RODRIGO NUNES
Rodrigo de Bem Nunes – O nome é inspirado na obra de Erico Verissimo e o sobrenome deixa evidente; trata-se de um legitimo cidadao de bem. Nasceu e cresceu no glamuroso bairro Canudos, em Novo Hamburgo-RS e hoje vive com a esposa na cidade de Houston, Texas, cidade que considera “uma Bagé com grife”.

26/11/2016 às 14:40

Reportagem Especial: Cuba e os EUA

UMA ILHA A FRENTE DE SEU TEMPO

Se hoje os cubanos fogem de seu país a nado ou em botes improvisados, na década de 1950 acontecia o contrário: estrangeiros mudavam-se para Cuba. Entre 1933 e 1953, mais 74 mil espanhóis, 7.500 alemães e inúmeros americanos saíram para lá viver. Simpatizantes do regime castrista descrevem a ilha dos tempos pré-revolucionários dos anos 50 como um playground cheio de prostitutas baratas, mafiosos ricos e cubanos miseráveis, o que, ironicamente, seria bastante alusivo a condição do país nos dias de hoje. Obviamente que antes de Fidel existiam problemas, bem como existem problemas em qualquer lugar do mundo, mas o fato é que Cuba ostentava antes da revoluçao números sócio-econômicos bem melhores que a média latino-americana da época , fato este até mesmo admitido pelo próprio Che Guevara, como mostra o livro Havana before Castro de Peter Maruzi.

Em meados dos anos 50, havia mais cubanos em férias nos EUA que americanos em Cuba. A classe média cubana era um grupo consumidor tão importante na América, que lojas de Nova York e da Flórida anunciavam promoções nos jornais de Havana, conforme descreve o historiador Louis A. Pérez Jr. no livro Cuba and the United States: Ties of Singular Intimacy. Pela proximidade com os EUA, não apenas o intercâmbio econômico era grande, mas o intercâmbio cultural também. Carmen Miranda, Frank Sinatra, Nat King Cole entre outros se apresentavam nos teatros da ilha caribenha mais badalada de todo Atlântico. “Éramos Las Vegas e a Broadway misturadas, e o mundo todo ia a Havana para nos assistir – contava a cantora Olga Guillot, a “Rainha do Bolero”. E se o assunto é educação, pode-se dizer que os cubanos eram tão ou melhores escolarizados que hoje. A Universidade de Havana, com suas aulas de medicina, farmácia, biologia e direito (onde Fidel Castro estudou) obtia até certo reconhecimento internacional por suas pesquisas na época e, não raro, recebia alunos do mundo todo. Em toda a ilha, havia 1.700 escolas privadas e 22 mil públicas. O país dedicava 23% de seu orçamento à educação – quantia de dar inveja à Pátria Educadora de Dilma Vana.

A MUDANÇA DE POSTURA

O ranço com os americanos começa quando Che e Fidel, ao invés de fazerem um textão ou vestirem-se de preto, decidem em 1959 juntar um grupo de revolucionários para tomar o poder de um outro ditador, Fulgêncio Batista, e instaurar um regime que prometia trazer mais igualdade ao povo cubano. (Soa familiar este tipo de promessa?) Pois bem, Fidel e seus revolucionários expropiaram e estatizam todas as empresas da ilha. Investidores americanos e de outros países, ou seja, pessoas que trabalharam e arriscaram seu dinheiro em novos negócios, perderam tudo do dia para noite. Houve prisões arbitrárias de opositores e fuzilamento de inimigos políticos. Além disso, a proximidade ideológica entre Rússia e Cuba incomodava os Estados Unidos, culminando na crise dos mísseis de 1962, o momento em que o mundo tenha mais estado perto de uma terceira guerra mundial. Cuba esteve muito próxima de lançar ogivas nucleares aos EUA, o que também acabou dando início à infame piadinha “Cuba lançando”, algo terrível. Todos estes fatos fizeram com que os EUA iniciassem um regime de sanções econômicas que perdura até hoje.  Quem reclama da dependência latino-americana por parte do império "estadunidense" é o mesma pessoa que diz que Cuba enfrenta dificuldades econômicas por causa do isolamento comercial dos EUA. Coloque essa contradição para aquele seu amigo de esquerda, prepare a pipoca e observe a gagueira começar.

A VISITA AMERICANA

Após mais de meio século de antagonismo, Obama redefiniu as relações com Cuba nos últimos meses, e a ilha caribenha está mudando pouco a pouco. Não são alterações profundas, mas suficientes para aumentar o fluxo de turistas americanos em 77% apenas neste ano, enchendo hotéis e restaurantes e movimentando a economia. Esta será a primeira visita de um presidente Americano à Cuba em 88 anos. O assunto é controverso, tendo em vista que o regime cubano, mesmo que economicamente mais aberto, permanece praticamente o mesmo em termos políticos. Não há democracia, não há instituições confiáveis, não há liberdade com mais ou menos dinheiro. Ao abrir o mercado para Cuba e aliviar sanções econômicas, os EUA estariam na verdade fortalecendo a ditadura, ao invés de enfraquecê-la. Já os defensores da visita de Obama dizem que se o critério é democracia, os EUA teriam de se retirar imediatamente da China, da Venezuela, da Rússia, do Iraque e de outros países que vivem regimes de exceção ou de quase exceção. Em março de 2016 Obama visitou Cuba e algumas das “Damas de Blanco” (senhoras que vão à missa vestidas de branco aos domingos em protesto silencioso contra Fidel) aproveitaram a visibilidade da visita para se manifestarem de maneira mais clara.  Foram presas. Seu crime: ter uma opinião. Obama nada fez e nada comentou sobre o fato.

"ESTÁ MORTO"

Indo na contra-mão da maioria dos líderes mundiais que fizeram notas de pesar sobre a morte do ditador Cubano, Donald Trump, presidente eleito dos EUA, postou em seu Twitter: "Fidel está morto". A natureza direta da comunicação de Trump mostra que, seguramente, haverá uma mudança de postura para com Cuba. A pergunta que fica é: Estaria o presidente eleito americano disposto a ajudar a mudar a realidade do país Caribenho? Ou estaria Trump mais inclinado a manter um tom indiferente sobre Cuba? Os dias que se seguem apresentarão a resposta. Até lá o povo Cubano seguirá com sua vida, tendo total liberdade de opinião, desde que seja a opinião que a "revolução" queira.