Guilherme Macalossi

10/05/2017 às 22:51 - Atualizado em 10/05/2017 às 23:47

Lula fingiu ponderação na frente de Moro, mas escancarou desprezo pela Justiça em cima do palanque

Escrevo esse texto enquanto ouço o depoimento de Lula na Lava Jato. O resultado foi bem longe de um conflito aberto entre o ex-presidente e o juiz Sérgio Moro, ainda que tenham ocorrido inúmeros momentos de tensão. Muita gente deve ter se decepcionado com a atuação de ambos. Mas, como já havia falado tanto aqui quanto na rádio, se tratava apenas de um ato jurídico padrão. O julgador questiona e o réu responde. E é isso o que se tem.

Na frente de Sérgio Moro, vimos um Lula ignorante em relação a tudo que se passa em seu redor, até mesmo no lar. No que pôde, responsabilizou Marisa Letícia pelo interesse de comprar o apartamento no Guarujá. A impressão que se teve é que fez, informalmente, uma delação contra sua falecida esposa. Sem dúvida um cadáver que veio a calhar. Se antes, em seu velório, ele subiu em cima do caixão dela para fazer um comício, agora ele o abriu para esconder a sujeira dentro.

Não dá para comparar o desempenho dele em Curitiba com o que teve na 10° vara de Brasília, onde falou pelos cotovelos sem contestação nem do juiz e nem dos promotores. Sabendo dos claros riscos que corria, seguiu a orientação de sua defesa, ainda que não tenha conseguido sair completamente ileso da situação. Entrou em clara contradição quando primeiro negou encontros episódicos com diretores da Petrobras e em seguida admitiu o encontro no hangar do Aeroporto de Congonhas com Renato Duque. Na prática, subscreveu o que o delator havia denunciado na última sexta-feira. Também não foi convincente quando teve de responder sobre um documento rasurado e sem assinatura que foi apreendido em sua casa. No documento, havia a adesão à cota de participação no apartamento alvo da investigação. Lula se limitou a desconhecer sua origem.

Em suma, quem acompanha o ex-presidente deve ter ficado assombrado com o estilo contido que ele adotou durante toda sua fala. As respostas quase sempre curtas servem para evitar contradições. O palanqueiro inveterado teve de segurar a língua que utiliza para vituperar contra tudo e contra todos. A desforra veio em seguida, quando se dirigiu a um palanque montado por seus apoiadores. Lá ele mostrou que a ponderação encenada no tribunal servia para disfarçar o seu desprezo pela lei e pela Justiça: "Se um dia eu tiver cometido um erro, não quero ser julgado apenas pela Justiça, mas antes pelo povo brasileiro", disse ele no estilo de sempre.

Como caudilho que é, Lula só considera "condenação" a derrota eleitoral. Tudo o mais constante pode ser considerado uma perseguição, um processo político. Sua relação seria somente com a massa, não com as autoridades constituídas, não com a lei em vigor. Eis ai a mentalidade típica do autoritário. Com esse tipo de argumento ele tenta consolidar a narrativa de que a Lava Jato tem o propósito de tirá-lo da disputa presidencial.

Não, o voto não julga, não condena e nem absolve. Notórios criminosos já foram eleitos para cargos públicos. É caso de Pablo Escobar, o chefão do tráfico de drogas que foi parar no Parlamento Colombiano. Lula será condenado ou absolvido a seu tempo, e só caberá à Justiça fazê-lo. O resto é conversa e perdigoto de quem acha que voto é salvo conduto para delinquir à vontade. 

Guilherme Macalossi é formado em direito pela UCS e estuda jornalismo na Unisinos. Além de editor do portal Sul Connection é apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM. Escreve para jornais locais, além de ser articulista do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. É colaborador da agência Critério, Inteligência em Conteúdo, localizada em Porto Alegre.