que ganham, em detrimento de garotos que começam sua vida profissional com um salário mínimo.

CIDADÃO “DE BEM” E O CRIME: Só existe roubo de carros para desmanche pois na outra ponta há um consumidor que aceita pagar um valor abaixo do mercado de forma ilegal por uma peça.

PRESOS EM DELEGACIAS: Presos estão sendo mantidos em delegacia, o que é contra a lei. Isso é uma tragédia anunciada em função do risco de motins e uma claro exemplo da impunidade. O Estado não cumpre a regra e ninguém é punido por isso.

27/09/2016 às 02:25 - Atualizado em 27/09/2016 às 19:58

O Show deve continuar: O debate entre Hillary e Trump

Quente? Frio? O debate entre Hillary Clinton e Donald Trump foi morno. Houve momentos mais acalorados e outros mais burocráticos, bem como são a maioria dos debates políticos, mas o enfrentamento presidenciável foi relativamente normal. Não acredite nos adjetivos da grande imprensa Brasileira, que classificou a performance dos candidatos como "ríspida" ou "hostil". Essa percepção é mencionada pois nos EUA não há um TSE impondo regras de réplicas e tréplicas, não há relógios marcando quantos segundos pode-se falar, os candidatos ficam mais livres e quando julgam necessário, podem até interromper o oponente no questionamento de uma afirmação. Toda essa liberdade pode soar um pouco estranha, mas é apenas o show dos Americanos e o show deve sempre continuar.

Ponto para Hillary - Os primeiros 10 minutos do debate foram burocráticos, com colocações esperadas dos dois lados. Hillary começou afirmando que os ricos deveriam pagar impostos mais altos, ou mais justos, e fez um pequeno sarcasmo com Trump ao sugerir que o empresário tinha uma visão não realista do país, tendo em vista o início de seu primeiro empreendimento através de um empréstimo de 14 milhões de dólares do próprio pai. Trump poderia fazer um gol de placa ao mostrar no que os 14 milhões de dólares iniciais haviam se transformado e perguntar a Hillary se ela havia produzido algo além de discursos para se transformar numa das mulheres mais ricas dos EUA. Mas ele deixou a oportunidade passar e perdeu.

Ponto para Trump - Trump repetiu seu mantra sobre os empregos americanos estarem sendo roubados de outros países, como China e México e se colocou como o candidato que cortaria mais impostos desde Ronald Reagan. Sabendo que Obama e Hillary não são entusiastas da indústria de óleo e gás, o empresário citou a questão energética dos EUA como um dos pilares na geração de emprego no país, no que está correto. Hillary, claramente desconfortável, comentou novamente sobre taxar os mais ricos, soando repetitiva demasiadamente. O ponto vai pra ele.

Ponto para Hillary - Um dos momentos mais acalorados esteve centrado nos acordos de livre comércio. Hillary elogiou a atuação de seu ex-marido, Bill Clinton, na efetivação do Nafta (acordo comercial entre os páises da América do Norte) e Trump, no seu tom exagerado habitual, disse que este havia sido o pior acordo já feito na história. Trump, aliás, tem como problema o exagero: disse que os aeroportos americanos pareciam de terceiro mundo. Hilary contra-atacou dizendo que os aeroportos eram assim devido justamente a tipos como Trump que não pagavam impostos federais por mais de 20 anos, numa alusão a suas isenções fiscais. Ponto pra ela.

Ponto para Trump - Trump se recuperou ao ser questionado sobre a decisão de não liberar seu imposto de renda, algo que acaba colocando sua transparência em cheque. O magnata argumentou dizendo que liberará seu imposto de renda logo depois de Hillary liberar o conteúdo dos e-mails oficiais que ela deletou e pelos quais foi investigada pelo FBI. Hillary ficou calada. O moderador aqui ajudou a candidata, logo repassando a outros assuntos e não se estendendo neste que é um tema incômodo para a secretária de Estado. Mas o ponto foi para Trump.

Ponto para Hillary - Os dois oponentes foram questionados sobre os recentes problemas relativos ao racismo e a atuação policial nos EUA. Trump respondeu fazendo o simples, dizendo que o páis precisava de lei e ordem. Hillary, como esperado, sugeriu que há uma falha no sistema de justiça americano que geralmente deixa em desvantagem o cidadão negro no que tange a seus direitos. Trump poderia ter dado outro golpe mortal em Hillary e questionar se a candidata estaria sugerindo que os policiais americanos e juízes americanos, conhecidos por sua bravura e profissionalissmo, seriam institucionalmente racistas. Não o fez e, novamente por inércia, Hilary marcou um ponto.

Na contagem dos pontos, Hillary ganhou a noite. Mas sua vantagem deve-se a inação de Trump que prefeririu jogar para não perder. E quem joga para não perder, invariavelmente perde. Mas para nossa sorte, muita coisa ainda vai acontecer. The show must go on.