Guilherme Macalossi

17/04/2017 às 14:42

O liberalismo de Roberto Campos nos salvaria do descalabro em que nos metemos

Hoje, 17 de março, Roberto Campos, um dos grandes luminares do pensamento liberal no Brasil, completaria 100 anos. A trajetória do ex-senador, ex-ministro, ex-embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, se confunde com boa parte da trajetória do país ao longo da segunda metade do Século XX.

Para quem quer mais detalhes, sugiro a leitura do monumental Lanterna na Popa, livro em que Roberto Campos conta a história de sua vida, sempre naquele estilo humorístico e debochado que o caracterizava no debate público. Há passagens maravilhosas, como seus encontros e desencontros com Carlos Lacerda. Recomendo enfaticamente a leitura, ainda que seja difícil encontrar a obra a venda. 

Uma das frases mais memoráveis de Campos foi aquela em que apontou as possíveis saídas para o país. Abre aspas:

“Sou chamado a responder rotineiramente a duas perguntas. A primeira é ‘haverá saída para o Brasil?’. A segunda é ‘o que fazer?’. Respondo àquela dizendo que há três saídas: o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo.”

Como é de conhecimento público, a última alternativa apontada por Campos, o liberalismo, jamais frutificou por aqui. Reféns de um dirigismo histórico, e de uma cultura burocrática de adoração do estado total, adotou-se, muito pelo contrário, um linguajar preconceituoso, burro e mal intencionado para caracterizar todos aqueles que defendiam a diminuição das competências governamentais.

O PT e os trabalhistas, liderados por Leonel Brizola, foram os mais enfáticos combatentes da dinamização da economia, da desestatização, do fim daquilo que Paulo Francis chamava de “desenvolvimento via autarquia”. Conclamavam as hostes do atraso, formada por movimentos de esquerda, entidades sindicais e grupos estudantis, a estigmatizar e demonizar o pensamento liberal, coisa que conseguiram com notável sucesso. No vocabulário de guerra dos pretensos defensores do país, estavam adjetivos como “entreguista”, “privatista”, e expressões como “desmonte do estado”, “crime de lesa pátria” e, mais recentemente “privataria”.

Diga-se de passagem, a defesa intransigente que a esquerda sempre fez do país não passava da máscara publicitária e eleitoral da defesa intransigente que a esquerda fazia de seus interesses. O estado volumoso, cheio de instâncias, empresas e repartições, era mais do que necessário para acomodá-la. É típico de seus militantes confundir o conceito de nação, que é a história e cultura de um povo, com cabides de empregos criados por governos.

De modo que é ilustrativo trazer aqui um trecho do depoimento de Marcelo Odebrecht em recente delação premiada tornada pública no âmbito da Operação Lava Jato. Ele fala da Petrobras, e de como se davam indicações para a estatal:



Toda estatal é um prato cheio para a corrupção. Mantê-las sob as asas de partidos políticos e governos é submetê-las ao interesse privado daqueles que detém o poder. É por isso que, principalmente durante o governo petista, elas foram instrumentalizadas em favor de um projeto de poder, que se encorava em uma associação criminosa envolvendo a hegemonia política governamental e o baronato das empreiteiras brasileiras. A fundição perfeita entre público e privado em um estatocapitalismo que tungava o bolso dos brasileiros enquanto amamentava uma matilha de criminosos que pretendiam se perpetuar no poder e garantia contratos ilimitados para empresários interessados em risco zero e negócios fáceis.

É por isso que me espanto quando ouço o reducionismo imbecil de que o problema do Brasil, e verdadeiro responsável pela situação que passamos, é o sistema político e a forma de financiamento de campanhas eleitorais. NÃO É. Se há um culpado de fundo, se chama estatismo.

O estatismo é pai do patrimonialismo, aquela condição do estado onde não se vê diferença entre o público e o privado.

O estatismo é o pai das indicações políticas, que servem para agradar aliados e interesses pessoais.

O estatismo é o pai da ineficiência, que obsta o desenvolvimento.

Longe de mim culpar contextos pela ação de indivíduos. É claro que todos os agentes envolvidos na corrupção endêmica que atingiu o país optaram por delinquir. Mas é inegável que eles acabaram sendo facilitados porque encontram um ambiente adequado para colocar suas práticas espúrias em ação. Tinham estatais para alocar os seus, tinham influência para escolher os vencedores da economia, tinham meios de achacar os que não se submetiam..

De modo que formulo algumas perguntas:

PT, PP e PMDB mandariam na Petrobras se a Petrobras tivesse um dono privado?

Como se pode fazer uma indicação política para uma empresa que já não está no campo de influência de um político?

É mais fácil roubar o dinheiro de um proprietário objetivo, o dono, ou de um proprietário abstrato, o povo?

Qual empresa privatizada foi utilizada como fornecedora de recursos para esquemas criminosos?

Não é preciso pensar ou pesquisar muito para evidenciar que para o Brasil sobreviver, o gigantismo do estado deve ser combatido. Para que a sociedade melhore, é preciso que seu dinheiro fique com ela. Para que tenhamos acesso a melhores serviços, é preciso que esses serviços sejam feitos pela ação de entes privados.

Não sei qual país sairá da Lava Jato. O que se espera que é esse país recupere os ensinamentos de Roberto Campos, dando uma chance para o liberalismo como saída para nossos históricos problemas. Quanto menos estado, menos margem de ação para larápios investidos de cargos. 

Texto base para o editorial da edição do Confronto do dia 17/04/2017

 

Guilherme Macalossi é formado em direito pela UCS e estuda jornalismo na Unisinos. Além de editor do portal Sul Connection é apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM. Escreve para jornais locais, além de ser articulista do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. É colaborador da agência Critério, Inteligência em Conteúdo, localizada em Porto Alegre.