Guilherme Macalossi

13/04/2017 às 18:35

As abstrações da direita e Lula montado na realidade

Sai do 30° Fórum da Liberdade convencido de que os liberais e conservadores brasileiros vivem em uma ilha mental cercada por um oceano de perspectivas populares diferentes. E não me levem a mal, concordo com quase tudo o que foi falado no evento. A questão aqui é de outra ordem: é política e eleitoral. E com esses fatores, os representantes da chamada “nova direita”, nunca souberam lidar de forma adequada, pelo menos não para fazer frente à capacidade de articulação da esquerda.

Muita gente, por exemplo, acha que Lula está morto. Não está. Ao contrário desses que citei, considero o ex-presidente o franco favorito para a disputa presidencial. O cenário está paulatinamente evoluindo para que a esquerda seja a detentora da agenda de debates da eleição de 2018. Lula, com sua incomparável capacidade de leitura do que se passa na sociedade, já sabe disse.

Enquanto João Doria se veste de gari e Bolsonaro fala de nióbio e grafeno, Lula organiza sua pauta usando elementos que são caros para a majoritária parcela da população brasileira. É o caso da Reforma da Previdência. Falar de aposentadoria é o mesmo que falar de futuro. E disso o brasileiro médio entende, ao contrário de bitcoin e de pedaladas fiscais.

O PT perdeu o poder, mas não sua penetração nos movimentos organizados. De modo que sua narrativa flui porque tem eco e interlocutores. Todo o debate feito até aqui sobre Reforma da Previdência tem sido pautado pela esquerda. O que Lula berra em um palanque montado no Nordeste é replicado ad nauseam pelo país. É só constatar o posicionamento daqueles que falam em audiências públicas que tratam do tema.

Ninguém bate Lula no campo da exploração do discurso de ameaça às conquistas dos trabalhadores. E é nisso que ele trabalhado arduamente. Aponta o dedo para o atual governo e dispara as mesmas acusações que utilizava no passado contra outros presidentes do período anterior ao PT. Eles representariam as elites, interessadas em espoliar os pobres. Já ele seria o representante das camadas mais fracas, o defensor dos excluídos.

Queiram ou não, gostem ou não, o fato é que a última era de crescimento econômico do país foi com Lula. E não estou entrando no mérito se aquele crescimento era devido a seu governo ou não, apenas ao fato que tal crescimento se deu naquele momento. Nessas horas é importante deixar de lado as paixões e avaliar as coisas segundo a visão geral do país. E a percepção de amplas camadas da população é que durante o governo Lula ao menos havia bonança. Pode não fazer sentido para nós, mas faz para a maioria dos brasileiros.

Lula pode ser condenado na Lava Jato? Pode, obviamente. Assim como pode não ser. A perspectiva de ele ser inocentado parece completamente descartada pelos críticos da esquerda. Bem, essa possibilidade existe. Encerro convidando os senhores a refletir sobre esse cenário: Lula é inocentado em uma das ações em que é réu, se habilitando para a disputa eleitoral. Durante a campanha, ressalta sua inocência e as consequências do processo que sofreu, lembrando que sua esposa acabou falecendo em meio a tudo isso. Ao mesmo tempo, critica as medidas de austeridade do governo, acusando-o de desmontar a nação e atacar os trabalhadores, que eram melhor tratados em sua época. É ou não uma plataforma poderosa?

Nessa situação, quero ver discurso liberal que dê conta. 

Artigo publicado na edição impressa do Jorna lnformante

Guilherme Macalossi é formado em direito pela UCS e estuda jornalismo na Unisinos. Além de editor do portal Sul Connection é apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM. Escreve para jornais locais, além de ser articulista do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. É colaborador da agência Critério, Inteligência em Conteúdo, localizada em Porto Alegre.