Guilherme Macalossi

12/04/2017 às 22:36

O complô das casualidades

Seguem três notas que publiquei em meu Facebook sobre a investida de Gilberto Dimenstein contra o Sul Connection e outros sites de linha liberal e conservadora:

Gilberto Dimenstein, do Catraca Livre, quer ser o Joseph Mccarthy da Vila Madalena. Apresenta listas de nomes e sites que estariam em uma grande conspiração orquestrada pelo MBL. Na teoria desse gigante do jornalismo, seríamos todos subordinados ao Kim Kataguiri, o Rockefeller nipônico da nova direita.

Ao listar sites e nomes de direita que estariam ligados ao MBL em uma rede de "notícias falsas", Gilberto Dimenstein faz difamação por associação de casualidades. Eu escrevo algo e o MBL repercute? Então sou testa de ferro deles. Roger Roberto escreve como editor de um site e eventualmente contribui com outro? Então é o articulador de ambos. Sua "denúncia" é pueril. O mais engraçado é que ele força a mão para dar tudo ares de grande investigação. Patético.

A nova direita brasileira, ao contrário do que pressupõe Gilberto Dimenstein, não tem qualquer senso prático de união. Nem quando é atacada em bloco, como é o caso. A reação de muitos liberais e conservadores não foi de defender os sites e nomes acusados, mas de passar carão, dar lições e, é o caso até de alguns dos próprios citados, correr para mostrar independência, pagando pedágio e dando explicações para o Sherlock de araque. "Não temos nada a ver com isso.. nem gostamos do MBL".. Como se a discussão fosse essa. A verdade é que o responsável pelo Catraca Livre está superestimando a capacidade da nova direita em se articular.

09/04/2017 às 01:55 - Atualizado em 09/04/2017 às 03:05

Leandro Karnal e a filosofia que fede a enxofre

Leandro Karnal está relançando o livro "Pecar e pedoar". Por conta disso, concedeu uma entrevista ao jornal O Globo. Na conversa, tentou, com aquele linguajar afetado, demonstrar as virtudes de Lúcifer, comparando ele aos empresários e empreendedores. Também comentou o vexatório episódio em que, por pressão de seu público, se viu forçado a apagar uma fato que tirou com o juiz Sérgio Moro 

Perguntado sobre o "olhar positivo sobre Lúcificer", Karnal respondeu que a "visão positiva de Lúcifer aparece na literatura quando John Milton, em “Paraíso perdido”, põe na boca do demônio a seguinte frase: “é melhor reinar no inferno do que ser escravo no céu”. Essa é uma noção de empreendedor. Prefiro o meu pequeno negócio do que ser empregado numa grande instituição. O empreendedor clássico sempre se orgulha do ilícito. Steve Jobs, na sua biografia, conta que criou uma máquina para roubar o sinal interurbano da AT&T. (...) Lúcifer é o primeiro empreendedor de todos os tempos porque saiu da caixinha. Lúcifer é o sonho do RH, né? (risos). Sem a infração de Lúcifer, assim como a de Adão e Eva, não haveria História. O mundo seria perfeito, com anjos no paraíso. O que criou a História do mundo foi a rebeldia, as quebras do padrão e das estruturas. Todas as vanguardas, sem exceção, são assim."

Tentando apresentar uma abordagem pretensamente inovadora sobre os empresários, Karnal apenas soa como um Toninho do Diabo da filosofia. E sua resposta fede a enxofre. O comparativo, para lá de ofensivo com aqueles que precisam lidar com inúmeras legislações para sobreviver, é revelador de um conhecimento pedestre sobre teologia. 

Em outro momento da entrevista, o repórter questionou Karnal sobre a foto com Sérgio Moro e a polarização política, ao que ele respondeu:

"Somos grandes vigilantes uns dos outros. Estamos num momento polarizado, não é um momento de cinza, mas de preto e branco. Tudo o que não for polar é criticado. Não equilibrado, como chamaríamos no século XIX, mas isentão. Não ser petralha ou coxinha é ser isentão. E o narcisismo hoje é definidor da nossa cultura. De tal forma que a frase que mais se multiplica é “ele me representa” ou “ele não me representa”. Algumas pessoas me disseram isso. “Eu não jantaria com o Moro”. Eu respondi: então, assim que ele te convidar, recuse. Não há problema nenhum nisso. Mas, enquanto for futuro do pretérito, é simplesmente desejo de polaridade invertida. Jesus comeu com Judas na última ceia. Não é o convívio que afeta o seu princípio. Essa necessidade de berrar para o mundo “eu vou te bloquear porque você jantou com quem eu não jantaria” é narcísica e infantil. A decepção advém da perda de controle sobre o outro. Ele não fez o que eu gostaria de fazer. É bom que aconteça isso. Não quero ser marionete da vontade alheia."

Acontece que Karnal, querendo ou não, se portou como uma marionete. Trocou a convicção de tirar uma foto com Sérgio Moro pelo aplauso fácil de seus leitores. Uma atitude nada ética para quem fala tanto do assunto. Além disso, também se valeu de mais um comparativo infeliz e ofensivo utilizando figuras bíblicas: Ao mencionar a ceia de Jesus com Judas, Karnal acabou comparando o juiz de Curitiba com aquele que traiu Nosso Senhor por 30 moedas de ouro. É uma tentativa de se justificar: "Vejam, eu jantei com ele mas não assimelei seu modo de ser, não me sujei". Deplorável. 

Concluo aqui repetindo o que já escrevi em meu Facebook: Tratar de Leandro Karnal não é perda de tempo, como dizem leitores e ouvintes. Karnal é autor de livros com enorme procura pelo público, escreve no Estadão, é comentarista da TV Cultura e um dos palestrantes mais requisitados do país. Dá entrevistas aos borbotões, como essa para o jornal O Globo. A gente perde tempo é quando fala da Marilena Chuí, que gostou de se tornar a caricatura de si mesma. Karnal conta com prestígio e influência. Suas ideias daninhas vem recobertas com uma grossa maquiagem de pose e sofisticação, o que lhe confere respeitabilidade. É esse tipo de gente que precisa ser urgentemente desmascarada.

É preciso exorcizar o pensamento do Toninho do Diabo da filosofia.

 

06/04/2017 às 16:13

Gilberto Dimenstein, o Sherlock de araque da Vila Madalena

No passado, quando era colunista da Folha de SP, Gilberto Dimenstein se esforçava para ser voz influente no jornalismo brasileiro. Hoje, responsável pelo site Catraca Livre, ele tem pretensões mais modestas, como não ser confundido com um proprietário de bar. 

Nas horas vagas, quando não atrapalha a vida dos vizinhos com seus projetos culturais que envolvem música alta, batuque e pinga, banca o Sherlock Holmes da Vila Madalena, empreendendo investigações contra sites que considera disseminadores de notícias falsas. Seu alvo da vez é este Sul Connection, do qual sou colunista e colaborador.

Dimenstein publicou uma série de posts em sua página pessoal no Facebook. Neles, convoca seus leitores a buscarem informações sobre o site e seus responsáveis. O faz naquele linguajar de quem está pronto para descobrir o novo Watergate, tratando o óbvio com um ar de mistério.

O que ele obteve ate´aqui é um portento: Provou que o Sul Connection tem sede, CNPJ e responsáveis. Em outras palavras, provou que o Sul Connection existe, o que só pode ser um crime de lesa-pátria, uma heresia, algo digno das piores práticas jornalísticas.

De resto, formulou questionamentos que levam a lugar nenhum, como querer saber qual o volume de audiência do site e por que temos interesse em fatos ocorridos em SP. A esse conjunto de evidências e perguntas, Dimenstein dá o nome de "jornalismo investigativo". Seria melhor ele parar de passar vergonha, abandonar a área e voltar ao que o consagrou em definitivo: divulgar vídeos de professoras de yoga dando aula sem absorvente.

 

31/03/2017 às 15:53 - Atualizado em 31/03/2017 às 16:04

As Ave Marias de Elias Teixeira

Toda noite, antes de dormir, meu avô sentava-se na cama e rezava uma Ave Maria em companhia de minha avó. Nos últimos 17 anos, o fez com a voz falha e algo balbuciante, típica daqueles que convalescem das sequelas de um AVC. Independente de como a voz saísse, entretanto, lá estava ele para declamar a oração.

Esse momento da rotina de meu avô é ilustrativo do que foi sua vida. Elias Teixeira foi um lutador. Na juventude, se impôs contra as dificuldades da pobreza dos subúrbios de Porto Alegre valendo-se do estudo como arma para progredir na vida. Via pessoas bem vestidas indo para o centro e imaginava um dia fazer o mesmo. Não por se importar com roupas bem costuradas, mas por saber que ir ao centro, naquela época, representava o sucesso pessoal. Foi assim que ele deixou de ser vendedor de legumes e tornou-se promotor de justiça.

Em um país onde o conhecimento é visto com menoscabo, e onde o saber desperta preguiça, é importante destacar quando alguém vence a imposição da ignorância. Conhecer, estudar e saber constituíam o triunvirato de verbos que meu avô usava como mantras ao aconselhar seus filhos e netos. Perdi as contas de quantas vezes me peguei ao lado dele lendo as coleções de enciclopédias que mantinha em sua casa. Ainda tenho em meu quarto muitas das coleções de cadernos e livros que ele juntava e me dava de presente.

Uma vez, passeando pela capital gaúcha, apresentou-me parte da história da cidade e do Estado usando os nomes que batizavam as ruas e os prédios históricos que se erguiam no caminho que percorríamos. Não foi a única vez que a diversão serviu de pretexto para a instrução. E nos divertíamos. Nas viagens, nas jantas, nas conversas ao pé do fogão nas tardes de sábado, no pátio da casa que ele sempre manteve sem grades e nas as ondas do mar de Camboriú em que pulávamos juntos.

De modo que lamento, lamento imensamente por meus primos mais jovens. Tive, junto com minhas irmãs, a oportunidade de desfrutar de meu avô no sentido pleno. Eles também mereciam conhecer essa faceta escondida A do sujeito sapiente e brincalhão, que guardava o bom humor por trás de uma enganosa cara enfezada.

Em seus últimos anos, depois que o destino e a saúde lhe ceifaram a autonomia e o dom da palavra, restou a meu avô carregar o fardo de viver uma vida limitada pelas dificuldades da doença. E assim como no passado enfrentou a pobreza e a ignorância, na velhice lidou corajosamente com uma situação que em muitos aspectos escapava do seu esforço pessoal. Ainda que restrito continuou ao lado da família que construiu até que a erosão do tempo, o único adversário invencível, o levasse aos estertores de sua existência.

De modo que encerro voltando para a cama onde ele sentava para rezar diariamente. Quem o via ali poderia tão somente sentir pena por sua incapacitação física. Mas aqueles que conseguiam transpor o limite do corpo ouviam nos versículos da oração que ele recitava a essência de seu espirito: um homem que não abandou suas crenças, sua fé no amanhã, e a vontade de estar ao lado dos parentes que amava. As Ave Marias que ouvirei a partir daqui nunca deixarão de ter no fundo o som de sua voz.

30/03/2017 às 16:58 - Atualizado em 30/03/2017 às 17:09

Paulo Germano ficou indignado porque querem impedir um museu de ganhar o nome de Luiz Carlos Prestes

O jornalista Paulo Germano, do grupo RBS, publicou um chilique em forma de coluna na última edição de Zero Hora. Criticou o vereador Wambert di Lorenzo por tentar impedir que um museu de Porto Alegre receba o nome do líder comunista Luiz Carlos Prestes.

Para justificar seu ponto, Germano relativiza a história, chamando o assassino e golpista lacaio da União Soviética de "figura controversa". Ele prefere soltar as patas no vereador que foi democraticamente eleito. Sem disfarçar nojo, se refere a Wambert como "católico ligado à Opus Dei", ignorando também que o correto é escrever "o Opus Dei". Cabe a pergunta: Ser católico e do Opus Dei tem qual relação com o fato? Do modo como foi posto, dá a entender que isso descrendecia Wambert.

Mas ele vai além, e acusa o vereador de autoritário. "Quer impor o que deve ser feito no prédio", disse no texto. Não, apenas apresentou um projeto alternativo. Quem quer impor é Paulo Germano, que ataca qualquer um que não aceite o bendito nome de Luiz Carlos Prestes.

Sobre o bendito de Paulo Germano, seguem algumas informações históricas:

Em artigo escrito também para a Zero Hora, o historiador Sérgio da Costa Franco fez um bom resumo de quem foi o líder comunista chamado de "Cavaleiro da Esperança":

"Prestes não passou de um produto perverso do tenentismo das décadas de 20 e 30, agravado pela adesão ao criminoso stalinismo, que ele jamais repudiou, mesmo depois de revelados todos os seus crimes. Nem ele nem seus parceiros da chamada Coluna Invicta jamais foram intérpretes ou mensageiros da democracia. Não se conhece dele um texto de discurso ou de manifesto que ficasse imune ao sectarismo, ou que trouxesse ideias originais para a solução dos problemas brasileiros. Foi sempre, e apenas, um porta-voz da Internacional ou do Cominform, obediente repetidor das fórmulas e ditames do partido soviético."

Prestes, a "figura controversa", era um juiz de seus camaradas. Foi partícipe do justiçamento da militante Elvira Cupelo Colônio, posteriormente chamada de Elza. Acusada de trair o partido, ela foi assassinada por meio de estrangulamento. O relato que segue compõe trecho do livro Combate nas Trevas, do esquerdista Jacob Gorender:

"Elza, que gostava dos serviços caseiros, foi fazer café. Ao retornar, Honório pediu-lhe que sentasse ao seu lado. Era o sinal convencionado. Os outros quatro comunistas adentraram à sala e Lira passou-lhe uma corda de 50 centímetros pelo pescoço, iniciando o estrangulamento. Os demais seguravam a “garota”, que se debatia desesperadamente, tentando salvar-se. Poucos minutos depois, o corpo de “Elza”, com os pés juntos à cabeça, quebrado para que ele pudesse ser enfiado num saco, foi enterrado nos fundos da casa. Eduardo Ribeiro Xavier, enojado com o que acabara de presenciar, retorcia-se com crise de vômitos."

Qual foi o papel de Prestes no episódio? Pressionar os integrantes do "Tribunal Vermelho" que "julgou" Elza por sua execução. Escreveu a eles: "“Fui dolorosamente surpreendido pela falta de resolução e vacilação de vocês. Assim não se pode dirigir o Partido do Proletariado, da classe revolucionária.”

Digno de ter o nome em um museu, não é, Paulo Germano?

Guilherme Macalossi é formado em direito pela UCS e estuda jornalismo na Unisinos. Além de editor do portal Sul Connection é apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM. Escreve para jornais locais, além de ser articulista do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. É colaborador da agência Critério, Inteligência em Conteúdo.