Guilherme Macalossi

17/04/2017 às 23:06 - Atualizado em 17/04/2017 às 23:20

Resposta a Emílio Odebrecht. Ou: Todo líder de esquerda é um bon vivant

O depoimento de Emílio Odebrecht, patriarca da família que controla a maior empreiteira do Brasil, escancarou as entranhas da política nacional, e a corrupção como marca indelével da grossa maioria de nossos dirigentes partidários. Os vídeos com trechos das denúncias correm pela internet, e não pretendo falar aqui do que ele imputou a cada um que citou. Já há bastante material aqui no Sul Connection e em outros veículos dando conta desses assuntos.

De modo que o objeto de minha avaliação aqui é um juízo de valor que Emílio Odebrecht faz a respeito de Lula com base em suas conversas com o General Golbery do Couto e Silva. Em dado momento, o empresário relata um encontro que teria tido com o militar, onde Golbery afirmava que Lula "não tem nada de esquerda, ele é um bon vivant". Emílio em seguida completa, concordando: "E é verdade. Ele gosta de uma vida boa, gosta de uma cachacinha...".

Confiram o vídeo completo:



A opinião de Odebrecht sobre Lula é tola e baseada no senso comum de que militantes de esquerda devem necessariamente fazer voto de pobreza, como alguns religiosos mais fervorosos. Por serem de esquerda e odiarem o capitalismo, socialistas deveriam ter aversão ao dinheiro. Ocorre que dinheiro não é o contrário do esquerdismo, e muito menos sinônimo de capitalismo. 

Líderes de esquerda sempre apreciaram o luxo e a vida boa que só o capitalismo pode dar. E isso não os impediu de defender ações e políticas públicas que inviabilizariam o acesso a esses bens e serviços para todo o resto da população. Na verdade, os regimes socialistas nada mais são do que a substituição de uma elite econômica por uma elite político-econômica, que afana as propriedades dos antigos burgueses por meio da força estatal, tornado-se ela mesma detentora de tais propriedades.

Emílio Odebrecht disse que Lula não era de esquerda, e sim um bon vivant. Ele está errado. Basta um breve estudo histórico das lideranças de esquerda para constatar que eram todos uns bon vivants. Fidel Castro, o ditador comunista de Cuba, nadava em dinheiro e figurava nas listas de ricaços da revista Forbes enquanto seu povo era alimentado com ração estatal. Da mesma maneira, Mao Tse Tung tinha dezenas de palacetes a seu dispor, enquanto a fome genocida assolava a China. Diante disso, qual a contradição em ser esquerdista e gostar de uma cachaça?

A fala de Emílio Odebrecht pode parecer menor no contexto atual, mas é reveladora de uma narrativa que certamente a esquerda tentará impor no futuro: Negar o esquerdismo de Lula para se manter imaculada. Eis ai um recurso político constantemente utilizado por ela para passar ao largo de seus crimes e de sua incompetência homicida.

Lula é o fundador da atual esquerda brasileira, mas certamente representa um obstáculo para ela no futuro. Seu envolvimento no maior escândalo da história do Brasil e as características ideológicas do sistema de corrupção que ele dirigiu representam uma sujeira que a esquerda não pode tolerar em seu currículo puro de realizações. A fala de Emílio não absolve Lula do que praticou, mas ajuda a esquerda como conjunto.

Guilherme Macalossi é formado em direito pela UCS e estuda jornalismo na Unisinos. Além de editor do portal Sul Connection é apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM. Escreve para jornais locais, além de ser articulista do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. É colaborador da agência Critério, Inteligência em Conteúdo, localizada em Porto Alegre.