Guilherme Macalossi

09/04/2017 às 01:55 - Atualizado em 09/04/2017 às 03:05

Leandro Karnal e a filosofia que fede a enxofre

Leandro Karnal está relançando o livro "Pecar e pedoar". Por conta disso, concedeu uma entrevista ao jornal O Globo. Na conversa, tentou, com aquele linguajar afetado, demonstrar as virtudes de Lúcifer, comparando ele aos empresários e empreendedores. Também comentou o vexatório episódio em que, por pressão de seu público, se viu forçado a apagar uma fato que tirou com o juiz Sérgio Moro 

Perguntado sobre o "olhar positivo sobre Lúcificer", Karnal respondeu que a "visão positiva de Lúcifer aparece na literatura quando John Milton, em “Paraíso perdido”, põe na boca do demônio a seguinte frase: “é melhor reinar no inferno do que ser escravo no céu”. Essa é uma noção de empreendedor. Prefiro o meu pequeno negócio do que ser empregado numa grande instituição. O empreendedor clássico sempre se orgulha do ilícito. Steve Jobs, na sua biografia, conta que criou uma máquina para roubar o sinal interurbano da AT&T. (...) Lúcifer é o primeiro empreendedor de todos os tempos porque saiu da caixinha. Lúcifer é o sonho do RH, né? (risos). Sem a infração de Lúcifer, assim como a de Adão e Eva, não haveria História. O mundo seria perfeito, com anjos no paraíso. O que criou a História do mundo foi a rebeldia, as quebras do padrão e das estruturas. Todas as vanguardas, sem exceção, são assim."

Tentando apresentar uma abordagem pretensamente inovadora sobre os empresários, Karnal apenas soa como um Toninho do Diabo da filosofia. E sua resposta fede a enxofre. O comparativo, para lá de ofensivo com aqueles que precisam lidar com inúmeras legislações para sobreviver, é revelador de um conhecimento pedestre sobre teologia. 

Em outro momento da entrevista, o repórter questionou Karnal sobre a foto com Sérgio Moro e a polarização política, ao que ele respondeu:

"Somos grandes vigilantes uns dos outros. Estamos num momento polarizado, não é um momento de cinza, mas de preto e branco. Tudo o que não for polar é criticado. Não equilibrado, como chamaríamos no século XIX, mas isentão. Não ser petralha ou coxinha é ser isentão. E o narcisismo hoje é definidor da nossa cultura. De tal forma que a frase que mais se multiplica é “ele me representa” ou “ele não me representa”. Algumas pessoas me disseram isso. “Eu não jantaria com o Moro”. Eu respondi: então, assim que ele te convidar, recuse. Não há problema nenhum nisso. Mas, enquanto for futuro do pretérito, é simplesmente desejo de polaridade invertida. Jesus comeu com Judas na última ceia. Não é o convívio que afeta o seu princípio. Essa necessidade de berrar para o mundo “eu vou te bloquear porque você jantou com quem eu não jantaria” é narcísica e infantil. A decepção advém da perda de controle sobre o outro. Ele não fez o que eu gostaria de fazer. É bom que aconteça isso. Não quero ser marionete da vontade alheia."

Acontece que Karnal, querendo ou não, se portou como uma marionete. Trocou a convicção de tirar uma foto com Sérgio Moro pelo aplauso fácil de seus leitores. Uma atitude nada ética para quem fala tanto do assunto. Além disso, também se valeu de mais um comparativo infeliz e ofensivo utilizando figuras bíblicas: Ao mencionar a ceia de Jesus com Judas, Karnal acabou comparando o juiz de Curitiba com aquele que traiu Nosso Senhor por 30 moedas de ouro. É uma tentativa de se justificar: "Vejam, eu jantei com ele mas não assimelei seu modo de ser, não me sujei". Deplorável. 

Concluo aqui repetindo o que já escrevi em meu Facebook: Tratar de Leandro Karnal não é perda de tempo, como dizem leitores e ouvintes. Karnal é autor de livros com enorme procura pelo público, escreve no Estadão, é comentarista da TV Cultura e um dos palestrantes mais requisitados do país. Dá entrevistas aos borbotões, como essa para o jornal O Globo. A gente perde tempo é quando fala da Marilena Chuí, que gostou de se tornar a caricatura de si mesma. Karnal conta com prestígio e influência. Suas ideias daninhas vem recobertas com uma grossa maquiagem de pose e sofisticação, o que lhe confere respeitabilidade. É esse tipo de gente que precisa ser urgentemente desmascarada.

É preciso exorcizar o pensamento do Toninho do Diabo da filosofia.

 

Guilherme Macalossi é formado em direito pela UCS e estuda jornalismo na Unisinos. Além de editor do portal Sul Connection é apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM. Escreve para jornais locais, além de ser articulista do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. É colaborador da agência Critério, Inteligência em Conteúdo, localizada em Porto Alegre.