RODRIGO NUNES
Rodrigo de Bem Nunes – O nome é inspirado na obra de Erico Verissimo e o sobrenome deixa evidente; trata-se de um legitimo cidadao de bem. Nasceu e cresceu no glamuroso bairro Canudos, em Novo Hamburgo-RS e hoje vive com a esposa na cidade de Houston, Texas, cidade que considera “uma Bagé com grife”.

28/10/2016 às 17:40 - Atualizado em 19/11/2016 às 13:52

Razões da violência epidêmica: O que especialistas tem a dizer?

Há cerca de dois meses, o jornal Zero Hora promoveu um debate sobre impunidade junto a alguns especialistas, ou seja, pessoas experientes, com estudo e que trabalham com segurança pública e com o sistema prisional em seu cotidiano. Chamou-me atenção algumas das colocações principalmente do promotor Mauro Andrade e do Delegado Ranolfo Júnior, as quais eu transcrevo aqui. Os especialistas são gauchos, o contexto é o Rio Grande do Sul, mas o diganóstico é aplicável a todo país.

Promotor de Justiça Mauro Fonseca de Andrade, Professor de Direito Penal da URFGS e da Escola Superior do Ministério Público:

A PENA PARA QUEM MATA É FICAR EM CASA: A pena para homicídio simples, caso réu primeiro, é de 6 anos. Devido aos problemas de superlotação, o condenado atualmente está indo para o “semi-aberto”, que consiste basicamente em ficar em casa com uma tornozeleira eletrônica. Em resumo: A pena para quem mata, no RS, é ir para casa. Menores de idade ficam no máximo 3 anos em casas de detenção, sendo relativamente raro cumprirem todo o tempo da pena.

OPÇÃO PELO CRIME E PAIS AUSENTES: O promotor Mauro vem fazendo um levantamento junto aos adolescentes que chegam a sua promotoria aprendidos em flagrante. Nos últimos 13 anos ele pergunta diretamente aos jovens infratores se passaram fome, se faltou ou falta roupas, abrigo ou escola. Praticamente 98% dizem que optaram pelo crime, que não trabalham e não estudam porquê não querem e que apesar da vida humilde nunca faltou nada, exceto por um pai presente. A quase totalidade dos jovens envolvidos com o crime vem de famílias em que a figura paterna é nula.

PRESOS QUE ESCOLHEM GALERIAS: Alguns juízes perguntam aos criminosos que chegam ao presídio central de Porto Alegre qual galeria desejam ficar. A grande maioria dos que entram na cadeia já possuem vínculos com facções e para serem protegidos enquanto estão presos, acabam se comprometendo, ao término da pena, a praticar mais crimes como forma de pagamento.

O SALÁRIO DO CRIME: Um pequeno traficante ganha em média R$ 2.500 reais limpos, podendo chegar fácil a R$ 6 mil por mês. O promotor questiona se este jovem, caso as drogas sejam liberadas, vai virar empreendedor repentinamente, pagar tributos e cumprir com todas as exigências e regulações que um empreendimento exige.

Delegado da Polícia Civil Ranolfo Vieira Júnior, ex-chefe de Polícia Civil e ex-chefe do DEIC (Departamento de Investigações Criminais):

SÍNDROME DO “NÃO DÁ NADA”: Há uma cultura entre os criminosos que já está até no jargão policial, chamado de “síndrome do não da nada”. Os criminosos sabem que a punição é uma piada e já incluem o tempo de cadeia como pequeno “contra-tempo”, algo que pode até ser enfrentado caso o resultado do crime compense.

INVERSÃO DE VALORES: Além de não haver rotina ou carga horária, a vida do crime dá status e isso é um forte componente para entrar na vida a margem da lei. Pode parecer algo bobo, mas muitas garotas demonstram mais interesse em garotos que vivem pelo tráfico ou de assaltos, ostentando o que ganham, em detrimento de garotos que começam sua vida profissional com um salário mínimo.

CIDADÃO “DE BEM” E O CRIME: Só existe roubo de carros para desmanche pois na outra ponta há um consumidor que aceita pagar um valor abaixo do mercado de forma ilegal por uma peça.

PRESOS EM DELEGACIAS: Presos estão sendo mantidos em delegacia, o que é contra a lei. Isso é uma tragédia anunciada em função do risco de motins e uma claro exemplo da impunidade. O Estado não cumpre a regra e ninguém é punido por isso.