Guilherme Macalossi

26/04/2017 às 16:15

Greve de servidor público não tem sentido

Eu juro que não entendo greve de funcionário público. De qualquer tipo de funcionário, diga-se de passagem.

Antes de mais nada, é preciso dizer que quando alguém opta em trabalhar no Estado, passa a prestar serviço ao pagador de impostos, que é o seu verdadeiro patrão. O governante de turno é apenas um tarefeiro, que repassa os recursos oriundos do bolso da sociedade.

A greve existe como método de pressão em uma negociação entre empregados e empregadores. Em geral, é utilizada para forçar uma ação, demonstrando que funcionários tem importância e são vitais para as atividades de uma empresa. Em uma relação puramente privada, a greve é um instrumento absolutamente normal e só diz respeito às duas partes envolvidas, desde que não prejudique terceiros ou aqueles que individualmente preferem não aderir ao ato. A greve, no fim das contas, é uma forma de prejudicar o patrão em nome de uma causa, em geral coletiva, do seu corpo de funcionários.

Quando um conjunto de  funcionários públicos entra em greve, quem sai prejudicada é a sociedade, não o governo, porque que é para ela que os serviços são prestados. Vejam só o que aconteceu com o Espírito Santo quando a força policial parou de trabalhar. Foram os moradores do Estado que sofreram com a violenta onda de crimes que resultou em inúmeros assassinatos e assaltos. Além de imoral, aquela greve foi criminosa.

Da mesma forma, quando um professor decide pela paralização de suas atividades, quem sofre são os alunos e as famílias, não os dirigentes políticos. 

Escrevo essa introdução porque ontem à tarde, em meu Facebook, decidi tomar umas notas sobre funcionalismo público. Na primeira delas escrevi o seguinte:

“Você é um funcionário público e anda desgostoso com o congelamento da remuneração e as péssimas condições de trabalho? Simples: Peça exoneração e vá para a iniciativa privada. Não precisa ficar sofrendo.”

Foi o que bastou para que uma verdadeira repartição de integrantes da categoria fosse em minha conta protestar e babar contra as supostas “generalizações” que tinha feito. Alguns, se dizendo eficientes, o fizeram em horário de expediente. Haja a eficiência para futricar em rede social e carimbar papel papel ao mesmo tempo. Em resposta, apenas comentei:

“Se um funcionário de uma empresa se considera bom o suficiente e acha que seu empregador não o valoriza ou não lhe propicia um ambiente adequado, ele pede demissão e busca um emprego à altura de sua capacidade. É por isso que convidei os funcionários públicos inconformados com sua remuneração e condições de trabalho a deixarem o setor público e irem para o privado. O que há de ofensivo nisso?”

E de fato, não há ofensa alguma, há apenas a realidade. Convido os leitores a raciocinarem comigo: Quando alguém resolve fazer um concurso qualquer, ele não sabe que está prestando para um cargo público no Brasil? Não examina o edital, com especial atenção para a remuneração oferecida pela atividade? Não conhece o contexto das finanças em geral?

Porque se examina os três, sabe que as condições de trabalho estatais no Brasil são péssimas, com instalações antiquadas, equipamentos velhos e muita, muita burocracia. Sabe também que, a menos que o concurso seja para cargos de importância relativa ou elevada, os valores que são pagos são baixos. E, principalmente, sabe que as dificuldades de caixa acabam levando ao congelamento dos vencimentos, quando não o parcelamento e a total inadimplência para com os servidores.

De modo que a pessoa que faz concurso sabe muito bem onde está se metendo, e não pode depois fingir que imaginava outra coisa. Não se deve esperar nada do Estado em qualquer lugar do mundo, muito menos no Brasil.

Não, não estou entre aqueles que querem acabar com o funcionalismo. Até porque, dado ao contexto legal brasileiro, que se constitui de uma série de legislações altamente burocráticas, intrusivas, e que estabelecem prerrogativas e atribuições aos governos, é praticamente impossível praticar tal agenda, pelo menos no curto prazo. Mas é possível buscar a modernização, uma maior eficiência, um alto grau de desempenho, todos eles tendo como meta uma gestão governamental que seja equivalente a de uma empresa. E não nego aqui que existam setores do funcionalismo que já se encontram sob esses novos parâmetros de atuação.

Eu mesmo já trabalhei do outro lado do balcão. Em 2012, desempenhei a função de Secretário de Finanças, experiência que julgo importante, mas que não repetirei em minha vida. E no comando de uma pasta de governo, tive a oportunidade de ver que sim, há gente comprometida, seja entre os concursados, seja entre os igualmente estigmatizados cargos de confiança.

Mas também vi que há vícios, que há ineficiência, que há má vontade. Muito disso também pela letargia natural do Estado, mas também porque há uma acomodação natural de muitos dos que lá trabalham. A lógica paquidérmica impera.

O caldo cultural que nos levou a isso data de priscas eras, e não pretendo me delongar aqui com uma análise histórica. O fato é que houve uma contaminação geral por aquilo que podemos chamar de “espírito concurseiro”, um modo de agir que se entronizou na vida nacional.

No Brasil o concurso público é visto como o tópos profissional, o objetivo último de quem quer se dar bem. É uma triste realidade. Quando você é inteligente, ou demonstra a mínima aptidão para determinada função, surge alguém para lhe dizer: “O que está esperando, faça um concurso”. Assinalei em meu Facebook o seguinte, ao responder o comentário de uma leitora:

“Entre os comentários que recebi em virtude de meus posts sobre o funcionalismo público, veio um de uma senhora dizendo que ‘estudou para obter a vaga’. Esse é o argumento típico do país dos concurseiros. Sim, para trabalhar no Estado é preciso passar em uma prova de conhecimentos, mas e quem disse que isso não é exigido no mercado? Profissionais liberais e trabalhadores privados também precisam conhecer, se atualizar e estudar se querem continuar com seus empregos. E eles ainda tem um agravante: estão sujeitos a serem demitidos, uma vez que jamais adquirem estabilidade. No concurso basta uma prova. No mercado é preciso provar todo dia.”

É preciso acabar com essa ideia estúpida e equivocada de que os servidores, por se submeterem a concursos, são mais inteligentes e preparados do que aqueles que preferem enfrentar o mercado de trabalho. É preciso agir contra aquilo que dá respaldo a essa mentalidade atrasada que considera o Estado o empregador do sonhos e seus funcionários uma casta de iluminados superiores.

Tema do editorial do Confronto de 26/04/2017 e 27/04/2017
 

24/04/2017 às 14:59 - Atualizado em 24/04/2017 às 15:01

Leonardo Boff, oportunisticamente, perde a fé em Lula

Leonardo Boff, o frei que resolveu fazer carreira religiosa ajoelhando no altar de Karl Marx, é a mais nova celebridade esquerdista a abandonar a nau de Lula. Em seu blog, ele subscreveu um artigo de Carla Jiménez, jornalista do El País.

O texto de Jiménez dá vazão não apenas à narrativa que a esquerda tem imposto com enorme sucesso no debate público, mas também a um movimento que poderá ganhar ainda maior força nos próximos meses, dependendo de como se dará o desenrolar dos processos em que Lula é réu na Lava Jato: a sua exclusão do esquerdismo nacional. O sinal amarelo ressoou com as delações da Odebrecht e no depoimento em que Léo Pinheiro acusa Lula de mandar destruir provas da Lava Jato.

Primeiro vamos nos deter ao referido texto, para depois fazer o link com Leonardo Boff.

Jiménez começa tratando da elite política:

“Depreende-se das horas de gravação da delação da Odebrecht uma elite hipócrita, amoral e mesquinha que enxerga o Brasil como uma S.A. para seu usufruto, e não como a sociedade que deveria ser.

Mais adiante ela fala do procedimento de tal elite, que teria fatiado o país, dividindo “entre os partidos políticos, tal qual o boi nos cartazes do açougue, segundo as investigações.”

Ela continua:

“Cada pedaço pertence a um partido, a uma facção da legenda, e, confirmando-se as acusações da Lava Jato, seu trabalho parlamentar fica reduzido ao de um despachante, ou corretores de influência, cobrando uma fração do sucesso dos negócios com o Governo, pelo que consta até aqui. As diretorias da Petrobras era do PT, PP e PMDB. A Câmara, da turma do Temer e do Eduardo Cunha. O Senado, de Eunício Oliveira e Renan Calheiros, segundo delação de Delcídio do Amaral. As hidrelétricas de Furnas, do PSDB de Aécio, segundo Marcelo Odebrecht. O metrô de São Paulo, do PSDB paulista, segundo as investigações. E assim por diante. Está tudo ali, para quem quiser ver. Definitivamente, a propinocracia brasileira tem muitos reis.”

Desde algum tempo tem prevalecido a narrativa de que “todos são iguais”. Não haveria diferença objetiva entre o PP e o PT, por exemplo. É a tese da esquerda e, vejam só, da Procuradoria Geral da República! Com ela, perdeu-se a hierarquia do sistema criminoso. O que era uma pirâmide passou a ser uma linha horizontal, onde equânimes dilapidavam o patrimônio público sem um chefe, sem um organizador, sem uma engrenagem e atores definidos.

Todo o escândalo de corrupção apurado até aqui começou de forma industrializada durante a administração petista. A corrupção não como fim, mas como meio de se manter no poder. No processo, sócios minoritários, representados por outros partidos políticos, também obtiveram seus ganhos, mas é inegável que havia uma cadeia de comando, um centro nervoso de todas as operações sujas.

A esquerda, em virtude de uma estratégia política, e o Ministério Público Federal, por pundonor moralizante, venderam a falácia de que a coisa toda é um sistema pré-existente, maior do que os partidos políticos e anterior a esse ou aquele governo.

Se a responsabilidade última é uma abstração chamada "Sistema", então não há culpados objetivos. Lula e o PT são inocentes porque tudo teria ocorrido em virtude de uma lógica e um método de ação implementados paulatinamente ao longo do tempo. Convenientemente se terceiriza a culpa, tornando todos iguais ante os olhos da sociedade.

Em mais de uma ocasião eu vi conhecidos e amigos comentando que “são todos iguais”, ainda que mesmo entre os ladrões existam diferenças. Os ladrões comuns roubam para satisfazer sua gula momentânea por posses e riqueza, já os ladrões revolucionários roubam como instrumento de destruição da democracia e hegemonização do poder.

Vejam que na própria na lista de abertura de inquéritos elaborada pela PGR, há a aposta na confusão deliberada. Eventual caixa 2 é colocado no mesmo balaio da propina e da corrupção passiva. Ainda que nenhum desses métodos seja louvável ou ético, há diferenças de gravidade. Todas elas são omitidas, entretanto. 

E é nesse contexto que Jiménez trata de Lula. E ela o faz naquele tom ofendido de quem se pretende se vender como “iludida”. Trata o ex-presidente como uma decepção. Mas na crítica há método, como farei notar em seguida. Primeiro o trecho do artigo dela:

“Lula, por outro lado, mais do que os crimes a que responde, feriu de golpe a esquerda no Brasil. Ajudou a segregá-la, a estigmatizar suas bandeiras sociais e contribuiu diretamente para o crescimento do que há de pior na direita brasileira. Se embebedou com o poder. Arvorou-se da defesa dos pobres como álibi para deixar tudo correr solto e deixou-se cegar. Martelou o discurso de ricos contra pobres, mas tinha seu bilionário de estimação. Nada contra essa amizade. Mas com que moral vai falar com seus eleitores?”

Se há uma coisa que Lula merece, ao contrário do que disse a jornalista, são todas as homenagens da esquerda, não só da brasileira mas da latino-americana. Em nosso país, foi por meio da sua imagem de "Lulinha Paz e Amor" que ele rompeu com o histórico brucutu raivoso de nossa esquerda, colocando ela no jogo do poder real ao abraçar causas que são caras para a classe média. Foi ele e sua estratégia de acomodação com as antigas oligarquias que sedimentou o PT no poder, possibilitando outras correntes e movimentos radicais receber o farto financiamento que anteriormente era marginal. Do ponto de vista da América Latina, sua iniciativa de criar o Foro de São Paulo permitiu uma ação estratégica em bloco no continente, de modo que a esquerda se espalhou por diversos países.

É claro que Jiménez não acredita em nada do que escreveu, mas faz uso do velho estratagema das esquerdas: Se ver livre de quem a serviu quando este já não pode ajudar mais. É o que aconteceu com Trotsky, para ficar com o caso clássico de eliminação sumária.

Lula representou a renovação da esquerda brasileira depois da ditadura militar. Agora, tragado pelo escândalo de corrupção que teve como grande beneficiada a própria esquerda, começa a ser renegado por ela. É preciso apresentar uma “nova esquerda”, livre de casos como esse da Lava Jato.

É por isso que Leonardo Boff se apressou em compartilhar a publicação de Jiménez. No texto introdutório que produziu ele argumenta que “Enganam-se aqueles que eu, pelo fato de defender as políticas sociais que beneficiaram milhões de excluídos, realizadas pelos dois governos anteriores, do PT e de seus aliados, tenha defendido o partido”. Claro, ele nunca teve nada a ver com a política real. Era um entusiasta da humanística “causa dos empobrecidos”.

Antes de Boff, quem voltou a pisotear em Lula foi Paulo Henrique Amorim. O narrador de vídeo cassetadas da TV Record não chegou a dizer que o ex-presidente cometeu crimes, mas considerou as ligações de Lula com a Odebrecht como aéticas e não compatíveis com as atitudes que um “líder popular” deveria ter. Com desenvoltura, como fazem os oportunistas, pediu licença e se escafedeu.

Confiram o vídeo e se assombrem:



O movimento de abandono a Lula ainda é incipiente. A esquerda não encontrou seu sucessor natural. Alguns se voltam para Marina Silva e seu dicionário verde de declarações enigmáticas. Outros preferem o estilo arretado de Ciro Gomes, aquele que disfarça a ignorância econômica com o linguajar pegajoso de Odorico Paraguaçu. 

Seja como for, estamos diante de um movimento bastante claro que levará inexoravelmente a um de dois caminhos. Se Lula afundar de vez na Lava Jato, será devidamente renegado por quem antes o adulava. Se conseguir superar as acusações e dar a volta por cima, será reverenciado como herói da esquerda, com o apoio de todos os vigaristas covardes que ensaiaram o desprezar quando ele se enfraqueceu.

17/04/2017 às 23:06 - Atualizado em 17/04/2017 às 23:20

Resposta a Emílio Odebrecht. Ou: Todo líder de esquerda é um bon vivant

O depoimento de Emílio Odebrecht, patriarca da família que controla a maior empreiteira do Brasil, escancarou as entranhas da política nacional, e a corrupção como marca indelével da grossa maioria de nossos dirigentes partidários. Os vídeos com trechos das denúncias correm pela internet, e não pretendo falar aqui do que ele imputou a cada um que citou. Já há bastante material aqui no Sul Connection e em outros veículos dando conta desses assuntos.

De modo que o objeto de minha avaliação aqui é um juízo de valor que Emílio Odebrecht faz a respeito de Lula com base em suas conversas com o General Golbery do Couto e Silva. Em dado momento, o empresário relata um encontro que teria tido com o militar, onde Golbery afirmava que Lula "não tem nada de esquerda, ele é um bon vivant". Emílio em seguida completa, concordando: "E é verdade. Ele gosta de uma vida boa, gosta de uma cachacinha...".

Confiram o vídeo completo:



A opinião de Odebrecht sobre Lula é tola e baseada no senso comum de que militantes de esquerda devem necessariamente fazer voto de pobreza, como alguns religiosos mais fervorosos. Por serem de esquerda e odiarem o capitalismo, socialistas deveriam ter aversão ao dinheiro. Ocorre que dinheiro não é o contrário do esquerdismo, e muito menos sinônimo de capitalismo. 

Líderes de esquerda sempre apreciaram o luxo e a vida boa que só o capitalismo pode dar. E isso não os impediu de defender ações e políticas públicas que inviabilizariam o acesso a esses bens e serviços para todo o resto da população. Na verdade, os regimes socialistas nada mais são do que a substituição de uma elite econômica por uma elite político-econômica, que afana as propriedades dos antigos burgueses por meio da força estatal, tornado-se ela mesma detentora de tais propriedades.

Emílio Odebrecht disse que Lula não era de esquerda, e sim um bon vivant. Ele está errado. Basta um breve estudo histórico das lideranças de esquerda para constatar que eram todos uns bon vivants. Fidel Castro, o ditador comunista de Cuba, nadava em dinheiro e figurava nas listas de ricaços da revista Forbes enquanto seu povo era alimentado com ração estatal. Da mesma maneira, Mao Tse Tung tinha dezenas de palacetes a seu dispor, enquanto a fome genocida assolava a China. Diante disso, qual a contradição em ser esquerdista e gostar de uma cachaça?

A fala de Emílio Odebrecht pode parecer menor no contexto atual, mas é reveladora de uma narrativa que certamente a esquerda tentará impor no futuro: Negar o esquerdismo de Lula para se manter imaculada. Eis ai um recurso político constantemente utilizado por ela para passar ao largo de seus crimes e de sua incompetência homicida.

Lula é o fundador da atual esquerda brasileira, mas certamente representa um obstáculo para ela no futuro. Seu envolvimento no maior escândalo da história do Brasil e as características ideológicas do sistema de corrupção que ele dirigiu representam uma sujeira que a esquerda não pode tolerar em seu currículo puro de realizações. A fala de Emílio não absolve Lula do que praticou, mas ajuda a esquerda como conjunto.

17/04/2017 às 14:42

O liberalismo de Roberto Campos nos salvaria do descalabro em que nos metemos

Hoje, 17 de março, Roberto Campos, um dos grandes luminares do pensamento liberal no Brasil, completaria 100 anos. A trajetória do ex-senador, ex-ministro, ex-embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, se confunde com boa parte da trajetória do país ao longo da segunda metade do Século XX.

Para quem quer mais detalhes, sugiro a leitura do monumental Lanterna na Popa, livro em que Roberto Campos conta a história de sua vida, sempre naquele estilo humorístico e debochado que o caracterizava no debate público. Há passagens maravilhosas, como seus encontros e desencontros com Carlos Lacerda. Recomendo enfaticamente a leitura, ainda que seja difícil encontrar a obra a venda. 

Uma das frases mais memoráveis de Campos foi aquela em que apontou as possíveis saídas para o país. Abre aspas:

“Sou chamado a responder rotineiramente a duas perguntas. A primeira é ‘haverá saída para o Brasil?’. A segunda é ‘o que fazer?’. Respondo àquela dizendo que há três saídas: o aeroporto do Galeão, o de Cumbica e o liberalismo.”

Como é de conhecimento público, a última alternativa apontada por Campos, o liberalismo, jamais frutificou por aqui. Reféns de um dirigismo histórico, e de uma cultura burocrática de adoração do estado total, adotou-se, muito pelo contrário, um linguajar preconceituoso, burro e mal intencionado para caracterizar todos aqueles que defendiam a diminuição das competências governamentais.

O PT e os trabalhistas, liderados por Leonel Brizola, foram os mais enfáticos combatentes da dinamização da economia, da desestatização, do fim daquilo que Paulo Francis chamava de “desenvolvimento via autarquia”. Conclamavam as hostes do atraso, formada por movimentos de esquerda, entidades sindicais e grupos estudantis, a estigmatizar e demonizar o pensamento liberal, coisa que conseguiram com notável sucesso. No vocabulário de guerra dos pretensos defensores do país, estavam adjetivos como “entreguista”, “privatista”, e expressões como “desmonte do estado”, “crime de lesa pátria” e, mais recentemente “privataria”.

Diga-se de passagem, a defesa intransigente que a esquerda sempre fez do país não passava da máscara publicitária e eleitoral da defesa intransigente que a esquerda fazia de seus interesses. O estado volumoso, cheio de instâncias, empresas e repartições, era mais do que necessário para acomodá-la. É típico de seus militantes confundir o conceito de nação, que é a história e cultura de um povo, com cabides de empregos criados por governos.

De modo que é ilustrativo trazer aqui um trecho do depoimento de Marcelo Odebrecht em recente delação premiada tornada pública no âmbito da Operação Lava Jato. Ele fala da Petrobras, e de como se davam indicações para a estatal:



Toda estatal é um prato cheio para a corrupção. Mantê-las sob as asas de partidos políticos e governos é submetê-las ao interesse privado daqueles que detém o poder. É por isso que, principalmente durante o governo petista, elas foram instrumentalizadas em favor de um projeto de poder, que se encorava em uma associação criminosa envolvendo a hegemonia política governamental e o baronato das empreiteiras brasileiras. A fundição perfeita entre público e privado em um estatocapitalismo que tungava o bolso dos brasileiros enquanto amamentava uma matilha de criminosos que pretendiam se perpetuar no poder e garantia contratos ilimitados para empresários interessados em risco zero e negócios fáceis.

É por isso que me espanto quando ouço o reducionismo imbecil de que o problema do Brasil, e verdadeiro responsável pela situação que passamos, é o sistema político e a forma de financiamento de campanhas eleitorais. NÃO É. Se há um culpado de fundo, se chama estatismo.

O estatismo é pai do patrimonialismo, aquela condição do estado onde não se vê diferença entre o público e o privado.

O estatismo é o pai das indicações políticas, que servem para agradar aliados e interesses pessoais.

O estatismo é o pai da ineficiência, que obsta o desenvolvimento.

Longe de mim culpar contextos pela ação de indivíduos. É claro que todos os agentes envolvidos na corrupção endêmica que atingiu o país optaram por delinquir. Mas é inegável que eles acabaram sendo facilitados porque encontram um ambiente adequado para colocar suas práticas espúrias em ação. Tinham estatais para alocar os seus, tinham influência para escolher os vencedores da economia, tinham meios de achacar os que não se submetiam..

De modo que formulo algumas perguntas:

PT, PP e PMDB mandariam na Petrobras se a Petrobras tivesse um dono privado?

Como se pode fazer uma indicação política para uma empresa que já não está no campo de influência de um político?

É mais fácil roubar o dinheiro de um proprietário objetivo, o dono, ou de um proprietário abstrato, o povo?

Qual empresa privatizada foi utilizada como fornecedora de recursos para esquemas criminosos?

Não é preciso pensar ou pesquisar muito para evidenciar que para o Brasil sobreviver, o gigantismo do estado deve ser combatido. Para que a sociedade melhore, é preciso que seu dinheiro fique com ela. Para que tenhamos acesso a melhores serviços, é preciso que esses serviços sejam feitos pela ação de entes privados.

Não sei qual país sairá da Lava Jato. O que se espera que é esse país recupere os ensinamentos de Roberto Campos, dando uma chance para o liberalismo como saída para nossos históricos problemas. Quanto menos estado, menos margem de ação para larápios investidos de cargos. 

Texto base para o editorial da edição do Confronto do dia 17/04/2017

 

13/04/2017 às 18:35

As abstrações da direita e Lula montado na realidade

Sai do 30° Fórum da Liberdade convencido de que os liberais e conservadores brasileiros vivem em uma ilha mental cercada por um oceano de perspectivas populares diferentes. E não me levem a mal, concordo com quase tudo o que foi falado no evento. A questão aqui é de outra ordem: é política e eleitoral. E com esses fatores, os representantes da chamada “nova direita”, nunca souberam lidar de forma adequada, pelo menos não para fazer frente à capacidade de articulação da esquerda.

Muita gente, por exemplo, acha que Lula está morto. Não está. Ao contrário desses que citei, considero o ex-presidente o franco favorito para a disputa presidencial. O cenário está paulatinamente evoluindo para que a esquerda seja a detentora da agenda de debates da eleição de 2018. Lula, com sua incomparável capacidade de leitura do que se passa na sociedade, já sabe disse.

Enquanto João Doria se veste de gari e Bolsonaro fala de nióbio e grafeno, Lula organiza sua pauta usando elementos que são caros para a majoritária parcela da população brasileira. É o caso da Reforma da Previdência. Falar de aposentadoria é o mesmo que falar de futuro. E disso o brasileiro médio entende, ao contrário de bitcoin e de pedaladas fiscais.

O PT perdeu o poder, mas não sua penetração nos movimentos organizados. De modo que sua narrativa flui porque tem eco e interlocutores. Todo o debate feito até aqui sobre Reforma da Previdência tem sido pautado pela esquerda. O que Lula berra em um palanque montado no Nordeste é replicado ad nauseam pelo país. É só constatar o posicionamento daqueles que falam em audiências públicas que tratam do tema.

Ninguém bate Lula no campo da exploração do discurso de ameaça às conquistas dos trabalhadores. E é nisso que ele trabalhado arduamente. Aponta o dedo para o atual governo e dispara as mesmas acusações que utilizava no passado contra outros presidentes do período anterior ao PT. Eles representariam as elites, interessadas em espoliar os pobres. Já ele seria o representante das camadas mais fracas, o defensor dos excluídos.

Queiram ou não, gostem ou não, o fato é que a última era de crescimento econômico do país foi com Lula. E não estou entrando no mérito se aquele crescimento era devido a seu governo ou não, apenas ao fato que tal crescimento se deu naquele momento. Nessas horas é importante deixar de lado as paixões e avaliar as coisas segundo a visão geral do país. E a percepção de amplas camadas da população é que durante o governo Lula ao menos havia bonança. Pode não fazer sentido para nós, mas faz para a maioria dos brasileiros.

Lula pode ser condenado na Lava Jato? Pode, obviamente. Assim como pode não ser. A perspectiva de ele ser inocentado parece completamente descartada pelos críticos da esquerda. Bem, essa possibilidade existe. Encerro convidando os senhores a refletir sobre esse cenário: Lula é inocentado em uma das ações em que é réu, se habilitando para a disputa eleitoral. Durante a campanha, ressalta sua inocência e as consequências do processo que sofreu, lembrando que sua esposa acabou falecendo em meio a tudo isso. Ao mesmo tempo, critica as medidas de austeridade do governo, acusando-o de desmontar a nação e atacar os trabalhadores, que eram melhor tratados em sua época. É ou não uma plataforma poderosa?

Nessa situação, quero ver discurso liberal que dê conta. 

Artigo publicado na edição impressa do Jorna lnformante

Guilherme Macalossi é formado em direito pela UCS e estuda jornalismo na Unisinos. Além de editor do portal Sul Connection é apresentador do programa Confronto, na Rádio Sonora FM. Escreve para jornais locais, além de ser articulista do Instituto Liberal do Rio de Janeiro. É colaborador da agência Critério, Inteligência em Conteúdo.